Materializar pensamentos em signos fonéticos através de uma máquina e publicá-los numa rede virtual criada por bilhões de “zeros” e “uns” justapostos e transmitidos por ondas que os levam da Terra aos gigantes “espelhos” orbitantes que refletem o conteúdo de volta para a casa de todos nós é impressionante. Mais Impressionante ainda é a constante transformação de tudo.

Lembremos-nos do tudo flui de Heráclito a todo o momento e veremos, nos mínimos acontecimentos corriqueiros de nossas vidas, o fluxo incessante de transformações destas coisas todas que nos cercam. E, se nos detivermos um momento e olharmos para nós mesmos, perceberemos a transformação de nós mesmos em outros, a transmutação de nosso próprio conteúdo, a transgressão de nossos próprios limites.

Monet, La Femme à l'ombrelle
Monet, La Femme à l’ombrelle

A esta altura, o leitor deve estar se perguntando por que é que estamos divagando nestes assuntos desconexos e, pior, sem afirmar evidências de fato! Misturar Monet e Heráclito é estética? Acalma-se. Este texto exerce uma proposta e este percurso permite a reflexão posta adiante.

Fato é que nos enrijecemos. Queremos fazer da massa de modelar, que é a vida, um bloco de concreto. Pretendemos ter uma identidade sólida, construída num tempo lógico, através de uma educação opressora, praticando uma moral transcendente. Vamos perdendo a capacidade de espanto. Zombamos da ingenuidade, associamos a ignorância  à inexperiência e chegamos ao ponto de repudiar as crianças por perguntarem demais sendo que é exatamente este autêntico movimento de questionamento que faz erigir a possibilidade do entendimento.

É como se, em Éfeso, o rio outrora fluente fosse represado e, tornando-se uma barragem, deixasse de expressar a sua potencialidade e passasse a contê-la. No âmbito da estética,  as consequências deste processo são terríveis, pois nos fazem buscar o constante e descartar o variável, passamos a desprezar tudo aquilo que não nos dá a segurança de conhecer o próximo movimento, a próxima pincelada ou a próxima cadência. Por fim, nos abrigamos no conhecido, na certeza e nos tornamos dogmáticos exemplares que, do alto da montanha, tripudiam dos meros mortais que ainda não acharam a boa maneira de ser.

Veja, o primeiro parágrafo deste pequeno texto é um exercício. É a prática deste exercício, que pode muito bem ser desafiador, que gostaríamos de propor ao leitor. Como escrever num laptop pode ser impressionante, não? Toda a existência é, basta inserir-se no mundo pelos olhos de uma criança, de um turista perdido, de um explorador corajoso e buscar no trivial a sua verdadeira potência de transformação.

“Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o almoço. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para a lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direção ao teto, enquanto Tomás observa. O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: – O papai voa! Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno voo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes trepa ao telhado para orientar a antena da televisão – ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois com a cara toda preta. Depois, é a vez da mãe. Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha? O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo. Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!). Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente? É uma questão de hábito. (Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é. Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço. O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente  ao mundo.” Jostein Gaarder, O mundo de Sofia

Utilizando-se de uma escuta ativa, incerta, questionadora, sensível, criadora podemos exercitar esta visão filosófica da transformação na música. Se nos esforçarmos demoradamente neste processo, uma obra de arte tornar-se-á um imenso lago no qual se poderá mergulhar e explorar as infinitas possibilidades de interpretação, criação, inspiração…

Para finalizar, deixamos para livre apreciação, além da bela pintura de Monet, uma música da Maria Schneider Orchestra. Parecem obras completamente distintas, mas possuem, na minha opinião, muitos traços similares, os quais não pretendo abordar, mas vale indicar que ambas têm o intuito de imprimir a representação artística de uma determinada paisagem.

Sky-Blue-Cover

Maria Schneider Orchestra
Album: Sky blue (2007)
Faixa 4: Cerulean Skies
Solistas: Donny McCaslin (Tenor)
Gary Versace (Acordeon)
Charles Pillow (Alto)

— Este texto faz parte da coluna Escuta Ativa

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

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