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Em “O Homem Revoltado”, Camus ressalta as três formas mais recentes de revolta: a metafísica, que culmina na morte de Deus; a histórica, que culmina na revolução; e, por fim, a artística. Se a primeira constata o niilismo e a segunda termina no terror, ao que leva a terceira? Dito de forma mais clara: o que pode a arte em termos de revolta?

Já conhecemos o papel da criação na filosofia de Camus. Frente ao absurdo, o criador é aquele que descobre aos poucos o que resiste à falta de sentido. O gesto criador dá sentido em seu movimento. Não se trata de algo que escapa completamente ao absurdo, mas, ao contrário, de uma ação que o completa. O artista se entrega ao absurdo, mas não de maneira passiva. Ele o transfigura em sua sensibilidade.

Muitos filósofos relegaram à arte um papel secundário. Platão caçoava dos poetas e não reservava espaço para eles em sua república. Os iluministas desejavam uma arte de pragmática social. Hegel via na arte apenas a expressão provisória da beleza a ser vivida no fim da história. Marx criticava a arte como expressão da classe dominante e reclamava uma arte revolucionária, que tivesse uso prático e verdadeira função na história.

Camus não se encontra entre eles. Em sua filosofia, a arte não tem finalidade, a criação é “para nada”. A grandeza de se tornar um artista não é extrínseca, ela é intrínseca ao próprio ato de criar. Não há futuro grandioso reservado ao criador, pois a morte não o poupará por suas conquistas. O artista não espera um prêmio pela virtude, ele simplesmente a vive. Ainda assim, cabe a pergunta: por que uma revolta artística? O que a arte pode exigir desse mundo silencioso que não nos reserva nada fora a morte?

Ora, o engano é pensar que o valor da arte em termos de revolta está no futuro que ela promete. Camus vai na contramão do pragmatismo estético revolucionário, dizendo que a arte é revolucionária por sua adesão integral ao presente. A ausência de futuro nos coloca em face da necessidade de criar para o presente. A função da arte não é histórica, ao contrário, é sua função ausente que a afirma enquanto modo de vida.

Como toda obra de arte, a vida exige que se pense nela”

Albert Camus, A Morte Feliz

A filosofia e a arte caminham lado a lado. Numa nota dos Carnets, Camus escreveu: “Se quiser filosofar, escreva romances”. Parece contraditório? Basta lembrar que a filosofia também cria personagens. A vida e o pensamento estão implicados de tal maneira que a arte e a filosofia se tornam apenas variações da sensibilidade. São ambas criadoras, ainda que partam de diferentes perspectivas. Por muito tempo os filósofos iam à igreja, é chegada hora de trocá-las pelo teatro, pelo cinema, pelos concertos.

O artista é aquele que refaz o mundo por sua conta. Ele emoldura as cores e mantém vivas as paisagem, multiplica o canto dos povos,  captura numa expressão o êxtase passageiro dos corpos, adentra o devir para prover o estilo que lhe falta. Pintura, música, escultura, literatura fabricam o destino sob medida. “A arte concorre com Deus”, ela realiza a exigência de um modo mais autêntico. Uma obra por vez, o artista chancela um mundo mais seu.

A contradição é a seguinte: o homem recusa o mundo como ele é, sem desejar fugir dele”

Camus, O Homem Revoltado, Romance e Revolta

Camus conjectura a arte como uma transcendência viva. Nós o parafraseamos dizendo que se trata de uma imanência habitada. A realização de um afeto em uma obra nos lança ao mundo de maneira muito potente. É essa potência disruptiva que a revolta aprende com a arte. A necessidade de medidas é a condição de incorporar a sensibilidade absurda que a revolta exige. 

Arte e revolta carregam a mesma exigência de dar forma ao impossível, realizar aquilo que não foi previsto, a despeito de qualquer realidade esmagadora. Assim, o gênio artístico é um revoltado que soube criar sua própria medida. Van Gogh soube dar aos seus tons dourados a intensidade de suas paixões. Dostoiévski foi capaz de transformar os antagonismos de sua alma em personagens.

Em toda a revolta se descobrem a exigência metafísica da unidade, a impossibilidade de apoderar-se dela e a fabricação de um universo de substituição. A revolta, de tal ponto de vista, é fabricante de universos. Isto também define a arte”

Camus, O Homem Revoltado, Revolta e Arte

O esforço de viver em um universo digno é o que define tanto a revolta quanto a arte. Essa dignidade da vida contente consigo mesma é o que nos foi roubado em nossas sociedades. “Vegetamos em uma sociedade de tiranos e escravos”, e dela só sairemos ao preço de transfigurar essas relações. Isso, decerto, se faz pela economia – Marx não errou tanto assim – mas não sem a arte. 

A realização de uma sociedade justa passa pela percepção de que a grandeza humana está na sua capacidade de criar sentido para a vida. Essa dimensão escapa aos conquistadores modernos que sabem matar mas não sabem viver. Propor novos modos de vida, onde a economia não seja tudo, onde o futuro seja presentificado, eis a potência da revolta artística.

Sem dúvida, a beleza não faz revoluções, mas chega um dia em que as revoluções têm necessidade dela. […] Pode-se recusar eternamente a injustiça sem deixar de saudar a natureza do homem e a beleza do mundo? Nossa resposta é sim”

Camus, O Homem Revoltado, Criação e Revolução

Camus parece antecipar em ao menos duas décadas Deleuze em sua definição de arte e Foucault em sua recusa à militância triste. Três pensadores muito criticados pela esquerda marxista por não dar ao pensamento político um lugar de destaque e distinção. É preciso defendê-los dizendo que não é apenas a partir da economia que se faz política, nem apenas da militância partidária que se mobiliza as pessoas. 

A arte não é parte desprezível da experiência humana. Ela mostra a necessidade de se lutar pela beleza possível. A arte promove revoluções na sensibilidade. A criação nega o horrendo mundo do homo oeconomicus sem perder-se na negação como modo de vida. Nosso desejo de felicidade é maior do que toda a tristeza da realidade. A grandeza não se alcança apesar da vida bela, mas a partir dela.  

Por que criar se não for para dar um sentido ao sofrimento, nem que seja para dizer que ele é inadmissível?”

Camus, A inteligência e o cadafalso, O artista na prisão

Texto da Série:

O Homem Revoltado

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Marco Franco
Marco Franco
2 anos atrás

Muito grato pelos textos (e afins) sobre o Alberto, vocês estão me ajudando muito.

Rafaela Letícia Müller
Rafaela Letícia Müller
2 anos atrás

Magnífica sua escrita ante a responsabilidade de descrever Camus e seus ideais!

Marilene Bittencourt
Marilene Bittencourt
1 ano atrás

Adorei!👏👏👏👏✨✌️

Hortencia Nobre
Hortencia Nobre
1 ano atrás

Poxa!! Que texto…Nos faz refletir sobre novas possibilidades de criar, de se reinventar, de sorrir pra arte, se esconder nela e se mostrar, de querer conter-se em uma timidez que é dissipada por toda forma artistica, trazendo assim, transformações positivas e um “Sim” pra vida. Muito bom Rafael Lauro. Obrigada!!

Bruno Haacke
Bruno Haacke
10 meses atrás

“A arte não é parte desprezível da experiência humana. Ela mostra a necessidade de se lutar pela beleza possível. A arte promove revoluções na sensibilidade. A criação nega o horrendo mundo do homo oeconomicus sem perder-se na negação como modo de vida. Nosso desejo de felicidade é maior do que toda a tristeza da realidade. A grandeza não se alcança apesar da vida bela, mas a partir dela.  ” maravilhoso