A filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes” p.13

13Eis a primeira constatação de Albert Camus no livro O homem revoltado. A primeira de muitas, é verdade, mas talvez uma da mais importantes. A introdução do livro é construída sobre dois pilares que serão a base para todo o desenvolvimento: o assassinato e a noção de absurdo. As duas ideias tem mais relação do que aparentam, o homem conhece o absurdo da existência à medida em que percebe nela a ausência de um sentido, uma unidade. Camus faz, então, o questionamento que o dará fôlego para analisar e criticar vários dos movimentos de revolta, sejam metafísicos, históricos ou artísticos: como tolerar o assassinato? Como suportar a ideia de que a busca pela unidade gera opressão e morte? “O homem é a única criatura que se recusa a ser o que é. A questão é saber se esta recusa não pode levá-lo senão à destruição dos outros e de si próprio, se toda revolta deve acabar em justificação do assassinato universal”  p. 21.

“Há crimes de paixão e crimes de lógica” (p. 13). Camus procura entender como a revolta encontra o álibi para seus crimes. Como o crime pode ser inocente? Qual a explicação por trás do campo de escravos sob a bandeira da liberdade? Como se justifica um massacre em nome do amor? Conseguimos entender o crime passional que, no auge da emoção, termina na morte de si ou do próximo. Mas como a revolta encontra saídas filosóficas para matar e oprimir? Nada além do niilismo pode justificar tranquilamente o suicídio e o assassinato.

“A revolta nasce do espetáculo da desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível” (p. 21). Mas ela não encontra no absurdo da existência algo que justifique suas atitudes. É necessário procurar dentro da própria revolta fundamentos para seu modo de conduzir-se na atualidade. “É preciso portanto que a revolta tire suas razões de si mesma” (p. 21). Este é o objetivo do ensaio de Camus, e é nossa intenção expor nesta série suas conclusões.

A revolta nasce do homem que diz Não. Mas isto só aparentemente. Quando o escravo diz Não, quando o servo diz Não, quando o oprimido diz Não, isto acontece porque em seu íntimo, antes da recusa, ele encontra em si um valor de afirmação. Ao negar-se a fazer algo, o revoltado quer estabelecer um limite: “além daqui, não”; “deste ponto em diante, não”; “me recuso a ultrapassar este limite”. A revolta encontra em si, um valor, uma essência, um direito. O escravo enfrenta seu senhor porque reconhece algo em si que quer se afirmar, que estabelece um limite e por isso diz não. “Há em toda revolta uma adesão integral e instantânea do homem a uma certa parte de si mesmo” (p. 26). Portanto, antes de dizer não ao senhor, o escravo revoltado necessariamente diz sim para si mesmo. “Aparentemente negativa, já que nada cria, a revolta é profundamente positiva, porque revela aquilo que no homem deve ser defendido” (p. 32).

E ao afirmar o homem, o revoltado encontra toda humanidade dentro do absurdo da existência. Antes ele sofria sozinho, mas ao revoltar-se, reconhece o que há de humano em todos os homens, inclusive naquele que o oprime. O escravo, cuja situação não pode escolher, já não está mais sozinho, porque encontra em si uma existência que reconhece em todos os seres humanos:

O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos” (p. 35).

> este texto faz parte da série/resenha “O Homem Revoltado” de Albert Camus <

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

8 comentários

  1. Camus é simplesmente fantástico, passei a me arriscar na sua leitura muito recentemente não tendo ainda contato com o título citado, mas darei aqui o meu parecer pessoal e baseado principalmente na minha recente leitura de A Peste e O Estrangeiro.
    O Camus tem mesmo esse toque de incitação que chega a beirar o ódio quando se refere a nós, seres humanos em nossa posição de seres humanos que poucas vezes exercemos, preocupados com valores pessoalíssimos, por exemplo o escravo que passa a sua vida inteira se não inerte nas suas obrigações automáticas, preocupado com a própria dor e todo o sofrimento que julga ser só seu.
    Ser, de fato, um ser humano diz respeito aos valores sociais em geral, não falo da empatia, mas de uma conscientização física e psicológica de não só igualdade, mas compatibilidade. É por isso que o assassinato acontece, muitas vezes por uma “simples” questão de estado de inconsciência, mas que o mais irônico é que essa consciência social só se estabelece socialmente, só se estabelece, se todos envolvidos se manifestam, do contrário ela se utiliza de si mesma para se tornar pessoal e justificar os atos cometidos num ato de nova revolta que tem como alvo a inconsciência alheia e a inerência daquilo o que se julga “superior”. Dostoiévski escreveu no Recordações da Casa dos Mortos que a maioria dos assassinos tinham um grau de inteligencia superior a massa e principalmente àqueles que aplicavam as penas e que exatamente por isso nenhum deles se arrependia de seus atos. É mesmo doloroso descobrir-se um dia ser humano, olhar a volta, ver uma série deles que jamais serão, compreendê-los sem que se compreendam e com isso perder a razão por julgar possuí-la em excesso.
    Essa é uma dualidade que muito provavelmente prevaleça eternamente, a consciência que vem como vingança ou como loucura e que se põe em mãos para matar.
    Mas enfim, esse é só um ponto de vista.

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    1. acho muito válido… tem muito a ver com a questão da noção de absurdo, também em Camus. A distância entre nós e o mundo pode gerar sensações, sentimentos e consequências que ultrapassam nossa capacidade de entendê-lo. (acho até que isso daria um bom texto!)

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  2. Camus é um dos maiores Filósofos de todos os tempos! Obra maravilhosa que não fica somente nas ideias e nos conceitos (uma crítica a alguns Pensadores), mas nos aproxima da realidade da existência humana, retratando-nos com maestria.
    … e há alguns intelectuais que não o reconhecem como tal… um ABSURDO!

    Vladimir S.F. – estudante de Filosofia.

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  3. Eu já conhecia esse Filósofo, mas, não tão profundamente, e creio que com esse texto, meu interesse pelo mesmo aumentou de forma absurda. Creio que daqui em diante, irei mergulhar em sua obra; Obrigado.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Ótimo, ainda nao li esse livro, vou baixar agora mesmo. Mas me pareceu tao sensato, por que será que gerou tanta polêmica? Levando mesmo ao fim de sua amizade com Sartre. Vou ler pra tentar entender, mas se vc pudesse fazer um post sobre a natureza das críticas esse livro eu agredeceria.
    Abçs

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