Não existe, na natureza das coisas, nenhuma coisa singular relativamente à qual não exista outra mais potente e mais forte. Dada uma coisa qualquer, existe uma outra, mais potente, pela qual a primeira pode ser destruída” – Espinosa, Ética IV, axioma

Em sua busca para entender como o ser humano poderia viver de maneira mais virtuosa, Espinosa procura compreender os afetos. Parte da ideia de que muitas vezes somos levados como folhas ao vento por causas exteriores, das quais não temos controle. As paixões podem nos mover para vários lados, nos tornar alegres ou tristes, mas, quando não temos controle sobre as contingências, acaba que, no fim das contas, elas nos causam infortúnio, tristeza. Por isso nos perguntamos: o que gera um mau encontro? E quais seus resultados?

Skinner e Espinosa estarão de acordo ao dizer que não existe o mau em si, apenas o mau jeito, o mau encontro. Trata-se de uma fatalidade, algo sobre o qual não temos controle, que simplesmente nos escapa. O que alguns chamam de fortuna, outros de sorte, é na verdade apenas o mundo, que resolve de uma hora para a outra nos ultrapassar, nos contrariar, fazendo de nós o que bem entende. Sentimos o desamparo ao constatar o descontrole das contingências, várias “patologias” são um descontrole de como o mundo nos afeta. A solução de Espinosa? O conhecimento, razão e alegria. A de Skinner? Autoconhecimento e autocontrole. Chegaremos lá, antes, os maus encontros.

O que é o mau? É não conseguir tornar-se parte ativa do sistema de relações que nos rodeiam, é ser sempre objeto passivo, levado de um lado para o outro, arrastado como um objeto, sem capacidade de agir. Mau é ver-se nessa situação e precisar fugir, esquivar-se sem, ao mesmo tempo, encontrar os meio de luta, de ação. O mais triste é que embora tenhamos vários outros meios de nos relacionarmos uns com os outros, na maioria do tempo, quando não somos dominados por situações de coerção, nós que nos tornamos dominadores e coercitivos.

A coerção é usada para fazer com que uma pessoa aja como gostaríamos, através de punição ou ameaças de punição nós temos, sabemos bem, mais controle sobre o mundo. Ela é largamente utilizada, quase sempre nossa primeira opção e onde nos tornamos, infelizmente, sadicamente criativos. Coerção, como dirá Skinner, gera coerção. Estes maus encontros envenenam nossas relações!

Por mal compreenderei, por sua vez, aquilo que sabemos, com certeza, nos impedir que desfrutemos de algum bem” – Espinosa, Ética IV, def 2

Coagimos porque queremos controlar o comportamento de outra pessoa, e parece ser mais rápido e fácil fazer isso ameaçando e efetivamente punindo. Mas, para nossa surpresa, diz a análise do comportamento: a punição não é o oposto do reforçamento. Isso, em um primeiro momento, pode parecer estranho, mas o motivo para tal afirmação é porque a punição não necessariamente diminui a frequência de um comportamento, se não forem dadas outras possibilidades. Aprendemos eventualmente a fugir ou, melhor, esquivar da punição, por isso vivemos em constante estado de alerta, preocupados, esperando o próximo golpe. Mas se as contingências não forem mudadas, e a fuga ou a esquiva não cumprirem mais a função de evitar ou adiar o aversivo, a punição simplesmente passará a fazer parte da existência daquele organismo. Conhecemos pessoas afundadas neste modo de vida, com o conatus reduzido ao mínimo.

Reforçamento negativo, então, particularmente se intenso e contínuo, pode restringir estreitamente nossos interesses, até mes­mo causando uma espécie de “visão de túnel” que nos impede de atentar para qualquer coisa, exceto o estresse a que estamos, no momento, sendo submetidos. Nós podemos dar conta muito bem de rotinas estabelecidas, embora talvez de uma maneira estereotipada, mecânica ou compulsiva” – Sidman, Coerção e suas Implicações, p. 109

A servidão humana de que fala Espinosa, pode ser descrita como este estado. Ao tirano, deve-se obedecer a lei ou sofrer suas consequências, “Brasil, ame-o ou deixe-o“, “Não poupar a vara“, as punições são as mais variadas, desde o linchamento por justiceiros, tortura na mão de policiais, ou as péssimas condições da prisão. O padre diz: “quem não ama a deus, deve temê-lo”, e fala dos terrores que nos esperam no inferno, da fúria divina, que não é apenas amor, mas justiça, e justifica dizendo que Jesus trouxe também a espada. Ao escravo, resta o medo, a raiva, ele aprende com seus opressores a também se comportar da mesma maneira, resultado: desengajamento social, isolamento da sociedade, neurose, rigidez intelectual, hostilidade, apatia, depressão.

Nosso comportamento não acontece isolado do todo, ou seja, ele sofre as consequências do ambiente em que está inserido. O ambiente seleciona o comportamento de acordo com as consequências. Dependendo destas consequências, meu corpo se modifica de tal maneira que pode aumentar a probabilidade de comportamentos parecidos ocorrerem novamente ou diminuir a probabilidade destes comportamentos ocorrerem novamente. No comportamento operante, as consequências controlam o comportamento.

