Texto escrito à quatro mãos para a palestra “Desejar: Verbo Intransitivo?”. O evento foi realizado no dia 23 de abril de 2014 pelo grupo “Entretantos“.

– Por Rafael Lauro e Rafael Trindade

- foto de André Castellan
– foto de André Castellan

Logo de início,‭ ‬se formos à origem,‭ ‬já notaremos a polêmica em que está envolta a palavra desejo.‭ ‬Desidero significa parar de olhar as estrelas,‭ ‬não mais ver as constelações.‭ ‬Ora,‭ ‬durante séculos as estrelas guiaram nosso caminho tanto místico quanto natural.‭ ‬Não olhar as estrelas significa então estar perdido,‭ ‬seguir seu próprio caminho que levará rumo à perdição.

Desde Platão,‭ ‬passando pelos estóicos,‭ ‬cristianismo,‭ ‬Hegel e finalmente chegando à psicanálise,‭ ‬o desejo foi visto como um mover-se em direção a alguma coisa.‭ ‬O desejo é o meio do caminho do que somos e o que queremos ser.‭ ‬Movimento este que imita as distantes estrelas que são perfeitas e imóveis.‭ ‬O desejo, dizem, é uma busca do bem e da perfeição:‭ ‬impávida,‭ ‬plácida,‭ ‬mas,‭ ‬diríamos, morta.

Enquanto Aristóteles ensinava o Motor Imóvel,‭ ‬Heráclito já dissera que Deus era uma criança jogando dados.‭ ‬Sempre existiram filósofos que seguiram a contra-corrente do idealismo para afirmar a terra como maior dos valores.‭ ‬Nós,‭ ‬como representates dos inadequados,‭ ‬falaremos sobre eles esta noite:

Espinosa foi um dos que mais combateu a concepção de desejo como falta.‭ ‬E‭ ‬perdoava seus predecessores,‭ “‬estamos conscientes de nosso desejo‭”‬,‭ ‬ele dizia,‭ “‬mas somos ignorantes quanto às causas‭”‬.‭ ‬O desejo não é falta,‭ ‬não vem de fora,‭ ‬o desejo é uma força que se afirma de dentro,‭ ‬é a potência que constitui nossa própria essência.‭ ‬Não agimos por vontade,‭ ‬mas por desejo,‭ ‬ele é a causa eficiente em nós,‭ ‬a causa interna que nos faz permanecer em nós mesmos e mais,‭ ‬buscar sempre crescer e se tornar mais potentes.

Espinosa começa a lentamente desatar os laços que ligam o desejo à moral.‭ ‬Não há um modelo a seguir,‭ ‬não há um ponto final onde chegaremos.‭ ‬Não há Leis de Deus nem caminho das estrelas,‭ ‬o deus de Espinosa é a natureza,‭ ‬seu caminho,‭ ‬geométrico.

Qual a potência que eu tenho de existir‭? ‬Qual a é a minha força de permanecer em mim mesmo e superar-me‭? ‬O desejo é esta vontade de ser mais,‭ ‬experimentar mais,‭ ‬poder mais,‭ ‬que parte de nós mesmos.‭ ‬Não há modelos transcendentes,‭ ‬não há um ideal,‭ ‬não há ponto de chegada.‭ ‬Isso parece estranho em um primeiro momento porque estamos acostumados‭ ‬a pensar como o burro em que se coloca uma cenoura na frente para fazê-lo andar.‭  ‬Estamos tão impotentes que qualquer força exterior nos leva como folhas ao vento.‭ ‬Espinosa não gosta do impotente que se gaba de‭ “‬seguir um ideal maior que si mesmo‭”‬.‭ ‬A natureza fala em nós,‭ ‬e cabe a nós‭ ‬ouvi-la.‭ ‬Será que queremos um carro novo‭? ‬Trabalhar mais e comprar mais‭? ‬Queremos a mulher de‭ ‬biquíni ou o homem sarado que aparece naquele comercial‭? ‬Será que desejamos ou nos fazem desejar‭?

O desejo é a capacidade de experimentar,‭ ‬criar e,‭ ‬enfim,‭ ‬superar-se.‭ ‬Quanto mais formos capazes de pensar os desejos,‭ ‬mais entenderemos suas causas e as armadilhas que nos pregam neste campo.‭ ‬Tornaram-nos impotentes,‭ ‬fracos,‭ ‬e só assim seríamos capazes de dizer tais absurdos como o desejo vem de fora ou é insaciável.‭ ‬Espinosa daria uma boa risada desta afirmação e diria simplesmente,‭ “‬O desejo está repleto de si,‭ ‬ele é sua própria potência‭”‬ (veja mais aqui).

