O desejo não para de efetuar o acoplamento de fluxos contínuos e de objetos parciais essencialmente fragmentários e fragmentados. O desejo faz correr, flui e corta” – D&G, Anti-Édipo, p. 16

Se o desejo produz, então pode apenas produzir o real. E existe apenas uma realidade, a nossa. A síntese conectiva do inconsciente é uma das maneiras como o desejo opera. Fluxos, tudo são fluxos de desejo que se cruzam, atravessam, esbarram, se misturam. Esses fluxos se conectam e desconectam com as máquinas desejantes que operam cortes e conexões. Tudo em constante vai e vem, produção ininterrupta em todas as direções, máquinas operando cortes em outras máquinas, fluxos passando e se desconectando, Fluxo contínuo: cada máquina desejante exige outra para fazer a conexão ou o corte.

Toda máquina é máquina de máquina” – D&G, Anti-Édipo, p. 17

Deleuze e Guattari desenvolvem a ideia síntese conectiva para mostrar como o inconsciente opera de maneira caótica, rizomática, sem começo nem fim, em uma produção universal primária. O fluxo de leite é cortado pela boca da criança, o fluxo de fezes é cortado pelo ânus, da mesma forma a salsicha é produzida em uma grande máquina industrial. As mãos se conectam com a guitarra que se conecta com o amplificador que se conecta com o ar e o tímpano do fã de heavy metal. A síntese conectiva se dá através da conjunção “e”: e… e… e… e… e… Em todo lugar há conexões e desconexões, ligações e rompimentos. Séries lineares de conexões, binária, mas ininterrupta, em todas as direções. As crianças, por exemplo, funcionam por síntese conectiva: “e aí eu fui na casa dela… e aí eu tomei sorvete… e aí eu pulei na cama elástica… e aí eu vomitei….”.

A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva: “e”, “e depois”… É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo, e uma outra que lhe está conectada, operando um corte, uma extração de fluxo (o seio — a boca)” – D&G, Anti-Édipo, p. 16

Os objetos parciais (desenvolvido por Melanie Klein) são máquinas que se conectam, não para completar uma forma íntegra e sem falhas. Não, aqui a ideia é que sempre há espaço para mais uma conexão: a síntese conectiva opera através de relações rizomáticas, que se expandem e sempre encontram mais um ponto de apoio, nem causa final, nem causa primeira. O uso imanente das sínteses é o das máquinas desejantes realizando acoplamentos cada vez mais complexos. E… e… e… e… tendendo ao infinito, ontologia do ilimitado. Cada vez mais, cada vez além, acima do além. Não existe ainda um eu ativo, existe uma miríade de eus em operação de ligação e conexão: eus larvares.

Mas o socius, o corpo social, luta para que a sínteses conectivas não desfaça sua organização. Ele opera uma inversão da sínteses, fazendo delas um uso transcendente, fechando o rizoma em um objeto global. Os orgãos ficam insensíveis, fechados, trabalhando maquinalmente: E… e… e… se fecham em uma representação estática, total. Sapatilha e tutu e collant e faixa no cabelo = Bailarina. Arma e cavalo e chapéu e colete e estrela dourada = Xerife.

Pierre Clastres nos dá boas pistas para entender este processo. Nas sociedades primitivas, cada membro se insere como uma parte de um grande totem. As partes se fecham em um todo, não há espaço para as sínteses conectivas realizarem novas conexões fora do socius.

O que se opõe aqui são dois usos da síntese conectiva: um uso global e específico; um uso parcial e não-específico” – D&G, Anti-Édipo, p. 98

A primeira luta dentro das sínteses é, portanto, reverter estes usos transcendentes da síntese conectiva, globais e específicas. Quebrar com o processo de normalização. Nós precisamos resistir às simbolizações juntamente com os objetos parciais. A esquizoanálise procura formas de criar novos fluxos para liberar os objetos parciais de sua colonização. As máquinas desejantes não podem ser representadas, não formam unidades e qualquer um que tentar será considerado um padre, sacerdote, um metafísico. Não se pode perguntar “o que são?”, apenas “como funcionam?”. E nós sabemos, e… e… e… e… e… e… e…

Frantisek Kupka - fanny machine the machinery, 1928
Frantisek Kupka – fanny machine the machinery, 1928

> Este texto faz parte da série: Inconsciente Maquínico <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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