Dadas as sínteses do inconsciente, o problema prático é o do seu uso, legítimo ou não, e das condições que definem um uso de síntese como legítimo ou ilegítimo” – D&G, Anti-Édipo, p. 95

Para pensar diferente, é preciso ferramentas que possam fazer coisas diferentes. Os conceitos são nossas armas. O inconsciente de Deleuze e Guattari segue este caminho, ele é inovador de tal modo que põe em perigo todas as outras formas de se pensar o mundo. Um inconsciente que se fabrica na superfície dos encontros, na superfície dos poros, que são atravessados pelos mais variados fluxos. Deleuze e Guattari inovam, seguem por outras vias, criam um inconsciente, o fabricam. Em suas mãos, tal concepção passa de metafísica para física, de espiritual para material, nele encontram-se todos o tipo de populações, grupos, máquinas.

O inconsciente da esquizoanálise ignora as pessoas, os conjuntos e as leis; as imagens, as estruturas e os símbolos. Ele é órfão, assim como é anarquista e ateu” – D&G, Anti-Édipo, p. 411

É preciso largar as velhas tradições e se deixar contagiar por um pensamento que se faz nas conexões, que se produz nos devires e nas intensidades. Estamos falando de uma aposta na imanência, um jogo que ao mesmo tempo é resistência e criação. Sendo assim, não podemos mais evitar uma tarefa inadiável: substituir a noção freudiana de um inconsciente representativo-simbólico por uma noção de inconsciente produtivo-real.

O inconsciente em Deleuze e Guattari não tem representação. O corpo preso dentro das representações é como um prisioneiro condenado à solitária, um escravo amarrado vendo imagens na caverna. Onde posso fazer conexões novas se tudo que encontro, no fim das contas, são meu pai e minha mãe? O bebê não está em conexão com sua mãe, ele está em conexão com o mundo, simbiose mundial. A família é o grande território, mas certamente não é o único. Se há uma negação do inconsciente como um teatro é porque o desejo estabelece relações, e estabelecendo relações cria suas próprias sínteses. Há muitos caminhos para o inconsciente, é preciso sair da via expressa edipiana e encontrar as trilhas que ainda estão escondidas.

Falar de inconsciente é analisar o modo pelo qual as máquinas desejantes realizam suas sínteses, os encontros que elas operam. Tais sínteses são inconscientes e involuntárias, elas existem aquém do sujeito, são máquinas desejantes, pré-individuais, a-subjetivas. Se o inconsciente não é antropomórfico, a análise das sínteses nos ajuda a explicar como a subjetividade é produzida ao final dos processos inconscientes das máquinas desejantes. Mas não podemos nos enganar, produção desejante e social são tudo farinha do mesmo saco (terceira tese da esquizoanálise). Os fluxos sociais atravessam os fluxos desejantes, molar e molecular se confundem. Se o desejo produz, então ele só pode produzir no real. O exterior do inconsciente não é um mundo à parte, o desejo não está enclausurado, não há falta, há multiplicidade. O modelo esquizofrênico opõe-se ao modelo neurótico.

Nosso objetivo? Arrancar o inconsciente do mesmo patamar da alma e das ideias transcendentes, assim como resgatá-lo do divã empoeirado dos analistas. Entender os usos legítimos (imanentes) e ilegítimos (transcendentes) de nosso consciente, que é constantemente capturado pelas forças capitalistas e ressentidas. Abandonamos os teatros e nos posicionamos contra a edipianização do inconsciente, para montar um inconsciente como máquina. Com Deleuze e Guattari podemos dizer que Édipo não é universal, e sua coerção é um obstáculo para entender as potencialidades do inconsciente. O recalque não acontece, como diz a psicanálise, por um desejo incestuoso e impossível de ser simbolizado ou suportado. O recalque acontece simplesmente porque o desejo é revolucionário, e cabe a nós entender como o desejo revolucionário se perde nas sínteses transcendentes e deixa para trás seu caráter nômade e transformador:

Pergunta-se: quais são as boas condições da cura? Um fluxo que se deixa carimbar por Édipo; objetos parciais que se deixam subsumir sob um objeto completo, ainda que ausente, falo da cas­tração; cortes-fluxos que se deixam projetar em um lugar mítico; cadeias plurívocas que se deixam bi-univocizar, linearizar, pendurar num significante; um inconsciente que se deixa exprimir; sínteses conectivas que se deixam tomar por um uso glo­bal e específico; sínteses disjuntivas que se deixam apanhar num uso exclusivo, limitativo; sínteses conjuntivas que se deixam prender num uso pessoal e segregativo… Pois o que significa “então era isso que isto queria di­zer”? Esmagamento do “então” por Édipo e pela cas­tração. Suspiro de alívio: veja, o coronel, o instrutor, o professor, o patrão, tudo isto queria dizer isso, Édipo e a castração, “toda a história em uma nova [80] versão”… Não dizemos que Édipo e a castração nada sejam: somos edipianizados, castrados, e não foi a psicanálise que inventou essas operações às quais ela apenas fornece os novos recursos e processos do seu gênio. Mas será que isso é su­ficiente para fazer calar o clamor da produção desejante: somos todos esquizos! somos todos perversos! somos todos Libidos demasiado viscosas ou demasiado líquidas…” – D&G, Anti-Édipo, p. 94