A disjunção tornou-se inclusa, tudo se divide, mas em si mesmo. Mesmo as distâncias são positivas, ao mesmo tempo em que as disjunções são inclusas” -D&G, Anti-Édipo, p. 106

Um conceito pode operar de várias maneiras, como uma ferramenta, e em várias épocas. A Síntese disjuntiva é um bom exemplo disso, conceito importantíssimo para Deleuze ele aparece em várias de suas obras, com nomes diferentes e com usos diferentes. Encontramos paralelos com a noção de repetição em um dos livros mais famosos: Diferença e Repetição. Ou com noção de memória, no livro Bergsonismo. Lógica do Sentido também já anunciava este conceito.

Diferente da síntese conectiva, a síntese disjuntiva funciona por distribuição. Ela opera registrando, organizando sobre o espaço, ela registra as operações de conexão. Seu modo de funcionamento é: “ou… ou… ou…”. O registro atesta o desdobramento das máquinas sobre o plano, seu movimento. Além disso, ela funciona ignorando a lógica aristotélica do terceiro excluído, permitindo-se operar com contradições, implicando termos que não se relacionam. Na síntese disjuntiva, a não-relação torna-se uma relação.

É exatamente isso, ela inclui a conexão do divergente, da diferença enquanto diferença, daquilo que parece não se relacionar. Na positividade da divergência, a sínteses disjuntiva torna-se inclusiva, permitindo que as diferenças entrem e contato, ao contrário de um fechamento, há aí uma abertura para inúmeras possibilidades. Cada termo é registrado e afirmado sem contradição, sem oposição, excedendo qualquer tendência à identidade.

Qual é a superfície de registro? O Corpo sem Órgãos. Há sempre um campo improdutivo onde se desdobra a produção, este corpo improdutivo é o CsO. As formas deslizam no campo do informe tal como as máquinas desejantes deslizam pelo Corpo sem Órgãos. Os objetos parciais criam gradientes de concentração, campos gravitacionais, campos eletromagnéticos, traçam linhas, definem campos marcados, riscam a superfície do CsO, criam sulcos. Saber se relacionar com com o CsO é a condição fundamental para se relacionar como caos e a criação. Ele é o elemento diferenciador, o motor imóvel, é ele quem impede o fechamento do desejo e garante seu elemento diferenciador.

Sobre o corpo sem órgãos as máquinas se engancham como outros tantos pontos de disjunção entre os quais se tece toda uma rede de sínteses novas que quadriculam a superfície” – D&G, Anti-Édipo, p. 25

Através das sínteses disjuntivas as máquinas podem se deslocar pelo campo. Desarticulação completa das máquinas, cadeias heterogêneas, diferenças internas, permutações. A articulação das multiplicidades permite ao corpo afetar e ser afetado de novas maneiras. A intenção é dobrar-se para dentro, escavar o corpo, reorganizá-lo sobre o CsO. Expandir-se para dentro de modo que ele aumente sua potência, abrindo sempre uma possibilidade a mais.

Ser homem, mas desdobrando-se com elementos femininos, como o violonista com unhas compridas para ferir as cordas do violão. É possível respirar, mas desdobrar a garganta para que ela possa também falar. Você gosta de homens ou mulheres? Gosto… não tem a ver com repressão mas com aberturas. O registro funciona deste ou deste jeito, assim ou assado. Um canivete suíço falaria melhor: corta, ou lixa, ou abre a rolha, ou fura, ou apara as unhas. Sempre ou… ou… ou… desdobrando-se cada vez mais.

Toda máquina comporta um tipo de código que se encontra maquinado, estocado nela. Esse código é inseparável não só de seu registro e de sua transmissão nas diferentes regiões do corpo, como também do registro de cada uma das regiões em suas relações com as outras” – D&G, Anti-Édipo, p. 57

Mas a síntese disjuntiva também pode ser apropriada pelo uso transcendente e fechar-se numa disjunção exclusiva. Algo do tipo se faz calor ou faz frio, então não pode fazer os dois! Que também funciona com a conjunção “ou”, mas que age excluindo os termos. “Afinal, você gosta de homens ou de mulheres?“, pergunta o pai ameaçadoramente, como se só houvesse uma resposta possível. A disjunção exclusiva opera fechando o corpo em uma identidade, restringindo o movimento.

Frantisek Kupka - two grays II
Frantisek Kupka – two grays II

Nietzsche antecipa muito bem esta ideia quando na Genealogia da Moral fala da chegada dos Bárbaros que dominam outros povos e impõem cortes e lugares. O Déspota realiza um corte e quadricula o espaço. “Se você é do nordeste, então fique por lá!“. “Imigrantes na Europa? Não!“. Você é da Nobreza, do Clero ou do Povo? Você é pai, mãe ou filho? O capitalismo não suporta a multiplicidade, ele só faz disjunções exclusivas.

Quando Édipo se insinua nas sínteses disjuntivas do registro desejante, impõe-lhes o ideal de um certo uso, limitativo ou exclusivo, que se confunde com a forma da triangulação — ser papai, mamãe ou filho. É o reino do Ou então na função diferenciadora da proibição do incesto: aí é mamãe que começa, aí é papai, e aí é você. Fique no seu lugar” – D&G, Anti-Édipo, p. 105

Cabe à esquizoanálise então desfazer os usos transcendentes das sínteses disjuntivas e  quebrar com o esgotamento ao qual o socius submete o corpo. A disjunção recobre as conexões e abre as máquinas para novas possibilidades, remexendo-as em cima do corpo sem órgãos. Tudo se torna concomitante, paralelo, parceiro. O registro determina onde e como cortar para produzir mais potência.

A disjunção é a o corpo liso e sem órgãos onde as máquinas desejantes podem se mover e rearranjar, afirmar sua renovação. Sendo inclusiva, ela não se fecha sobre seus termos, uma máquina oleosa que não enferruja. O uso imanente da máquina disjuntiva é um sobrevoo, um sem atritos (da mesma forma que um tambor que só vibra se estiver tensionado). Como uma disjunção pode ser inclusiva? Porque é inclassificável, você tenta colocá-la numa forma mas ela é isso, ou isso, ou isso, ou… ou… ou…

A esquizofrenia nos dá uma singular lição extraedipiana, e nos re­vela uma desconhecida força da síntese disjuntiva, um uso imanente que não seria mais exclusivo nem limitativo, mas plenamente afirmativo, ilimitativo, inclusivo. Uma disjunção que permanece disjuntiva, e que afirma, todavia, os termos disjuntos, que os afirma através de toda a sua distância, sem limitar um pelo outro nem excluir um do outro, talvez seja o maior paradoxo. ‘Ou… ou’ em vez de ‘ou então'” – D&G, Anti-Édipo, p. 105

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Frantisek Kupka, Organization of graphic motifs

> Este texto faz parte da série: Inconsciente Maquínico <

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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