Sua subjetividade se configura sobre a base da dívida. Você sobrevive se endividando, e vive sob o peso da responsabilidade em relação à dívida (Negri e Hardt, Declaração, p.22)

enforcado2 – por Rafael Lauro e Rafael Trindade

Quando dizemos que a vida foi posta para trabalhar, é precisamente a figura do endividado que temos em mente. “Ter dívidas está se tornando a condição geral da vida social“. Não há como construir uma casa sem se endividar, nem ao menos mobiliar uma já existente. Muitas vezes, é difícil chegar ao fim do mês sem dever. Aliás, eis um desafio: encontrar alguém sem dívidas parceladas em suaves prestações, sem juros, sem entrada, sem empréstimos consignados e/ou compras à perder de vista.

Somos todos endividados. “O efeito da dívida é fazê-lo trabalhar arduamente“, dia após dia esperando quitá-las no fim do mês, mas percebendo-se impossibilitado de viver sem contrair mais algumas no caminho. O lema aqui é um só: somos responsáveis por nossas dívidas como livres consumidores e devemos pagar pelos nossos pecados. Uma ética do trabalho muito semelhante à crença no livre arbítrio, tão necessária aos sacerdotes ascéticos. E qual o resultado se pecarmos e não honrarmos nossas dívidas? Culpa e cassação de direitos, é claro. Curioso, no entanto, é que neste caso nossos pecados são a necessidade de ter uma casa, água, comida e algo mais. O cheque especial já não parece tão especial assim.

O débito se perpetua indefinidamente como forma de controle. Para além dos mecanismos disciplinares, encontramos hoje espalhados na vida social, dispositivos de controle, que atuam sobre cada um com vista aos mesmos efeitos: manter, conservar, fiscalizar, inspecionar, dirigir, superintender. Mas não de qualquer maneira, da maneira mais inteligente possível, isto é, fazendo com que cada um de nós seja a expressão de suas amarras, a roda dentada que faz todo o sistema funcionar. “O endividado é uma consciência desventurada que transforma a culpa numa forma de vida“. Forma de vida que interessa a poucos. Fabricar uma subjetividade como a do endividado, interessa a quem mais lucra com a lógica do credor/devedor – os bancos e as instituições financeiras. O endividado nasce do buraco aberto pela enorme distância entre ricos e pobres, é o fecundo fruto da pervertida desigualdade social.

O capitalista acumula riqueza basicamente por meio da renda, não do lucro; de modo mais frequente, essa renda assume a forma financeira, sendo garantida por meio de instrumentos financeiros. É quando a dívida entra em cena, como uma arma para manter e controlar a relação de produção e exploração. Hoje, a exploração se baseia principalmente não na troca (igual ou desigual), mas na dívida, ou seja, no fato de que 99% da população está sujeita – deve trabalho, deve dinheiro, deve obediência – ao 1% restante. (Negri e Hardt, Declaração, p.24-5)

É um processo de captura. Do quê? Ora, da própria vida! Nossas necessidades básicas estão cada dia mais distantes da nossa relação natural com o mundo, nossas vidas foram monetizadas. Precisamos tomar de empréstimo o que era nosso de saída. Estamos falando de água, comida, abrigo, mobilidade… Perdemo-nos em contas para pagar. Não fomos privados de nada, fomos afastados. Catracas, travas, cancelas, portões, caixas registradoras estão agora em nosso caminho. Mas e se não pagássemos a dívida?

Se você deve $100 ao banco, o problema é seu; se você deve $100 milhões, o problema é do banco” – John Paul Getty

Toda revolta nasce com uma recusa, um grande Não! Não vamos pagar, não queremos entrar neste esquema, não daremos nosso dinheiro a você! Quando a dívida assume proporções absurdas, o endividado percebe que todas as riquezas foram expropriadas do fruto de seu trabalho. O chefe chega de helicóptero, o faxineiro, de ônibus.

Atrás do Não, e é isso que muitos têm dificuldade para perceber, esconde-se um Sim. O desejo não nasce da falta, ele é a próprio força que cresce, se apropria, se recria. Destruir a força do dinheiro e a servidão da dívida abre alas para uma busca por uma vida baseada não na coerção ao pagamento, mas numa subjetividade fundada na cooperação e na produção comum de riquezas, que pertencem a todos, excluindo assim a propriedade privada.

A recusa da dívida é a busca por um novo modo de relacionar-se, é a procura por aliados, é o desprezo pelo processo que leva uma vida a girar em torno do valor negativo de sua conta bancária. Recusar a dívida; fazer um uso criativo da própria força de trabalho; eliminar o valor de troca e assumir o valor de uso; são pequenos passos para uma grande mudança, um antídoto para expurgar o corpo de um veneno cotidiano. É no processo de ressignificação do valor monetário que reside a possibilidade de uma vida não monetizada.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

15 comentários

  1. O texto é muito bom. A única falha na argumentação é que vc não entende o conceito da dívida. A dívida não é necessária nem tampouco estamos todos endividados e muito menos ainda este é um problema exclusivo das classes menos favorecidas.

    A dívida nada mais é do que uma troca, como qualquer outra compra, vc compra o dinheiro, ou mais precisamente, o tempo. A dívida é a troca da necessidade (ou não) de possuir hoje o que se poderia possuir somente daqui um tempo.

    “Destruir a força do dinheiro e a servidão da dívida abre alas para uma busca por uma vida baseada não na coerção ao pagamento, mas numa subjetividade fundada na cooperação e na produção comum de riquezas, que pertencem a todos, excluindo assim a propriedade privada.”

    A frase é perfeita senão pelo fato de que a servidão da dívida nada tem a ver com a monetização da sociedade, ela é apenas uma ferramenta desta. Classicamente, o capitalismo existe pois não há maneira prática de se conquistar a produção comum de riquezas sem o uso de trabalho e não há como ter trabalho em larga escala sem: 1) a venda do trabalho; 2) a utilização forçada do trabalho; ou 3) a conscientização utópica de todos os indivíduos que compões a determinada sociedade. 1 é o que temos hoje, 2 é o que tivemos no passado e 3 é o que tentamos implementar diversas vezes mas sempre retornamos à condição 2, logo ela é impraticável da maneira que foi concebida até hoje.

    O difícil não é chegar ao fim do mês sem se endividar. O difícil é termos a paciência para tal.

    Curtido por 1 pessoa

    1. É … temos uma discordância de princípio então. O texto trabalha com a ideia de que a dívida se tornou necessária para qualquer um, independe de classe. No meu entender, o conceito de dívida está pensando exatamente como você expôs.

      Produção de riquezas obviamente precisa de trabalho, mas o que Negri e Hardt entendem por riqueza comum é que é diferente, mas aí é assunto para outro texto inteiro.

      Se é preciso paciência para não se endividar, é difícil chegar ao fim do mês sem se endividar, não é?

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    2. Perfeito seu contra ponto. O problema da divida é justamente a falta de paciência para produzir a riqueza necessária para se ter o bem almejado e, nessa impaciência, nos afundamos. É utópico, como já foi provado muitas vezes, produzir riqueza e bens em uníssono e coperativamente. As pessoas são diferentes e querem coisas diferentes e produzem de modo diverso.

      Curtido por 1 pessoa

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