Facilmente veremos em que se diferencia o homem que se conduz apenas pelo afeto, ou pela opinião, do homem que se conduz pela razão. Com efeito, o primeiro, queira ou não, faz coisas que ignora inteiramente, enquanto o segundo não obedece a ninguém mais que a si próprio e só faz aquelas coisas que sabe serem importantes na vida e que, por isso, deseja ao máximo. Chamo, pois, ao primeiro, servo, e ao segundo, homem livre. Gostaria de fazer ainda umas poucas observações sobre as inclinações e a maneira de viver desse último” – Espinosa, Ética IV, prop 66, esc

Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907) (detail)
Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907) (detail)

Espinosa buscava viver com virtude, virtus: força, potência. Para quem está chegando agora talvez seja difícil perceber, mas, segundo uma comprida cadeia de axiomas e definições, a virtude se funde à felicidade e à utilidade, ela torna-se o caminho e ao mesmo tempo o ponto de chegada para a vida livre (veja aqui). O sábio trilha caminhos que o tornam cada vez mais sábio, isso o alegra, pois o permite conhecer mais e mais da natureza das coisas e de si mesmo.

Não precisamos escolher entre a virtude e a beatitude, as duas são faces da mesma moeda, este é o tesouro do sábio: um saber que não é abstrato nem especulativo, mas sim uma sabedoria prática (como tão bem disse Deleuze), ou seja, uma sabedoria que se distribui, se espalha, a muitos beneficia e por muitos pode ser desfrutada. Desde o operário da fábrica até o acadêmico na sala de universidade, pelo homem e pela mulher, pelo novo e pelo velho, e assim por diante.

Ninguém pode desejar ser feliz, agir e viver bem sem, ao mesmo tempo, desejar ser, agir e viver, isto é, existir em ato” – Espinosa, Ética IV, prop 21

Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907) (detail)
Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907) (detail)

O conatus, primeiro e único fundamento, é a potência do ser para preservar-se; mas ele é mais, porque é um esforço por realizar bons encontros, é um esforço de agir e de pensar, não é inércia, é aceleração, este esforço tende a ultrapassar a si mesmo. Vemos isso claramente na Ética, como a velocidade aumenta. O homem não é passivo, ele é um ser que age e que busca existir em ato, muito mais que apenas viver, ele quer viver bem, mais que existir, ele quer ser feliz. Isso é a virtude, o que excede, procura e garante o crescimento. O conhecimento é um aliado útil nesta empreitada, ele é o mais potente dos afetos.

Espinosa, na quarta parte da ética (veja aqui), nos traz aquilo que a razão nos mostra ser útil para viver bem, aquilo que o pensamento racional concluiu ser o caminho correto para os afetos. Há uma reconciliação entre mente e corpo, razão e emoção passam a ser entendidos como uma única voz da Substância que se diz de várias maneiras. A liberdade é uma conquista, uma luta contra a fortuna, as paixões e os maus encontros. Não é fácil ser livre, mas é possível, Espinosa já nos mostrou os caminhos (veja aqui), agora nos mostra seus frutos:

  • Morte

Não há nada em que o homem livre pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida” – Espinosa, Ética IV, prop 67

Epicuro ensina a não temer a morte porque quando ela está lá, nós não estamos (veja aqui). É aí que encontra-se o sábio, ele se preenche tanto da vida, ele está tão tomado pela sua potência de existir que simplesmente não há medo da morte. Sábio é aquele que realiza bons encontros, livre é aquele que age, deseja aquilo que é bom, aquilo que lhe faz bem. Se estes pensamentos ocupam a mente, não há como ser diferente, o homem fica tomado pelo prazer que é viver. Integra-se à natureza de tal forma que, quando morre, é quase como se nada tivesse acontecido, porque na virtude e na beatitude já estamos preenchidos pela eternidade.

