É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” – Foucault, Vigiar e Punir

O homem moderno nasceu no fim do séc. XVIII e já está para morrer, disse Foucault. Mas como nasce o homem que conhecemos hoje? Como se dá vida a este ser? Durante a era moderna, o poder descobriu o detalhe, o absolutamente ínfimo, aquilo que antes passava despercebido. Até um pouco antes da revolução francesa, e a partir daí com cada vez mais força, o homem se tornou algo que se fabrica, o poder age em cada indivíduo para fabricar corpos dóceis.

O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe” – Foucault, Vigiar e Punir

- Emiliano Ponzi
– Emiliano Ponzi

O corpo se tornou alvo do poder, descobriu-se que ele podia ser moldado, rearranjado, treinado e submetido para se tornar ao mesmo tempo tão útil quanto sujeitado. O corpo foi dobrado pouco a pouco pelo poder, de maneira sutil, através de várias técnicas de dominação. Não que esta criação seja inédita, as relações de força agem e agiram desde sempre, mas com a modernidade o corpo passou a ser dividido, separado, medido e investigado em cada detalhe.

Mais uma peça na grande máquina de produção, e como qualquer produto de produção em massa, o corpo humano passa por vários estágios de confinamento até estar acabado: família, escola, quartel, fábrica; ou sua versão moderna: família, escola, faculdade, escritório. Caso alguma coisa dê errada, hospital, igreja, hospício, cadeia.

A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as forças dos corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças (em termos políticos de obediência) […] a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e a dominação acentuada” – Foucault, Vigiar e Punir

O poder separa o homem de si mesmo, afasta seu corpo de si mesmo e cria uma outra natureza em cima dele. Ele apenas não reprime, e esta nem seria a parte mais importante, diz Foucault. Mais do que tudo, ele produz, ele cria corpos, exercita habilidades, capacita, conduz. Isso se dá em várias esferas da sociedade, uma alimentando a outra, são linhas de força que entram em ressonância, não há um senhor rico e poderoso manipulando tudo, estão envolvidos políticos, padres, ricos, pobres, enfim, a sociedade como um conjunto de interesses e forças. Foucault descreve quatro mecanismos disciplinares na formação de corpos dóceis:

  • Arte das distribuições: a produção de um corpo dócil só é possível através de uma distribuição no espaço. Uma complexa arte dos arranjos. Um quadro onde cada um ocupe um lugar e se possa tirar o máximo de cada indivíduo. A arquitetura geral passa a ter o modelo dos conventos e dos monastérios, dos espaços individuais; um universo isolado (ilhas de disciplina), mas enumerado e localizável. Nas fábricas, nas escolas, os corpos são distribuídos de maneira a regular os fluxos, as relações, os afetos. Tem um lugar para ler, outro pra se divertir, outro pra estudar, outro pra trabalhar, cada coisa em seu lugar. As ligações devem ser ordenadas e delimitadas: cada aluno no seu lugar, cada operário devidamente posicionado na linha de montagem. Otimização do espaço, organização hierárquica do múltiplo para impor-lhe uma ordem. A massa confusa torna-se corpo de trabalho eficiente.
  • Controle das atividades: o relógio se tornou o grande senhor do nosso tempo. Já tratamos da Ditadura do Tempo (veja aqui). Durante séculos, as ordens religiosas foram as grandes especialistas neste campo dos ritmos e atividades regulares. Hoje encontramos isto em quase todas as instituições: grade horária, relógio de ponto, sinal de entrada, saída, intervalo. Quanto tempo falta pro fim do expediente? O tempo é precioso, deve ser usado com destreza, o corpo dócil deve ficar concentrado, puro, firme, agir com destreza através das várias etapas de seu dia. Nada de ociosidade, nada de distrações e vagabundagem! “Define-se uma espécie de esquema anátomo-cronológico do comportamento” (Foucault, Vigiar e Punir). O tempo possui o corpo dócil, impõe precisão, exatidão, ritmo perfeito. O corpo é adaptado para passar longas horas na mesma posição, realizando a mesma tarefa. É preciso extrair, arrancar mais tempo do tempo, e mais força de cada segundo conquistado. Através do cálculo infinitesimal, divide-se o tempo até o infinito, submetendo também infinitamente o indivíduo!

    - Pawell Kuczynski
    – Pawell Kuczynski
  • Organização das gêneses: a organização do espaço e do tempo leva diretamente à acumulação de  saberes, e também dominação e sujeição. O indivíduo a ser docilizado passa por várias etapas de formação, seu processo é dividido em classes, medido por provas, melhorado através exercícios, vestibulares, cursos de reciclagem. Uma série de estágios devem ser ultrapassados mas a formação nunca está concluída, desde os conteúdos mais simples até os mais complexos há sempre algo a se aprender. O poder disciplinar concentra-se nos detalhes, acumula-se na repetição. Assim o homem “progride”, adquire “formação de qualidade”, torna-se útil e eficiente. A técnica que o funcionário domina é o atestado de sua submissão. O importante é o exercício, a repetição cria o “bom estudante” e o “funcionário exemplar”. Novamente vemos a ascese das práticas religiosas, cuja salvação deriva da dor. “O exercício, transformado em elemento de uma tecnologia política do corpo e da duração, não culmina num mundo do além; mas tende para a uma sujeição que nunca terminou de se completar” (Foucault, Vigiar e Punir).
  • Composição das forças: todo treinamento converge para um ponto máximo onde a composição de forças gera o máximo de eficiência. Uma massa amorfa de indivíduos se torna agora um único corpo maquinal para guerrear, produzir, trabalhar, reprimir, exibir conhecimento, qualquer coisa que o poder necessitar. A soma é maior que as partes individuais, mas a organização é sempre exterior, superior, normalizadora, quase transcendente. O sinal do professor, do supervisor ou do coronel deve ser respeitado e obedecido imediatamente. Brevidade maquinal, moral de obediência, valores ascéticos, fascismo interiorizado. A máquina articulada não permite refletir, o corpo treinado se acopla e reproduz!

O poder produz indivíduos, age na subjetividade e nos corpos: separa, codifica, exercita, posiciona, organiza, acumula, compõe, prescreve! Age na anatomia, mecânica e economia dos corpos. Em cada um deles, nenhum escapa. Já não surpreende a escola parecer tanto com o quartel. A técnica de guerra é importada ao estado. Mas já não escutamos o barulho ensurdecedor de bombas, tiros, gritos e gemidos de dor; a violência agora é à conta gotas, distribuída homeopaticamente ao longo da rotina. Tão imperceptivelmente que percebemos apenas o barulho cinza dos carros, aparelhos eletrônicos e máquinas registradoras acompanhando o silêncio mórbido dos olhares mortos dos outros corpos dóceis.

Texto da série: Vigiar e Punir

- Amjad Rasmi
– Amjad Rasmi

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

16 comentários

  1. Nenhum progresso na história da humanidade foi feito por jogar o jogo de operacionalidade e aderindo às regras impostas pelo status quo. Negar estas regras, ao negar as próprias palavras que as descrevem e silenciosamente as impõe, é um bom passo para a emancipação. 🙂

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