A mediatização é o fato principal das divisões cada vez mais indistintas entre trabalho e vida” – Negri e Hardt, Declaração, p.29

– por Rafael Lauro e Rafael Trindade

gringonneur-20Se com o Endividado nós vemos que a vida foi posta para trabalhar, com o Mediatizado nós percebemos que não há tanta distância assim entre trabalho e vida. Uma torrente de informações desfilam à nossa frente em pouco tempo. A velocidade da vida passou a ser medida em megabytes por segundo. Basta um clique para acessar um dado, fazer um amigo, curtir um canal. Não nadamos em um mar de informação, muito pelo contrário, ela é um tsunami que nos afoga toda vez que abrimos o jornal.

Não nos entreguemos à ansiedade do Amaldiçoador ao distribuir críticas às novas tecnologias e nos refugiar na nostalgia de um tempo que se foi. É preciso, no entanto, repensar o impacto dos novos mecanismos em nós. Somos mais potentes por andar com computadores-celulares nos bolsos ou estamos nos perdendo nos fluxos de informação cada vez mais velozes? Se a produção está diretamente ligada à comunicação, deveríamos, hoje, nos recusar a se comunicar?

Na figura do Mediatizado, encontramos, mais uma vez, a mutação da disciplina em controle: a repressão deu vez à produção. Se antes encontrávamos trabalhadores desinformados, alienados em seus cubículos; hoje os encontramos perdidos, letárgicos, deslumbrados em meio a uma miríade de novas ferramentas. A alienação está se tornando cada vez mais submissão, se é que um dia deixou de sê-la. O mediatizado não é bobo, nem alienado, ele sabe que toda sociedade do espetáculo lhe engana enquanto ele muda de canal, mas ele simplesmente não consegue fazer diferente. Como disse Espinosa, “ele vê o melhor mas segue fazendo o pior”. O mediatizado está capturado pela rede de comunicações.

Isso acontece independentemente da enorme variedade de novas formas de comunicação. Twiter e facebook não diminuem a figura do Mediatizado. Diz o ditado, “o peixe morre pela boca”; sim, neste mar de informações somos intimados a dar nossa opinião. Não temos mais o direito de permanecer calados, nem surdos. Não produzimos afetos novos, apenas nos perdemos em julgamentos permeados de ódio e preconceitos. Basta lembrar o “paradoxo político realçado por Étienne de La Boétie e Baruch de Espinosa: às vezes, as pessoas se empenham por sua servidão como se fosse sua salvação” (Declaração, p.28). Cada palavra, se não bem pronunciada e pensada, torna-se mais um muro de nossa prisão.

Não nos falta comunicação; ao contrário, temos comunicação de sobra. O que nos falta é a criação. O que nos falta é a resistência ao presente” – Negri e Hardt, Império, p. 417

Se informar é se reformar, comunicar é reatar a produção do real: o comum. É mais que ligar a TV, é não deixá-la acreditar que é isso, que é assim, que está pronto. O comercial te diz como ser, te dá um modelo; o jornal te dá uma informação, uma interpretação, uma reação, um ponto de vista. informe-se! (Des)informe-se! Pense fora da caixa. Vá às ruas, converse, pergunte, troque, respire gás lacrimogêneo – pode ser uma boa! Se for ficar em casa, proponha-se novos usos de sua velha televisão: tire-a do quarto e coloque a no quintal; escolha com seus familiares um programa em comum; aperte o ‘mudo’ durante os comerciais.

Quebre o feitiço e descubra uma nova maneira de se comunicar” – Negri e Hardt, Declaração, p.56

As novas subjetividades se produzem nos encontros. Mas os encontros estão restritos a uma virtualidade morta! Cada um em seu quarto curtindo páginas e perguntando pelo WhatsApp: “o que você fez hoje?”. A produção de novos afetos passa necessariamente pela produção de novas realidades. O meio pode ser virtual, mas então devemos recriá-lo a todo instante.  O primeiro passo está dado, é aqui e agora: este texto, esta provocação, este conjuntura política e social. As novas mídias são um solo fértil para a criação de novas subjetividades, mas não basta; é preciso reinventar o rádio, o jornal, a televisão – meios já capturados, engessados, pouco criativos, pouco produtivos, enraizados demais, repetitivos demais…

Talvez seja necessário um novo tipo de comunicação que funcione não com base em semelhanças, mas nas diferenças: uma comunicação de singularidades” – Negri e Hardt, Império, p. 76

Produção é comunicação, comunicar-se é produzir. Mas estamos cansados do mesmo, queremos que a comunicação seja com o diferente, com o novo. Precisamos encontrar novas línguas, misturar o rap com o rock, o francês com o japonês. Cantar maracatú em espanhol. Toda comunicação que fuja ao jargão passivo e  à maneira servil de viver já é um novo afeto político emergindo. Assistir à TV, acessar à internet, ouvir ao rádio não podem mais ser passividades cotidianas, devemos buscar a atividade, desviar os olhares das telas capturadas, deixar de ser a reprodução do que ouvimos no jornal nacional – levantemos as Âncoras, há sempre um mundo novo por descobrir.

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

8 comentários

Comente aqui!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s