O esforço supremo da mente e sua virtude suprema consistem em compreender as coisas através do terceiro gênero do conhecimento” – Espinosa, Ética V, Prop. 25

Podemos dizer que existe algo de místico no terceiro gênero do conhecimento, uma proximidade maior com aquilo que Espinosa chamou de Deus (para evitar equívocos, ver aqui). Esta forma de conhecimento se expressa na capacidade de experimentar a eternidade nas coisas, experimentar algo que está fora do tempo, a essência da potência em nós, aquilo que há de eterno e se expressa através de tudo. Deixamos o campo das superstições e tolices para viver sem modelos, na campo abstrato das forças:

O terceiro gênero de conhecimento é um mundo de intensidades puras” – Deleuze, Curso sobre Spinoza

Se na imaginação ainda temos um conhecimento confusa das coisas e do nosso corpo, nosso conhecimento começa a se tornar mais seguro através da razão. A mente tem a potência de pensar e de compreender adequadamente, é através das noções comuns que temos um conhecimento adequado. Elas vão pouco a pouco se tornando universais, aplicando-se a vários modos. Cada noção comum, na medida em que nos permite realizar bons encontros e compreender os afetos, lentamente nos leva a formar uma ideia de Deus. Espinosa ensina que não se parte da ideia de Deus, mas se chega a ela conforme nossa potência aumenta. Não conhecemos Deus, mesmo sendo parte da substância divina e estarmos mergulhados nela.

Somos modos existentes. Nosso conhecimento está submetido à seguinte condição: devemos passar pelas noções comuns para atingir as ideias de terceiro gênero” – Deleuze, Espinosa e o Problema da Expressão, p. 210

Chegamos assim ao conhecimento intuitivo, através deste grau de conhecimento, tomamos parte da potência criadora em nós e no mundo. Somos, assim como Deus, natureza naturante, ou seja, acessamos a parte ativa e criadora em nós, a potência do ser. Percebemos que somos parte da potência divina que se manifesta criando o mundo, sendo o mundo e sofrendo as modificações em si mesmo. Este gênero de conhecimento anuncia a fadiga da razão atual e a possibilidade de outras maneiras de existir para fazer a vida passar.

Atingido o terceiro gênero de conhecimento, o grau de perfeição em nós aumenta a tal ponto que reconhecemos o produtor no produto, ultrapassamos o homem que há em nós para encontrar novas direções. Saímos da servidão e entramos na liberdade. Conforme aumentamos nossa potência com o conhecimento racional, aprendemos a agir no mundo, em vez de sermos parte passiva dele. Podemos captar a interpenetração das coisas singulares, sua articulação, a beleza com que se relacionam.

Aprendemos a criar cada vez mais, afirmar potência em nós, efetuar o eterno que se atualiza no devir. Tudo isso é Deus se manifestando através de nós. O sujeito do terceiro gênero de conhecimento objetiva produzir novos modos de vida, outros pensamentos, outros caminhos. Ele é inventor e criativo, produtor de si e do mundo.

Desde o momento em que nos sentimos consciência-criadora-do-universo, sentimo-nos Deus” – Fernando Pessoa

Neste gênero de conhecimento aproximamo-nos de Deus porque o que há de adequado nas ideias remete diretamente às ideias de Deus. Há algo em comum do qual fazemos parte. Esta potência é eterna, sendo assim, nos tornamos cada vez mais próximos da eternidade. Entender que o que há de mais íntimo, a potência, se mantém após a morte, sendo assim, quando morremos, é apenas uma pequena parte de nós que morre, porque grande parte já era eterna.

É o conhecimento das essências, o que vai mais longe do que as relações, já que alcança a essência que se exprime nas relações, a essência da qual as relações dependem” – Deleuze, Curso Sobre Spinoza, p. 249.

É o conhecimento da natureza íntima das coisas porque encontra a essência por trás das relações. Trata-se de uma certeza das relações internas dos objetos. Este modo de conhecimento não está submetido à duração. “Desse terceiro gênero do conhecimento provém a maior satisfação da mente que pode existir” (Ética V, Prop. 27). Trata-se de ver as coisas sob a perspectiva da eternidade.

Sendo assim, (para retomar o exemplo dos outros textos) da mesma forma que vemos o Sol como produtor de calor e vida, aprendemos a ver a parte que nos cabe na eternidade. Também somos produtores, também criamos e damos vida. Nosso ser é parte da natureza divina que se produz e é eterna. Espinosa, através de sua filosofia nos dá a possibilidade única do indivíduo unir-se intelectualmente com Deus. A beleza do conhecimento intuitivo para o sábio é que toda a sua vida passa a ser uma oração.

Texto da série: Gêneros do Conhecimento


Guardador de Rebanhos – Alberto Caeiro

V
[…]
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Van Gogh, Wheat Field with Reaper and Sun
Van Gogh, Wheat Field with Reaper and Sun.

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

6 comentários

  1. Belo texto. É uma pena que o Filósofo Spinoza não tenha se exprimido, no seu Livro “Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras” numa linguagem mais simples. Caso assim fizesse seria o filósofo mais lido da história do pensamento. Por isto que é importante que o pensamento deste filósofo seja transmitido de uma forma mais simples e adaptada à linguagem moderna. Então, são textos como este que atendem este objetivo.
    Realmente, Spinoza nos ensina a crer em Deus sem nos afastar da necessidade de conhecer a natureza , ao contrário, como ele mesmo escreveu: “Quanto mais conhecermos a natureza, mais conheceremos a Deus”. O amor intelectual a Deus se dá pelo conhecimento de que tudo que existe existe em Deus e portanto que participamos também da potência eterna e infinita de Deus.

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  2. Pode-se dizer que viver com hábitos poderia nos aprisionar e extinguir essa capacidade Divina que reside em nós? E se a capacidade de criar, modificar, experimentar for um hábito, ou seja, se estivermos aprisionados a essa maneira de criar e não conseguimos viver de outra maneira como a de constituir uma constância?

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  3. Boa noite. Cheguei até este site através de indicação da minha orientadora de Mestrado. PEÇO – TE: jamais pare de escrever! Tua escrita é fluida, nos leva calmamente ao entendimento. obrigada por compartilhar teus escritos conosco.
    Paz!

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