Deleuze‭ ‬segue a linha do desejo como excesso para consertar algumas bobagens que foram ditas pela psicanálise e afins.‭ ‬O desejo produz o real,‭ ‬desejar é produzir agenciamentos.‭ ‬É afetar e ser afetado.‭ ‬Como o desejo terminou por desejar sua própria escravidão‭? ‬Édipo,‭ ‬idealismos e‭ ‬afins…‭ ‬o psicanalista é o mais novo padre,‭ ‬mas já tivemos tantos supersticiosos que nem saberíamos por onde começar. (veja mais de deleuze e o desejo aqui)

Precisamos encontrar nossas máquinas desejantes,‭ ‬ou passaremos a vida inteira buscando substitutos ao desejo Não somos máquinas de sublimar,‭ ‬somos máquinas de experimentar‭! ‬Interpretar‭? ‬Procurar o significado‭? ‬Onde está o Falo disso tudo‭? ‬E eu sei lá‭! ‬O desejo está para além da linguagem e da moral.‭ ‬Ele prefere passear em vez de ficar deitado no divã.‭ ‬E ele segue passeando,‭ ‬abrindo caminhos,‭ ‬criando fluxos,‭ ‬muitas vezes capturado,‭ ‬mas outras tantas escapando,‭ ‬fugindo,‭ ‬criando novas planícies,‭ ‬onde pode‭ ‬florescer,‭ ‬sem pai,‭ ‬nem mãe…

Outro filósofo que opera com um conceito‭ ‬alternativo‭ ‬de desejo é Albert Camus.‭ ‬Por diversas vezes,‭ ‬os leitores deste autor tentam encaixá-lo no time dos existencialistas,‭ ‬querendo colocar nele o mesmo rótulo‭ ‬de Sartre,‭ ‬Heidegger,‭ ‬Merleau-Ponty e seus comparsas.‭ ‬De fato,‭ ‬a existência do homem no mundo é o tema da obra de Camus,‭ ‬entretanto‭ ‬há nele uma série de posições que o opõe fortemente à tradição humanista-existencialista.‭ ‬As noções de absurdo,‭ ‬de revolta e de liberdade articuladas pelo pensador resultam numa filosofia da existência,‭ ‬sem dúvida,‭ ‬mas‭ ‬bastante dissidente da filosofia existencialista.‭ ‬O desejo figura um papel fundamental na passagem entre a revolta e afirmação,‭ ‬como veremos.

A questão filosófica principal,‭ ‬diz Camus,‭ ‬é o suicídio.‭ ‬Estando frente à pulverização do sentido,‭ ‬à fragmentação das verdades,‭ ‬ao absurdo da existência‭; ‬devemos ou não nos matar‭? ‬Eis a pergunta fundamental.‭ ‬Fato é que nossa racionalidade não encontra par no mundo.‭ ‬Não há sentido que não tenha sido questionado ao longo da história,‭ ‬nada se mostrou resistente à irracionalidade do mundo.‭ ‬Será que,‭ ‬afinal de contas,‭ ‬o homem não possui nada de universal‭? ‬Aqui Camus encontra tão importante para sua filosofia como o‭ ‬cogito‭ ‬para Descartes:‭ ‬o que temos em comum é a‭ ‬nossa inclusão no absurdo.‭ ‬Estamos todos mergulhados neste mar de sentidos vagos como ondas que vão e vêm sem regularidade.‭ ‬Estamos distantes do mundo,‭ ‬não nos entendemos com ele.‭ ‬Somos estrangeiros à nossa própria condição.‭ ‬O que há de errado com o‭ “‬homem‭”‬ (Aqui usado como um conceito bastante preciso,‭ ‬a saber,‭ ‬o de homem moderno‭)?

Para Camus,‭ ‬o homem esforça-se para fugir do absurdo,‭ ‬este é seu pecado contra a vida.‭ ‬Ele inventa projetos,‭ ‬ídolos,‭ ‬Deuses,‭ ‬finalidades para se distrair,‭ ‬para não se entediar,‭ ‬mas principalmente para não dar de cara com o absurdo.‭ ‬Ora,‭ ‬devemos então,‭ ‬como Nietzsche,‭ ‬afirmar o trágico da existência,‭ ‬não só aceitar a sua falta de sentido,‭ ‬mas fazer da falta de sentido uma‭ ‬revolta.‭ ‬Se a vida não tem sentido,‭ ‬só poderá ser vivida em sua absurdidade.‭ ‬Devemos lançar longe a esperança e os ideais,‭ ‬pois estes são de um lado disfarce,‭ ‬de outro veneno.‭ ‬A vida só poderá ser vivida na consciência precisa de sua tragicidade.

A revolta nasce aqui,‭ ‬na opção pela vida,‭ ‬mesmo que a vida seja regida pelo absurdo.‭ ‬Trata-se de enfrentar a morte com a consciência,‭ ‬com a revolta,‭ ‬com o reconhecimento da luta,‭ ‬jamais aceitá-la e o desejo é o operador fundamental.‭ ‬Aqui o desejo de vida,‭ ‬se quiserem podemos chamar de pulsão de vida,‭ ‬deve vencer o suicídio,‭ ‬as pulsões de morte.‭ ‬Quando aceitamos o absurdo e nos revoltamos com a morte,‭ ‬optamos pela vida sem conciliação e escolhemos Eros no lugar de Tânatos.‭ ‬Um aspecto genial que não vou abordar aqui‭ ‬é a questão da liberdade em Camus:‭ ‬quando o homem reconhece o absurdo,‭ ‬deixa de mascarar o real,‭ ‬buscar explicações,‭ ‬julgar o devir,‭ ‬enrijecer a existência e ganha enormemente em liberdade,‭ ‬uma nova maneira de encarar o seu destino.‭ ‬Indico a leitura do Mito de Sísifo‭ (‬veja aqui) ‬para os interessados.

