Pingo em poça d’água.
Toque em nó de madeira.
Estalo de fogueira. Apito de chaleira.
Cotovia em assovio.
Mar e rochedo em desatino.
Folhas de mangueira.
Excessos de britadeira.
Riscos em quadro-negro.
Cordas beliscadas com carinho.
Ar em movimento. Sinos ao vento.

Por Rafael Lauro e Rafael Trindade,

Afinem seus instrumentos, estamos começando. Baterista, as baquetas! Onde está minha palheta? Quantos minutos para entrarmos? A casa está cheia! É hoje! Vocês lembram os acordes da música? Eu começo improvisando… mas antes, o tema:

Quando falamos em timbre, falamos necessariamente em singularidade: essa coisa que nos faz todos diferentes. Alguns adorariam chamá-la de essência, nós preferimos algo mais sonoro. Timbre, essa distinção que um violonista leva consigo nos dedos ou uma flautista guarda dentro da boca. Timbre é singular, é distintivo, é particular, mas não deixa de ser composição, ressonância, multiplicidade. Dedos e cordas, sopros e orifícios. Só existem inúmeros timbres porque há inúmeros encontros de elementos sempre diferentes. E que grande festa é uma orquestra! Extravagâncias dando-se umas às outras, rindo-se de suas diferenças.

Qual o som que emitimos no caminho? Temos nosso timbre. Somos atravessados pelo mundo. Compomos a harmonia de um mundo sem maestro. O essencial está aí, nos deslocamos como um rio por entre os acordes da vida. Somos corpos que vibram, somos partículas que dançam. Temos nossas características.

Um é aguado e insosso
Outro avoado e brilhante
Esse remói o caroço
Aquele mastiga diamante
Um tá no fim do caderno
Outro dá início à leitura
Um é a fúria do inferno
Outro eterna ternura

– Lenine

O timbre define quem somos, sem nos fechar em uma identidade. Queremos uma singularidade, queremos um eixo, mas não queremos uma forma fechada. Vibrar todas as cordas, esticar, criar tensão. Não importa a intensidade com que vivo minha vida, meu timbre me dá segurança. Não importa a altura com que grito ou sussurro, meu timbre me acompanha para me localizar bem, me mexer com destreza.

Somos um conjunto de notas, umas mais agudas, outras mais graves (nos fazemos também no silêncio). Mas quantas pessoas morrem sem nunca ter tocado certas melodias, sem nunca ter entrado em harmonia com o próximo. Um pequeno instrumentinho que toca envergonhado suas trombetas, um novo som para o mundo. Mais uma cor para a nossa paleta, mais uma possibilidade para nossa composição. Há de se valorizar muito esses pequeninos, para que não guardem para si suas diferenças. Mandem extrovertir as panelas!

>Texto da série: Filosofia em Tom Maior<

>> Ver também: Dicionário de Conceitos <<

Pollock1

6 comentários

  1. Rafael, desde a primeira vez que li essas palavras, venho pelo menos uma vez por semana relê-las. É quase um gesto espontâneo. Navego e, de repente, estou aqui na tentativa de calibrar e distorcer minhas intensidades. Fico feliz e ao mesmo tempo grato pela grandeza incessante do seu timbre, ele não cansa de ressoar!

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