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Ninguém pode desejar ser feliz, agir e viver bem sem, ao mesmo tempo, desejar ser, agir e viver, isto é, existir em ato” – Espinosa, Ética IV, prop 21 

Qual é a grande questão para Espinosa? Bom, nascemos na ignorância e impotência, somos arrastados pelas paixões, vivemos na servidão. Ou seja, nascemos em uma condição precária, mas que pode se desenvolver para muito além dela.

Espinosa abomina a vida pequena, supersticiosa, repleta de paixões tristes: medo, dor, ódio, decepção, melancolia. Seu esforço, então, só poderia ser para libertar o ser humano destas condições.

Esforçamo-nos, nesta vida, sobretudo, para que o corpo de nossa infância se transforme, tanto quanto o permite a sua natureza e tanto quanto lhe seja conveniente, em um outro corpo, que seja capaz de muitas coisas e que esteja referido a uma mente que tenha extrema consciência de si mesma, de Deus e das coisas” – Espinosa, Ética V, prop 39, esc

Aliás, isso não seria possível se não estivesse em nossa própria essência este esforço, esta inclinação para ter uma vida mais potente, mais capaz, mais alegre e mais capaz de afetar e ser afetado pelo mundo.

Mas, como diz a citação precedente, não podemos desejar isso sem fazer isso em ato. O Conatus não é apenas uma teoria, ele é uma força se expressando em ações! Ninguém pode desejar sem agir. Afinal, o corpo se inclina, ele procura por isso, ele se abre para o mundo, se move nas direções que lhe parecem mais interessantes.

E vimos como a mente é uma das principais responsáveis por isso acontecer, ela traça as melhores relações e caminhos, ela procura compreender como isso pode acontecer da melhor maneira possível, ela oferece novos afetos.

A mente esforça-se, tanto quanto pode, por imaginar aquelas coisas que aumentam ou estimulam a potência de agir do corpo” – Espinosa, Ética III, prop. 12

Nós falamos muito da capacidade de afetar e ser afetado do corpo. Isso não é da boca para fora. Plura Simul, aptidão para a pluralidade simultânea, é ser capaz de compreender melhor o mundo, ser afetado por ele de mais maneiras, e ser mais capaz de agir sobre o mundo de mais maneiras. A Razão busca ações possíveis que gerem alegria, ações que possibilitem o mundo ser um lugar melhor, mais agradável, mais cheio de alegria e bons encontros.

Sempre como modos se esforçando, mente e corpo, os dois juntos buscando mais potência, procurando expressar a potência já adquirida. Nosso Desejo é a tentativa simultânea do corpo e da mente de efetuar bons encontros, e estes encontros se tornam mais prováveis a partir do momento em que a gente sai da passividade e começa a agir.

Estamos o tempo todo realizando este esforço, o melhor que podemos, com aquilo que temos no momento, mas é um trabalho ininterrupto. A intenção é uma só: sair das paixões e ser capaz de agir mais. Por quê? Porque na passividade das paixões nós estamos à mercê dos encontros. E não é uma boa ideia receber sem critérios aquilo que o destino nos reserva.

A Paixão é uma forma impotente de nos relacionarmos com o mundo, ela fala muito mais da nossa potência de ser afetado do que da nossa capacidade de agir. A capacidade de ser afetado é incrível, mas pode nos jogar tanto para a alegria quanto para a tristeza. Esta Passividade é muito perigosa para Espinosa, pois as mudanças se operam mais por forças externas.

Ou seja, nas paixões nós somos a Causa Inadequada dos encontros que se operam em nós, em outras palavras, o efeito foi muito pouco realizado por nós. Já na ação (que também se faz com encontros), o que fala mais alto é a nossa potência, nosso esforço, de afetar e ser afetado necessariamente visando à alegria. Eis a grande diferença: na atividade, o conatus age em causa própria, gerando o efeito.

Conclusão: Nosso desejo é a capacidade de afetar e ser afetado. Na paixão, somos afetados, mas pode ser bom ou ruim, depende da sorte. Já na ação, somos capazes de afetar, visando à alegria. Este agir inclinados para a potência é algo que muito agradará filósofos como Nietzsche, por exemplo.

Por isso podemos dizer que a ética nos propõe uma reflexão sobre a nossa essência, uma ampliação de nossa potência, uma apropriação do nosso desejo. Para Espinosa, é uma mudança qualitativa que nós buscamos: deixar a paixão e entrar na ação, eis o nosso desafio! 

O caminho para a salvação em Espinosa é um e apenas um: tornar-se ativo na produção de afetos! Apenas assim podemos pensar e agir melhor. E assim estamos mais próximos de Deus (em comunhão). Ou seja, podemos deixar de rezar e começar a conquistar com nossas próprias mãos. Se antes queríamos agir, agora podemos fazê-lo efetivamente!

Por isso o percurso ético é tão árduo. Apenas depois de passar pelas noções comuns é que temos a capacidade de produzir nós mesmos os afetos. 

Agora temos a potência ativa de afetar:

  • Temos a capacidade de ser a causa adequada do afeto
    • “Eu sou a causa desta alegria, eu sei como produzi-la”
    • “Eu sei o que é melhor pra mim, sei o caminho”
  • Agora sabemos o que pode o corpo
    • Para (se) afastar (d)o que nos prejudica 
    • E se (re)aproximar do que nos alegra
  • Ao nos tornarmos ativos no mundo
    • Temos mais alegrias em quantidade, porque podemos produzi-las por nós mesmos e sustentá-las para fazê-las durar mais do que o destino nos proveria;
    • E em qualidade também, porque elas são mais qualificadas, mais profundas e mais puras, gerando menos tristezas

O objetivo aqui é um só, diz Espinosa, “Fazer com que as paixões ocupem a menor parte de nós”. Esta é a verdadeira e única capacidade que nós temos sobre este mundo! Ter parte, ao invés de meramente ser parte. Nos tornarmos uma parte ativa dele, ao invés de meros espectadores. 

Haveria satisfação maior? Talvez seja isso que podemos chamar de Entusiasmo! Afinal, En-theos, do latim, significa estarmos preenchidos, movidos por Deus. Ou seja, é a ação de Deus em nós! É um deus que fala em nós!

O percurso não podia ser curto, porque é um esforço, uma busca por fazer-se, construir-se. Isso não se faz sem alegrias, tristezas e pensamento, e não se faz sem a constância de uma natureza e a potência da Razão. 

Chegar neste lugar é o que Espinosa chamaria de sabedoria, é o resultado da filosofia levada a sério. Isto é, para o filósofo holandês, o mais próximo de uma salvação imanente. Uma purificação dos afetos para alcançar a mais profunda e perfeita alegria de viver em ato.

Quanto mais uma coisa tem perfeição, tanto mais age e tanto menos padece e, inversamente, quanto mais age, tanto mais ela é perfeita.” – Espinosa, Ética V, prop 40

Texto da Série:

 

Ética

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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