Confundimos a morte com as figuras da ausência. No entanto, ela se faz presente. A morte sabe ser surpreendente e terrível, seria difícil argumentar sua ordinariedade em todos os casos. Mas o fato é que para muitos de nós a morte anuncia delicadamente a chegada. Não bate à porta de repente, toc toc vamos, ela manda um alô, acena de longe, e grita se cuida! Ela entrega esses sinais por meio de por exemplo… rugas. Contraditórias rugas, que são, ao mesmo tempo, incômodos vincos e graciosos rastros, marcas horrorosas que gostaríamos de apagar do rosto e também a pegada deixada pelas afeições. Envelhecer é um susto, mas pior do que perceber a pele dobrar é lidar com o fato de que a nossa morte é talvez a menos difícil: a morrência começa pelos outros.

A avó ao espelho tira pelos com uma pinça pois agora eles resolveram nascer também no queixo como se de repente ela tivesse decidido se tornar uma bruxa. O neto passa pelo corredor e diz e aí vó tirando a barba kkk. Ela responde vai se catar menino. Eles riem.

Isso deixa rugas. Rir. Quando está de bom humor, a morte avisa uns anos antes de chegar. Começa com esse charmoso e controverso sinal que apelidamos de pé-de-galinha, e com tempo vai mandando mais e mais: chegam as dores, como postais que ela manda de outro país; chegam os limites, como notícia de um corpo que ela avisa que cede; chega a idade, e a sensação de que ela aos poucos se avizinha.

O menino segue pelo corredor, mas pensa vou sentir falta disso. Então volta, dá um beijo no rosto da avó e diz te amo vó. Ela responde não vai se atrasar pegou o casaco avisa quando chegar.

A morte seria mais fácil se fosse sempre a do outro. Mas ela é nossa até mesmo quando é o outro quem morre. Não é fácil para quem fica, e não é fácil lidar com a certeza de ter pouco tempo juntos quando vemos se aproximar o fim da vida de alguém que amamos. A tarefa de se despedir aos poucos é doída. Fingimos enquanto podemos, mas o tempo passa, e uma hora fica impossível; então somos obrigados a encarar o incômodo fato de que acontece uma perda a cada encontro.

A avó estende a massa com um rolo de macarrão e nem se sabe como tem força. O menino observa, sentado à mesa posta para ele. Ela percebe nele a mesma cara de quem vai aprontar de quando tinha sete anos, e se prepara. O menino brincando diz e essas pelanca balançando aí vó. Ela sem pestanejar responde sou elástica, pisca um dos olhos e continua.

É claro que o dia de qualquer um pode ser o último, mas na companhia dos mais velhos, vemos a lista de verbos diminuir um por vez. Primeiro pouco a pouco, e de repente dia a dia: a primeira vez que se confunde um nome, e logo o esquecimento do nome próprio; a reclamação do joelho que dói, e logo a dificuldade de levantar da cama; a troca verbal que perde o sentido, e logo o olhar calado para o qual temos como último recurso o toque. E perde-se mais, vem o sono senil, e o raro acordar.

O menino vê a avó chorar a saudade na volta de mais um velório. Outro amigo se foi. Era tão bom, ela diz, logo vou eu. Para vó, ele diz e interrompe o discurso que já conhece. Ele sente medo, ela sente medo. Ninguém sabe, às vezes eu vou primeiro. Vira essa boca pra lá menino.

O percurso da morte começa no acompanhar a morte de alguém. Porque com o outro nós morremos um pouco também. Daí a necessidade de agradecer enquanto há tempo. Comemorar, segundo a etimologia, trata-se de lembrar juntos, e só dá para fazer isso enquanto as pessoas estão vivas. As homenagens póstumas, por mais que tenham a intenção de salvar do esquecimento, servem à memória dos vivos, e nada fazem pelos mortos. Os que se foram já não podem celebrar. Por isso, cabe homenagear mais a vida do que a morte, ainda que seja às vésperas.

Domingo de visita, o menino encontra a avó entre outras vovós. Senta-se diz oi vó como cê tá, e com esforço tenta uma conversa, pois ela ouve e fala cada vez menos. O menino percebe que a palavra já não é a melhor via, e se contenta em acariciar os cabelos brancos. E no enrugado sorriso que se abre percebe como é subestimado o toque. A avó então cochila.

Para homenagear os que vão partir, é simples, basta estar por inteiro nas despedidas. Simples, porém, nunca foi sinônimo de fácil. Para aproveitar a despedida é preciso driblar a tristeza, e esquecer, nem que seja por um momento, o amanhã; guardar o choro para depois, e aproveitar, tanto quanto possível, o efêmero dia; trazer consigo a alegria de estar juntos mais uma vez, e amar dentro do apertado intervalo — do hoje. Se falhar hoje, tentar outra vez amanhã, e falhar melhor.

O bingo do asilo é animado. Um senhor chega ao menino entrega a cartela e diz marca pra ela. Vamo ganhar vó, ela vê, mas nada entende. Tem uns prêmios bons, que que cê quer? Ela pergunta você já comeu? Não se preocupa, vó, não se preocupa. Então ela repete você já comeu? O menino chora e ri.

O derradeiro dia é só o último dia numa sequência de adeus. A morte está longe de ser um acontecimento banal, mas também não é um dia assim tão excepcional. Talvez nem tão triste. Ao menos não na vida dos mais velhos. Há certo alívio em morrer, não à toa falamos descansou. E quem fica também tem um descanso — o do cuidado —, mas logo começa outro trabalho — o do luto.

Este menino que sou eu se pergunta o que é mais difícil, morrer ou ver morrer? Não sabe, mas hoje sente que não há tanta diferença assim.


“Quem morre morre sempre para alguém, ou ao menos deveria ser assim.” — Adriana Cavarero

 

Referências 

Adriana Cavarero, Olha-me e Narra-me
Montaigne, Ensaios
Karim Aïnouz, O Céu de Suely
Conversas sobre a morrência com M.

 

Como citar

LAURO, Rafael. Homenagem aos que vão partir. Razão Inadequada, 2024. Disponível em: <https://razaoinadequada.com/2025/07/16/homenagem-aos-que-vao-partir>. Acesso em: [inserir dia, mês e ano].
Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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