  • Coragem

A virtude com a qual o homem livre evita os perigos revela-se tão grande quanto a virtude com a qual ele os enfrenta” – Espinosa, Ética IV, prop 69

O homem livre não busca a admiração alheia, sua coragem não é para os outros, é uma virtude que é útil para si. O homem livre não é soberbo e não se arrisca desnecessariamente. Prudência e coragem andam juntas. Sendo assim, em sua virtude, o homem livre buscará o bem e evitará o mal, e evitará um bem no presente que lhe cause um mal maior no futuro. Ele sabe que não tem poder absoluto sobre as causas exteriores, por isso suporta com equanimidade os acontecimentos sobre os quais nada pode fazer. Sendo assim, o sábio foge com a mesma certeza de que está fazendo a coisa correta do que se ficasse caso fosse possível. Ele é firme em sua decisão, porque conhece as causas e os efeitos através do conhecimento racional.

  • Gratidão

Só os homens livres são muito gratos uns para com os outros” – Espinosa, Ética IV, prop 71

Os ignorantes vivem ao sabor das paixões que os levam à discórdia, o sábio evita cair nestas situações. Inveja, ciúmes, raiva, tristeza, ressentimento são paixões tristes que impedem a gratidão. O sábio se une pelos laços de amizade, não pela retribuição de favores. O homem livre sabe conduzir e moderar seus afetos, ele entende da arte dos encontros, por isso não precisa ficar de negócios mesquinhos e oportunismo. Vive em gratidão porque entende que a cadeia de causas e efeitos, Deus, é o necessário, de modo que não poderia ser diferente. Não há porque deixar-se consumir pelo ódio, ele é um afeto triste. Somente o sábio pode retribuir com amor e generosidade àqueles que vivem no ódio, ira e desprezo. Nada nele é excessivo.

  • Boa-fé

O homem livre jamais age com dolo, mas sempre de boa fé” – Espinosa, Ética IV, prop 72

Ser virtuoso não é ser impassível, nem indiferente. O sábio busca agir para ajudar aqueles que estão ao seu redor. Ora, por que? Porque, como disse Nietzsche, a virtude é dadivosa. Nada é mais útil ao homem que desejar aos outros homens um bem que pode ser desfrutado por todos. Sua liberdade é que o faz combater o ódio com o amor, a razão assim o instruiu, ele vê que os bons encontros são mais produtivos que os maus encontros. A potência lhe aconselha que não há nada melhor que conduzir-se pela razão. Ele não pega em armas para resolver seus problemas, não precisa, Ele não é desdenhoso nem arrogante com ninguém. Virtude é força, potência, razão, coerência consigo mesmo, para encontrar caminhos que aumentem a potência de todos, não apenas de si.

  • Sociedade

O homem que se conduz pela razão é mais livre na sociedade civil, onde vive de acordo com as leis comuns, do que na solidão, onde obedece apenas a si mesmo” – Espinosa, Ética IV, prop 73

Espinosa nos fala mais de uma vez sobre Ajuda Mútua, por meio dela os homens conseguem mais facilmente satisfazer suas necessidades. Unindo-se tornam-se mais poderosos e evitam os perigos que os ameaçam. Há algo de comum em todos que os fazem querer viver em grupo, somos seres sociais, e isso é bom e nos beneficia. Costuma-se dizer que juntos somos menos livres e temos mais limitações, mas isso é mentira. A razão demonstra, separados somos menos potentes e mais expostos ao mal que pode nos acontecer. Por isso é bom para o sábio viver em sociedade, ele não quer isolar-se, ele quer viver em concórdia e encontrar possibilidades de articulação em seu meio. A nossa liberdade aumenta conforme a liberdade dos outros ao nosso redor também aumentar.

É próprio do homem sábio recompor-se e reanimar-se moderadamente com bebidas e refeições agradáveis, assim como todos podem se servir, sem nenhum prejuízo alheio, dos perfumes, do atrativo das plantas verdejantes, das roupas, da música, dos jogos esportivos, do teatro, e coisas do gênero.[…] Esta norma de vida está, assim, perfeitamente de acordo tanto com nossos princípios, quanto com a prática comum. Por isso, este modo de vida, se é que existem outros, é o melhor e deve ser recomendado por todos os meios, não havendo necessidade de tratar disso mais clara e detalhadamente” – Espinosa, Ética IV, prop 45, esc 2

Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907)
Samuel Hirszenberg, Spinoza (1907)

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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