O que eu faço com o que o tempo faz de mim? A primeira resposta que sobe à superfície é faço tudo rápido. Tenho pensado sobre a pressa. Poderia escrever oito parágrafos para elogiar o seu oposto. Frasear, inocente, a lentidão em apologia. Acontece que a vida não é tão simples; e eu talvez tenha alguma culpa. A aceleração é um efeito, e as causas me ultrapassam longamente, mas em algumas delas eu me reafirmo em escolha. Afinal, eu quero muitas coisas. Não posso evitar de ler o romance que me encanta, e depois ver o filme que me instiga, e ainda ler poesia antes de dormir — isso depois de lavar roupa e preparar o almoço e entregar o imposto de renda e dar aulas e, e, e. Gosto também de trocar centenas de mensagens, e me sentir acompanhado pelos amigos em meio a tudo isso. No entanto, eu sofro da ansiedade como se trouxesse no peito um motor superaquecido. E eu só o percebo depois de me queimar.
Agora mesmo, enquanto escrevo este texto, estou fumando um café e bebendo um cigarro. Tudo ao mesmo tempo. Eu poderia parar: sentir o perfume dos grãos negros, moídos às pressas dois minutos atrás; sentir a onda perversa da nicotina me invadir os pulmões; sentir a textura dos dedos a percutir as letras coloridas do teclado. Mas não o faço. Ou talvez o faça com palavras. O que não muda o fato de que o faço tudo junto. E rápido. Eu vivo a vários quilômetros por hora.
O pensamento em sua pista, ora aqui ora acolá, perto, longe, sobe à pele, viaja para outro país. Hoje estou pensando em ontem e amanhã. Se eu quisesse parar, pararia exatamente aqui, e faria o elogio da presença. Já o fiz mais de uma vez, em outros ontens, e talvez o faça em alguns amanhãs. Este agora que é tão precioso. A questão é que nem sempre. Neste agora eu estou longe ainda que esteja aqui. Estou naquele agora para o qual retorno; e naquele agora que antecipo. Preciso admitir que gosto. Passado e futuro são imensos, e por isso perigosos. São feitos de trilhas infinitas, porque imaginárias. Agora, o agora não. Ele é e está, sendo e estando. Pequeno presente de grande valor. Escolhê-lo é prudente — espanta os tubarões.
Tubarões, porém, são criaturas bastante incríveis. Dizem que eles são mais antigos que as árvores. Mas não há como encontrá-los em terra firme. É preciso se lançar, e a imaginação é um alto-mar. Eu a escolho navegar, às vezes tomado de náusea, sempre afetado de anseio. Numa embarcação o chão balança, e o horizonte te circunda de promessas. Soltar o presente é encarar esse traço infinito que sobe e desce, sobe e desce, sobe ao céu e desce ao mar, voa alto e mergulha fundo, voa livre e mergulha longe. Existo como maré em vagas. Ondas e devaneios. Todo mar é um, começo do caminhar, pra dentro do fundo azul.
Azul. Que nome exótico tem essa cor tão comum. Deve ser interessante a história de como se nomearam as cores. Não a conheço. Seria fácil descobrir com alguns cliques; me demorar nessa pergunta, porém, amplia o contato. O não saber é um acesso a outros modos de saber. Me lembrei de uma pedra chamada lápis lazúli, me foi apresentada aos montes no Chile, onde me contaram que o intenso azul daquele mundo provinha da tritura mineral. Tintura mineral, vida colorida à base de pedra. Onde fui parar? É difícil aportar, mas é preciso. Tenho um pacto a zelar com o sentido.
É assim que navego pelos dias. Sou uma alucinação que se obriga a parar, porque precisa. Já adiei o almoço por mais uma hora para continuar escrevendo, e não há corpo que resista ao imperativo da imaginação. (A razão rasgada em pedacinhos.) Estou ciente da saúde, em acordo com a função, resignado ao equilíbrio. Mas não posso evitar o encanto – e ele põe tudo a perder. (Keith Jarrett tocando Over The Rainbow em Tóquio, 1984.) Nem sei como retomar o raciocínio planejado para estas linhas. Só sei que preciso continuar aqui olhando para elas por mais tempo.
Ah, é isso, já estava tudo dito no título. Foi assim que a ideia apareceu, como um lampejo confuso de quatro palavras que sabiam que em mim haveria algumas horas a lhes dedicar. Pois eu me demoro em textos. Porque as palavras me encantam. Mas não só. Eu me atraso porque no meio do caminho tinha um cão muito amável chamado Gaia; eu me perco porque no meio do caminho tinha a lembrança do gosto do sal num dia de Sol; eu me distraio porque no meio do caminho tinha uma pedra, e por acaso era a Lua.
O extra desorganiza o ordinário. E eu não consigo ou não quero fechar os olhos por completo. Prefiro o custo do desvario à gratuidade do banal; por isso não posso apostar na calma como diretriz geral da minha vida, não posso evitar a ânsia apressada por viver. O que posso é perceber a ocasião que me convida a ralentar. Me cabe atenção ao que não posso deixar de querer lento, àquilo que se impõe a despeito das tarefas, e me interrompe o ensaboar dos pratos. Não importa se é o fio de uma memória que preciso anotar antes que escape, se é a visão de um gato a buscar preguiçosamente nos telhados o lugar perfeito para o repouso, se é o inevitável antecipar do próximo encontro. Passado presente ou futuro, não importa; no tempo, a urgência é minha. E aproveito o que me convoca para fazer dele o que quero. Que o almoço atrase, que o prazo aperte, que a louça fique pela metade, mas que naquilo que me acontece eu esteja inteiro.
Respeito a placidez dos monges — não tenho nada contra a vida pacata —, mas o nascer do Sol me excita. Me embriago de calor, e sigo por caminhos trôpegos. Não estou mais interessado em escolher entre a calma e a pressa, eu preciso de ambas. Às vezes correr; às vezes caminhar. Depende se chove se venta se cabe se sobra se falta se vale — se. Não sou eu que decido, mas estou atento. Cuido do que me interrompe a ordem dos dias.
Sei que o atraso cobrará seu preço, que deixar para depois torna difícil o depois; sei que a calma aqui me obriga a correr atrás lá; sei, em suma, que vou me queimar. Mas não posso mentir, e dizer que prometo parar. Uma parte inexplicavelmente viva de mim brinca com o fogo. Por isso não me permito esquecer que, assim como a dor, também a ansiedade é parte do que é grande. Sofrerei do tempo porque desejo tanto. Eu me atraso por causa da dúvida sobre o lugar de uma vírgula, e isso diz algo sobre mim: onde me demoro mora a paixão.