Detenho-me na questão do desejo fazendo uma pequena citação:‭ “‬Se há um pecado contra a vida,‭ ‬esse não é provavelmente o desesperar dela,‭ ‬senão o esperar por outra vida e subtrair-se à implacável grandeza desta‭”‬.‭ ‬A concepção de homem de Camus envolve um ser que conhece o absurdo da existência,‭ ‬experimenta a revolta,‭ ‬reconhece sua liberdade e a possibilidade de se construir eticamente.‭ ‬Mas todo esse caminho supõe uma vontade de vida,‭ ‬um excesso de potência,‭ ‬um‭ ‬desejo enquanto força motora.‭ ‬Jamais,‭ ‬repito,‭ ‬jamais buscar uma vida esvaziada de desejo,‭ ‬pois no momento em que este cessar o suicídio,‭ ‬enquanto pulsão de morte,‭ ‬triunfa e faz naufragar o homem,‭ ‬que,‭ ‬enquanto vivo,‭ ‬elege ideais para suportar a existência‭ ‬até o momento em que finalmente escolhe a morte.

Neste mesmo sentido,‭ ‬encontramos Michel Onfray,‭ ‬filósofo‭ ‬francês e nosso contemporâneo.‭ ‬Sua relação com Freud é bastante polêmica,‭ ‬já que um de seus livros mais conhecidos chama-se‭ ‬Crepúsculo de um Ídolo,‭ ‬fazendo uma brincadeira com o livro de Nietzsche.‭ ‬Qual ídolo‭? ‬Freud,‭ ‬obviamente.‭ ‬Assim como Deleuze,‭ ‬um crítico ferrenho da psicanálise,‭ ‬mas o que chama atenção é sua utilização dos conceitos‭ ‬de pulsão de morte e vida.

Onfray segue o‭ ‬programa‭ ‬nietzschiano de recusa ao platonismo.‭ ‬A interpretação do desejo como falta,‭ ‬como carência gera um desprezo,‭ ‬pois jamais o mundo real pode resistir ao ideal‭ ‬(abordei um pouco este tema no primeiro texto da revista da Razão Inadequada,‭ ‬quando falava de ditadura da beleza‭)‬.‭ ‬A ficção deste mito do desejo enquanto falta,‭ ‬segundo Onfray,‭ ‬nasceu em Platão e foi adotado pelo ocidente na sua forma judaico-cristianista,‭ ‬o que resultaa em dois mil anos de recusa ao corpo e ao prazer.‭ ‬Sua filosofia hedonista,‭ ‬expressa‭ ‬em‭ ‬suma no livro‭ ‬Potência de Existir,‭ ‬trabalha com o‭ ‬desejo como excesso,‭ ‬o corpo como um caldeirão que ameaça transbordar,‭ ‬o mundo‭ ‬imanente,‭ ‬atômico,‭ ‬material.‭ ‬Um programa‭ ‬filosófico‭ ‬para um pós-cristianismo necessário.‭ ‬Está aí um filósofo que vale a pena considerar.

Seria o desejo um substantivo plural‭? ‬Seria o desejar um verbo intransitivo,‭ ‬isto é,‭ ‬que não necessita de complemento‭? ‬Existiria,‭ ‬por acaso,‭ ‬uma forma adequada de desejar‭? ‬E um desejo inadequado‭? ‬É impossível,‭ ‬para nós,‭ ‬não falar do desejo como algo definitivamente plural.‭ ‬O desejo é múltiplo,‭ ‬o desejo se conjuga sempre como fluxos que se atravessam.‭ ‬Todo aquele que tenta prender o desejo para dissecá-lo e encontrar sua verdade não passa de um ditador.‭ ‬Ou de um tolo que toma gato por lebre.‭ ‬O desejo foge,‭ ‬desvia,‭ ‬se disfarça,‭ ‬cria linhas de fuga ao infinito.

Contrariando Mário de Andrade,‭ ‬terminamos dizendo que amar é na verdade um verbo transitivo,‭ ‬pois tem sempre uma causa externa.‭ ‬Mas concluímos declarando que desejar é definitivamente um verbo intransitivo e pode ser usado a qualquer momento e em qualquer situação:‭ ‬eu desejo,‭ ‬tu desejas,‭ ‬nós desejamos,‭ ‬e nada além disso.‭

desejo

6 comentários

  1. Estava pesquisando a origem da palavra desejo e achei justo o contrário, que vem de “de sideris”, das estrelas, de esperar algo das estrelas. Nunca tinha lido esta sua interpretação e agora estou dividido. Mesmo na origem da palavra estão esses dois jeitos de ver: será desejo uma falta, uma espera, ou será ele uma força e uma presença por si mesmo?

    No mais, gostei do texto. Ótimo site.

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