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A mediatização é o fato principal das divisões cada vez mais indistintas entre trabalho e vida”

– Negri e Hardt, Declaração, p.29

Se com o Endividado nós vemos que a vida foi posta para trabalhar, com o Mediatizado nós percebemos que não há tanta distância assim entre trabalho e vida. Uma torrente de informações desfilam à nossa frente em pouco tempo. A velocidade da vida passou a ser medida em megabytes por segundo. Basta um clique para acessar um dado, fazer um amigo, curtir um canal. Não nadamos em um mar de informação, muito pelo contrário, ela é um tsunami que nos afoga toda vez que abrimos o jornal.

Não nos entreguemos à ansiedade do Amaldiçoador ao distribuir críticas às novas tecnologias e nos refugiar na nostalgia de um tempo que se foi. É preciso, no entanto, repensar o impacto dos novos mecanismos em nós. Somos mais potentes por andar com computadores-celulares nos bolsos ou estamos nos perdendo nos fluxos de informação cada vez mais velozes? Se a produção está diretamente ligada à comunicação, deveríamos, hoje, nos recusar a se comunicar?

Na figura do Mediatizado, encontramos, mais uma vez, a mutação da disciplina em controle: a repressão deu vez à produção. Se antes encontrávamos trabalhadores desinformados, alienados em seus cubículos; hoje os encontramos perdidos, letárgicos, deslumbrados em meio a uma miríade de novas ferramentas. A alienação está se tornando cada vez mais submissão, se é que um dia deixou de sê-la. O mediatizado não é bobo, nem alienado, ele sabe que toda sociedade do espetáculo lhe engana enquanto ele muda de canal, mas ele simplesmente não consegue fazer diferente. Como disse Espinosa, “ele vê o melhor mas segue fazendo o pior”. O mediatizado está capturado pela rede de comunicações.

Isso acontece independentemente da enorme variedade de novas formas de comunicação. Twiter e facebook não diminuem a figura do Mediatizado. Diz o ditado, “o peixe morre pela boca”; sim, neste mar de informações somos intimados a dar nossa opinião. Não temos mais o direito de permanecer calados, nem surdos. Não produzimos afetos novos, apenas nos perdemos em julgamentos permeados de ódio e preconceitos. Basta lembrar o “paradoxo político realçado por Étienne de La Boétie e Baruch de Espinosa: às vezes, as pessoas se empenham por sua servidão como se fosse sua salvação” (Declaração, p.28). Cada palavra, se não bem pronunciada e pensada, torna-se mais um muro de nossa prisão.

Não nos falta comunicação; ao contrário, temos comunicação de sobra. O que nos falta é a criação. O que nos falta é a resistência ao presente”

– Negri e Hardt, Império, p. 417

Se informar é se reformar, comunicar é reatar a produção do real: o comum. É mais que ligar a TV, é não deixá-la acreditar que é isso, que é assim, que está pronto. O comercial te diz como ser, te dá um modelo; o jornal te dá uma informação, uma interpretação, uma reação, um ponto de vista. informe-se! (Des)informe-se! Pense fora da caixa. Vá às ruas, converse, pergunte, troque, respire gás lacrimogêneo – pode ser uma boa! Se for ficar em casa, proponha-se novos usos de sua velha televisão: tire-a do quarto e coloque a no quintal; escolha com seus familiares um programa em comum; aperte o ‘mudo’ durante os comerciais.

Quebre o feitiço e descubra uma nova maneira de se comunicar”

– Negri e Hardt, Declaração, p.56

As novas subjetividades se produzem nos encontros. Mas os encontros estão restritos a uma virtualidade morta! Cada um em seu quarto curtindo páginas e perguntando pelo WhatsApp: “o que você fez hoje?”. A produção de novos afetos passa necessariamente pela produção de novas realidades. O meio pode ser virtual, mas então devemos recriá-lo a todo instante.  O primeiro passo está dado, é aqui e agora: este texto, esta provocação, este conjuntura política e social. As novas mídias são um solo fértil para a criação de novas subjetividades, mas não basta; é preciso reinventar o rádio, o jornal, a televisão – meios já capturados, engessados, pouco criativos, pouco produtivos, enraizados demais, repetitivos demais…

Talvez seja necessário um novo tipo de comunicação que funcione não com base em semelhanças, mas nas diferenças: uma comunicação de singularidades”

– Negri e Hardt, Império, p. 76

Produção é comunicação, comunicar-se é produzir. Mas estamos cansados do mesmo, queremos que a comunicação seja com o diferente, com o novo. Precisamos encontrar novas línguas, misturar o rap com o rock, o francês com o japonês. Cantar maracatú em espanhol. Toda comunicação que fuja ao jargão passivo e  à maneira servil de viver já é um novo afeto político emergindo. Assistir à TV, acessar à internet, ouvir ao rádio não podem mais ser passividades cotidianas, devemos buscar a atividade, desviar os olhares das telas capturadas, deixar de ser a reprodução do que ouvimos no jornal nacional – levantemos as Âncoras, há sempre um mundo novo por descobrir.

Texto da Série:

Subjetividade em Crise

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Música e Filosofia são as linhas que tecem a minha vida...

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Pelotas Occulta
7 anos atrás

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