Por esta razão, e isto é uma constatação muito importante para os dois autores, qualquer isolamento é uma condenação à fraqueza, pois temos menos conexões e menos possibilidades de agir. O indivíduo passivo sente que vive como parte isolada dos outros corpos. Ele se fecha, se esquiva, emite constantemente comportamentos de fuga. Se a punição não puder ser enfrentada de nenhuma outra maneira, ela gera desistência.

Vemos então como o mau é simplesmente o mau encontro. Mesmo na maldade buscamos o que pode nos ser bom, apenas fazemos isso de maneira confusa. O sábio, o homem livre, procura estabelecer relações de ajuda mútua. Com o esforço da razão ele encontra alternativas onde todos cresçam conjuntamente, tornando-se ele próprio um reforçador.

Não é de nossa essência sermos agressivos e maus, ou melhor, faz parte de nossa natureza podermos agir assim, mas apenas quando as forças exteriores nos dominam e vencem. Seguindo Skinner e Espinosa, poderíamos dizer que faz parte de nossa essência a possibilidade de sermos agressivos e maus, mas diriam eles logo em seguida, que é pouco provável que estas sejam as melhores opções de vida. Uma ciência dos afetos não vai negar as possibilidades do homem, mas certamente procurará as melhores condições de vida possíveis, e agimos com agressividade e coerção porque não nos são dadas outras opções. Sendo assim, o poderoso é impotente, o mau é impotente; o tirano, o padre e o escravo são tristes. Toda potência é alegre e não tem nada em comum com a coerção e os maus encontros.

Da mesma maneira, podemos dizer que o bem não existe por si só, ele é chamado de bem porque é útil, porque aumenta nossa potência. A mesma coisa com o mal, ele é assim chamado porque nos afasta do que é útil (não indica os caminhos, não nos ensina como encontrar o que é útil).

Este é um ponto importantíssimo onde Espinosa e Skinner se cruzam em sua busca pela felicidade: a constatação de que o conhecimento não vem da dor, em outras palavras, o mal nada ensina, ele não é nada. Os bons encontros são capazes de produzir um conhecimento novo e adequado do mundo, daquilo que convém entre as partes do nosso corpo e o todo. Já a punição não gera conhecimento porque ensina simplesmente o que não fazer. A punição não tem nada de produtivo, não gera nada, ela não produz, não é criativa. Pelo contrário, a punição é um fechamento, um traço que corta, uma barreira que se ergue. Diferente do reforço positivo (até mesmo, em menor grau, o negativo) que abre novas possibilidades de existência.

Ele permanece relaxado o suficiente para explorar seu ambiente de tempos em tempos, para descobrir se algo novo está acon­tecendo, para fazer outras coisas que podem te sido reforçadas no passado, ou simplesmente para descansar” – Sidman, Coerção e suas implicações, p. 109

Talvez por isso sejamos tão limitados hoje, não sabemos do que nosso corpo é capaz! Simplesmente não temos acesso a reforçadores positivos! Viver de reforço negativo é dar pouco para uma existência tão cheia de possibilidades! Espinosa dirá a mesmíssima coisa, é absurdo viver de alegrias tristes, é absurdo vivermos de alegrias que dependem de tristezas. É horrível vivermos de migalhas de alegrias. Nosso maior exemplo de nossa miséria afetiva é que a própria coerção se tornou reforçadora para nós!

A marca do behaviorismo é, ao contrário do que dizem seus detratores, o reforço positivo, os bons encontros, aquilo que amplia nossa perfeição. Quanto mais compreendemos sobre o controle coercitivo, mais vemos sua ineficácia à longo prazo, por isso a análise do comportamento já mostrou diversas alternativas à punição. A própria alternativa à coerção não é tornar-se coercitivo. Não queremos tomar o poder e oprimir os antigos opressores! Saídas criativas são necessárias, novos fluxos afetivos, novos comportamentos. Podemos pensar talvez em uma resistência ativa (“Eu fujo, mas levo uma arma comigo”) ou um comportamento de contracontrole (meio de controlar o próprio controlador).

Ao compreendermos melhor o pensamento de Espinosa e Skinner, podemos fazer com que a tristeza ocupe a menor parte de nós mesmos. Diminuir ao máximo os comportamentos de punição, ser capaz de organizar nossa relação com o mundo de modo a gerar o maior número possíveis de bons encontros! Precisamos destes dois grandes pensadores para alcançar este objetivo que no fundo é de uma simplicidade enorme: é melhor ser alegre que ser triste.

  • Revisão: Johny Brito (johny.brito@gmail.com)

> Texto da série: Contra-história da Psicologia <

Espinosa Skinner

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

5 comentários

  1. Excelente pensamento. Ler ou ouvir sobre Spinoza é um afeto real. O texto tem tudo a ver com o cérebro reptiliano. Parabéns Rafael.

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  2. A cada texto que leio nesse site eu me surpreendo e me assusto ainda mais.

    Bem irônico, mas vou utilizar uma frase bíblica:
    “O meu povo perece por falta de conhecimento”.

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