Schopennhauer Freud

Mais um texto onde as bases filosóficas nos levariam à uma contra-história da psicologia. Desta vez, nossa intenção é expor de modo sucinto a influência do pensamento de Schopenhauer nas ideias de Freud.

Mesmo que a psicanálise se considere uma ciência(?), é de extrema importância analisar quais são as bases filosóficas nas quais Freud se apóia para construir sua teoria. O psicanalista assumiu muitas vezes em sua obra uma postura defensiva com relação à filosofia dizendo que ela era um obstáculo à pesquisa científica. Talvez o único filósofo a quem deu crédito claramente – ainda que pouquíssimas vezes – seja Schopenhauer. O filósofo viveu entre 1788 a 1860 e desenvolveu uma teoria que, em muitos aspectos, cria a base para a a construção da psicanálise cem anos depois. Nossa intenção não é denunciar Freud por plágio, mas é inevitável não fazer aproximações entre as ideias destes dois pensadores, mesmo que cada um tenha seguido caminhos diferentes. Através de nossa pesquisa, pudemos notar várias semelhanças. Trago 5 delas para vocês:

  1. Inconsciente – Tanto a Vontade para Schopenhauer como o Inconsciente para Freud possuem características muito parecidas. Uma força que é maior que a vida consciente do homem, que funciona como um impulso cego, um esforço sem fim que se manifesta apenas de forma indireta na realidade – a Vontade através da representação e o Inconsciente através dos sonhos, atos falhos, entre outros. Esta seria a terceira ferida narcísica que Freud tomou como ideia sua, mas que Schopenhauer postulara 100 anos antes. O homem não é dono de sua própria casa, ele é mais como um cavaleiro que dirige um cavalo, mas que apenas tem as rédeas e não a força que o impulsiona.
  2. Recalque – A ideia de recalque foi umas dos primeiros conceitos postulados por Freud, se trata de uma lembrança ou acontecimento tão doloroso que o Ego recalca esta lembrança, “apaga”, torna-a inconsciente, evitando que o indivíduo tenha contato com ela. Schopenhauer afirma a mesma coisa quando diz que a Vontade não deixaria que certos conteúdos chegassem ao intelecto, porque isso o prejudicaria. Em caso extremos, o próprio intelecto desligaria-se da realidade, levando o indivíduo à loucura.
  3. Sexualidade – Para os dois pensadores, se faz importante notar a ênfase na questão da sexualidade. Schopenhauer é o primeiro filósofo moderno a tratar desta questão: não é o indivíduo que importa, mas sim a espécie que se propaga através da sexualidade. Freud chega a dizer que o filósofo foi o primeiro a advertir a humanidade quanto à importância deste assunto ainda tão subestimado. Se Schopenhauer desenvolveu este conceito através do caminho filosófico, Freud apenas teve que reescrevê-lo com uma roupagem científica.
  4. Morte – A morte se torna assunto central na obra de Freud a partir de 1920 com a publicação de “Além do Princípio do Prazer“. Onde postula-se os conceitos de Pulsão de Morte/Pulsão de Vida. No primeiro momento da exposição destes conceitos, Freud chega à conclusão de que a pulsão de Morte seria um força que supera tudo e todos, buscando trazer todas as coisas para a quietude, para um lugar sem nenhuma tensão. A causa da morte do indivíduo seria sempre interna. Neste primeiro momento, a relação com Schopenhauer é quase explícita. A Vontade consome a si mesma porque ela é toda a realidade, isso levaria o indivíduo à morte. Mesmo que este lute para manter-se, ele faz parte de algo maior que o supera e o engole. A morte, seria assim, a meta final de todo ser vivo.
  5. Pessimismo – Schopenhauer simplesmente afirma que a vida é sofrimento: um pêndulo que oscila entre tédio e sofrimento. Queremos algo, conseguimos, ficamos entediados e voltamos a sofrer por desejar outra coisa que não temos. A única escapatória definitiva é pela via ascética: matar o desejo, buscar a quietude da vida dos santos e monges, a contemplação do espetáculo do mundo. Freud não chega às mesmas conclusões mas parte do mesmo ponto. A terapia nos livraria de um grande tormento para voltarmos a conviver com o sofrimento cotidiano, o mundo é sofrimento. Freud diz: “seríamos tentados à dizer que não está contido no plano da ‘criação’, que o homem seja feliz“.

Relembrando que nossa intenção não é acusar Freud de plágio (mesmo que alguns autores considerem esta possibilidade). Apenas gostaríamos de prestar as devidas honras às ideias de Schopenhauer que tanto influenciaram o criador da psicanálise. Sendo assim, vemos que Freud, com seu barquinho da metapsicologia, aportou pelo menos cinco vezes na baía da metafísica de Schopenhauer.

scho-freud

Leia também: 5 diferenças entre Schopenhauer e Nietzsche

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

60 comentários

  1. AA, eu diria que é plágio, em?….hahhaha! A filosofia tá em tudo, é a base da maioria das ideias, não tem como fugir! ( que bom) 🙂

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  2. Lindo! Como é maravilhoso saber que as ideias são pensadas, repensadas, reformuladas, desconstruídas e novamente reconstruídas… Se há algum tipo de beleza no ser humano, essa capacidade é uma delas!

