Na mitologia grega, Sísifo, filho Éolo e Enarete, foi considerado o mais astuto dos mortais, um dos primeiros a dominar a escrita. Mas por que Albert Camus escolheu Sísifo para personificar sua filosofia? Ora, em um dos mitos diz-se que ele trocou favores com Ásopo, um deus-rio, para prover água às pessoas de sua cidade. Zeus ficou enfurecido e mandou Tânato – a morte ela mesma – para levar Sísifo ao mundo subterrâneo. Ao encontrar-se com a morte, Sísifo a presenteia com um colar e elogia sua beleza. O colar na verdade era uma coleira e, assim, ele aprisiona Tânato. Por algum tempo, ninguém morreu.

Hades, deus dos mortos, foi quem se enfureceu desta vez. Libertou Tânato e mandou-o novamente atrás de Sísifo. Antes de seguir com a morte para encontrar Hades, Sísifo pediu secretamente à sua esposa, Mérope, que não enterrasse seu corpo. Quando encontrou Hades, contou-lhe que não podia aceitar tamanha desonra. Precisava voltar para ordenar que lhe enterrassem o corpo. E assim, enganou a morte pela segunda vez.

Quando Sísifo finalmente morreu, foi de velhice. Então, Zeus e Hades consideraram Sísifo um revoltado e o sentenciaram a uma eternidade de punição.

Os deuses condenaram Sísifo a rolar incessantemente uma rocha até o alto de uma montanha, de onde tornava a cair por seu próprio peso. Pensaram, com certa razão, que não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança.”  Camus, O Mito de Sísifo, p.137

Camus escolhe Sísifo pela sua audácia em enfrentar a morte, pela revolta consciente que fez de sua vida uma criação autêntica, digna de se estar presente. A astúcia de Sísifo é a de negar os deuses e aceitar seu destino. A liberdade de Sísifo é sua escolha em encarar o absurdo sem nostalgia, salto ou apelo. A grandeza de Sísifo é sua intenção de esgotamento, seu desejo de ir até o fundo da existência conhecendo todos os riscos. É a própria negação da morte personificada na revolta que interessa Camus.

Sísifo é o herói absurdo. Tanto por causa de suas paixões como por seu tormento. Seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que se paga pelas paixões dessa terra.” p.138

Os mitos dos mortais são os que mais interessam. A finitude como condição básica da vida e a impossibilidade de tornar-se deus, nos colocam num mesmo plano que esses homens. Essas estórias são alegorias de nossa própria condição. Muito mais do que os conflitos no Olimpo, a morada dos deuses. Essa condição, marcada pelo absurdo, é o plano de toda a filosofia de Camus. A necessidade da morte e a impossibilidade de ter um conhecimento verdadeiro nos arremessam ao mundo como a um imenso rochedo. Ao punir Sísifo, os deuses na verdade só intensificaram sua condição, esquecendo-se que ele, o revoltado, estava já bem acostumado ao absurdo.

Só vemos todo o esforço de um corpo tenso ao erguer a pedra enorme, empurrá-la e ajudá-la a subir uma ladeira cem vezes recomeçada; vemos o rosto crispado, a bochecha colada contra a pedra, o socorro de um ombro que recebe a massa coberta de argila, um pé que a retém, a tensão dos braços, a segurança totalmente humana de duas mãos cheias de terra. Ao final desse prolongado esforço, medido pelo espaço sem céu e pelo tempo sem profundidade, a meta é atingida. Sísifo contempla então a pedra despencando em alguns instantes até esse mundo inferior de onde ele terá que tornar a subi-la até os picos. E volta a planície” p.138

Temos então uma eternidade num ciclo dividido em alguns momentos. Fazer a pedra subir, vê-la cair, descer e tornar a subi-la. São bastante diferentes. Ao subir, Sísifo é tal qual pedra, seu rosto confunde-se com a rocha, seus pensamentos são minerais, seus desejos são puro instinto. Por acaso essa mecânica nos espanta? Que fazemos em nossa vida senão subir pedregulhos cotidianamente? Somos todos um pouco minerais, hoje talvez um pouco feitos de silício. Estamos imersos em processos automáticos onde mal sobra tempo para pensar, tampouco viver. Queiramos nós ter a força de Sísifo ao carregar sua pedra, não podemos nos desvencilhar delas!

Marc Perez

Esse mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo.” p.139

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Marc Perez

O segundo momento, ver a pedra rolar montanha abaixo, dinâmica, necessidade, movimento. Não é possível criar nada sem esse eterno rolar pedras. Existe uma cota de sacrifício em toda construção. A crueldade consigo é vital para as grandes almas. Perceber o caos em sua capacidade infinita de desmontar e também reconhecer que somos filhos dele. A consciência dessa desmesura entre nós e o mundo é fundamental. Coragem é precisamente o que existe para além de tudo isso, seguir apostando na vida apesar das chances.

O último momento é o auge. Sísifo desce a montanha, sente o vento bater em seu rosto, o sol já próximo do horizonte preenche a ilha deserta de tons alaranjados. A pedra parece tão pequena de longe. Cada descida é a experimentação de uma nova maneira de sentir. Descer a montanha é ter um bom encontro com as forças da gravidade, é ser um pouco de vento. A boa disposição de si mesmo faz de Sísifo um criador. Ele já não é pedra.

Toda a alegria silenciosa de Sísifo consiste nisso. Seu destino lhe pertence. A rocha é sua casa. Da mesma forma, o homem absurdo manda todos os ídolos se calarem quando contempla o seu tormento. No universo que repentinamente recuperou o silêncio, erguem-se milhares de vozes maravilhadas da terra.” p.140

A filosofia trágica encontra a estética e uma ética solar surge. O absurdo abre a possibilidade de criação. A revolta dá sua porção de sentido. A eternidade nada mais é do que um destino certo. A liberdade é uma condenação à presença. A criação é a atualização das forças em mais capacidade de existir e afirmar.

Deixo Sísifo na base da montanha! As pessoas sempre reencontram seu fardo. Mas Sísifo ensina a felicidade superior que nega os deuses e ergue as rochas. Também ele acha que está tudo bem. Este universo, doravante sem dono, não lhe parece estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada fragmento mineral dessa montanha cheia de noite forma por si só um mundo. A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.” p.141

Marc Perez

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

5 comentários

  1. Rafael, muito bacana essa série de textos sobre Camus. Acompanhei todos, e quero ainda reler depois, com mais calma. Às vezes, o absurdo da vida é tão grande que fica quase irrespirável; seus textos foram densos e leves ao mesmo tempo: cheios de fôlego novo.
    Abraço,

    Anita.

    Curtido por 1 pessoa

  2. humana, demasiada humana essa felicidade superior de erguer pedras. Prefiro o caminho do Além-do-Homem a por essas pedras para dançar como estrelas do que desprezar o próprio corpo pondo-me infinitamente a erguer pedras, sendo pedra.
    É bastante louvável a felicidade de Sísifo, mas deveríamos mesmo esquecer que ele está em Tártaro agora contra a própria vontade?

    “A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz.”
    Desprezando assim seu corpo tornado pedra e sua eternidade tornada no Mesmo? Ah! só a um camelo tal destino seria aceitável, mas bastasse um leão para pô-lo a correr.

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