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    1. Obrigado, Fabiana!
      Muitos dizem que toda a filosofia não passa de uma nota de rodapé da filosofia de Platão. Eu não iria tão longe, mas certamente há uma processo de reciclagem em todas as épocas com relação aos filósofos anteriores.

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  3. Olha, a Psicanálise não se pressupõe ciência (no sentido positivista) e todas essas correlações são no mínimo precipitadas… É óbvio que tanto as idéias de Freud quanto de Schopenhauer bebem de fontes semelhantes bem como de um contexto bem amplo, que viria a calhar ser mencionado neste texto pseudo filosófico que tenta em 1 página o que precisaria de 500 pra desenvolver. O calibre do que tu ta afirmando é muito maior do que a base teórica que tu expõe pra isso.

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    1. Bom… não acredito que o texto em questão se trate de “pseudo-filosofia”, é apenas um blog aguçando a curiosidade de seus leitores sem exigir 500 páginas para isso (não tenho a capacidade de escrever uma tese por semana). Mas com minhas pesquisas tenho dados o suficiente para afirmar que Freud e Schopenhauer não só beberam na mesma fonte, mas o primeiro leu o segundo e mudou radicalmente sua filosofia.

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      1. Rafael Trindade gostei muito do texto… o que vc escreveu eu ouvi de uma professora no começo de faculdade. Vc faz um excelente trabalho, parabéns!
        E parabéns, também, pela serenidade diante de pessoas obtusas que se divertem com suas próprias grosserias. São pessoas que talvez não consigam fazer algo melhor…

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    2. Daniel, parece que você não leu mesmo Freud. O próprio autor reconhece dívida para com Schopenhauer em “Além do Princípio de Prazer”. E para Freud, a intenção era, sim, uma ciência no sentido positivista. O que ele desenvolveu pode ser outra coisa, mas o que ele queria era uma Naturwissenschaft. Se Lacan e outros têm medo da ciência, aí é outra história. Devia ser mais educado em seus comentários.
      Rafael Trindade, bacana o post. Tenho estudado mais Jung atualmente, e este também é devedor (assumido) de Shopenhauer. Abraço

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        1. exato! tá faltando bigodudo mais carismático do planeta! ele é uma ponte interessante para entender a relação de Freud com Shopenhauer… Mas o próprio Freud não faz referência ao Nietzsche… Mas os motivos são diversos e divertidos.. hehehe

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  4. Claro que são ideias muito parecidas. Freud lidou com os medos e pulsões humanas. Schopenhauer tratou de assuntos semelhantes. Pela lógica, eles chegaram quase ao mesmo ponto. Não vejo que Freud tomou ideias schopehaurianas na construção da Psicanálise mas sim alguns preceitos. Se for assim, podemos falar que Marx é um grande plagiador de Hegel e David Ricardo.

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    1. Concordo Luis… Além disso, Freud nunca negou as influências filosóficas e artísticas sobre a construção da Psicanálise. O rigor científico não caracteriza a Psicanálise em si e sim a técnica psicanalítica baseada em estudo, análise pessoal, observação e interpretação. …

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  5. Olá, gostaria de receber o artigo citado quanto ao conceito de pulsão de morte em Freud e o conceito de Vontade em Schopenhauer.

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  6. OI! Rafael,tenho interesse em ler seu artigo sobre pulsão de morte em Freud e vontade no conceito de Arthur,se possível me envia por e-mail. Abraço!

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  7. dae rafael,blz?
    tenho interesse sim cara,no seu artigo a repeito da relação entre o conceito de pulsão de morte em Freud e o conceito de Vontade em Schopenhauer.
    puder mandar por email.

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  8. Pelo mesmo raciocínio, Schopenhauer bebeu em fontes hindus milenares. Sidarta Gautama (Buda), por exemplo, teria feito uma proto-psicologia, que, séculos mais tarde, o filósofo alemão teria adaptado à filosofia ocidental.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Exatamente. Pra alguns filósofos (acho que Huberto Rohden), Schopenhauer é considerado como o difusor do budismo na europa. Schopenhauer criou uma filosofia a partir da religião Hindu e Freud criou um método clínico a partir da filosofia dele

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  9. Olá! Rafael, sobre o último quesito que você avaliou o Pessimismo, Freud coloca em seu Mal-Estar da Civilização que a vida ascética é um dos caminhos para se lidar com a pulsão, provavelmente conclui isso a partir das observações schopenhaurianas também…

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  10. Não vejo uma posição defensiva em relação à filosofia, adotada por Freud. Não só Schopenhauer mas também Nietzsche tiveram forte influência sobre a teoria fundada por Sigmund, em nenhum momento isso é omitido, em “o futuro de uma ilusão” por exemplo, é notória a presença de perspectivas nietzscheanas.

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  11. Achei bem interessante, Rafael. Enviaria o artigo que mencionou? Ah, e gostaria de saber em quais textos de Freud há uma postura defensiva em relação à filosofia. Obrigado.

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  12. Interessante. Poderia fazer um texto relacionando os conceitos de Freud às ideias de Nietzsche. Eu vejo diversas ideias Nietzschianas nos conceitos psicanalistas, gostaria de entender o que os esquizoanalistas que seguem nietzsche pensam disso.

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