Nietzsche coloca as cartas na mesa: nossa sociedade está afundada no niilismo! A inversão dos valores é clara, o ressentimento está entranhado em nossas relações cotidianas, em nossos pensamentos, em nossa vida. Isso seria pouco, até mesmo tolerável se a própria inversão de valores não se colocasse como verdade única. O intolerável para Nietzsche não é a fraqueza, mas a fraqueza que se impõe como saúde e contamina os fortes.

Perscrutemos a alma destas pobres ovelhas. Em seu cercado, vivendo sua vida pacata, inocentemente. O pastor está a olhá-las e vela por sua segurança. Para a ovelhas, bom é o inofensivo, aquele que se sacrifica, aquele que anda em bando, conduzido pelo pastor. Poderíamos dizer até que os valores de ovelha nascem de suas vidas pacíficas, mas nos enganaríamos. As ovelhas têm ouvidos e olhos atentos, seu grande medo está sempre à espreita: da floresta vem sorrateiramente o lobo, dos ares chega inesperadamente a águia.

Os predadores são maus!“, dizem as ovelhas, “eles intimidam, aterrorizam, ameaçam“. A violência da águia é sempre um prejuízo para as elas. Pobres ruminantes, só querem paz, viver suas vidinhas, elas são gente de bem, não merecem ser incomodadas.

Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: ‘essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim o seu oposto, ovelha — este não deveria ser bom?’, não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com ar zombeteiro, e dirão para si mesmas: ‘nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha'”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, 1a. parte, §XIII

Nietzsche vai direto ao cerne do problema: não é uma questão de verdade, trata-se de uma valoração. Há de se perguntar: quem valora? Quem dá valor? Para as ovelhas, dentro de suas possibilidades fisiológicas, resta apenas reagir aos ataques externos. Seus valores nascem da oposição ao mundo que a ameaça: “As aves de rapina são más! Quem for o oposto da ave de rapina é bom; nós, ovelhas, somos boas“. Já as predadoras, mergulhando impiedosamente dos céus, pensam, “que belo dia para sentir o delicioso sabor de uma carne macia de ovelha“. Em sua inocência, a ave nem mesmo se coloca em diálogo com as ovelhas.

“Homem com culpa, sem sentido”

Já analisamos como nasce o ressentimento e como ele inverte valores. A questão agora é entender como os valores dos ressentidos ameaçam a saúde dos fortes. Precisamos ouvir mais uma vez o que pensam as ovelhas, há nelas uma incapacidade de admirar os valores nobres, tudo fere, tudo incomoda, tudo é visto como uma ofensa pessoal. Elas vivem em acusação perpétua: você é mau! O orgulho do aristocrata é um ultraje e implica em uma transgressão de seus direitos.

Onde estão os fatos? Ora, é só olhar através da perspectiva dos menos afortunados: o forte não maltrata o fraco, não lhe causa mal? O erro então só pode estar em o forte não conter seus impulsos, não ser pacato e inofensivo, tais como aqueles que herdarão o reino dos céus! Para o tipo escravo, o tipo aristocrático é uma afronta, “é errado ser forte“, pensa a ovelha nadando em ressentimento, “por que eles não se ajustam e se comportam como nós?“. O ódio a tudo que é forte, venturoso, ousado, leva o escravo montar um tribunal cujo único fim é acusar a força de ser forte e fabular uma vingança futura:

Bem aventurados os pobres de espírito, amaldiçoados sejam o ricos em saúde e intrepidez. Bem aventurados todos aqueles que choram e vivem na tristeza, diferente daqueles que sorriem e são felizes. Bem aventurados os mansos; maldito seja o que age, conquista e luta. Bem aventurados os perseguidos, porque Deus, haverá de julgar aqueles que os perseguem.

Estes são todos homens do ressentimento, estes fisiologicamente desgraçados e carcomidos, todo um mundo fremente de subterrânea vingança, inesgotável, insaciável em irrupções contra os felizes, e também em mascaramentos de vingança, em pretextos para vingança: quando alcançariam, realmente o seu último, mais sutil, mais sublime triunfo da vingança? Indubitavelmente, quando lograssem introduzir na consciência dos felizes sua própria miséria, toda a miséria, de modo que estes um dia começassem a se envergonhar da sua felicidade, e dissessem talvez uns aos outros: ‘é uma vergonha ser feliz! existe muita miséria!’… “

– Nietzsche, Genealogia da Moral, 3a parte, §XIV


Retaliação postergada, ódio contido. À dor é dado um sentido: a vingança oferece ao espírito um meio. A vontade mesma está a salvo! Claro que neste processo o ressentido se torna mais doente, mas também muito mais interessante, não podemos negar! Incapaz de admirar o forte, a fraqueza exige que todos também sejam fracos, iguais, medíocres. Que estranho jeito de criar valores, não pela ação, mas pelo impedimento dela! O niilismo do escravo conduz as forças negativas ao triunfo, seu ponto de parada é a passividade pura.

Para tal absurdo encontramos duas saídas plausíveis. Se exigir que o forte se comporte como fraco é absurdo do ponto de vista fisiológico, também se torna absurdo exigir da doença que se expresse como saúde. Por isso o conselho de Nietzsche para os saudáveis manterem distância dos ressentidos:

Não poderia haver erro maior e mais fatal do que os felizes, os bem logrados, os poderosos de corpo e alma começarem a duvidar assim do seu direito à felicidade. Fora com esse ‘mundo ao avesso’! Fora com esse debilitamento do sentimento! Que os doentes não tornem os sadios doentes”

– Nietzsche, Genealogia da Moral, 3a parte, §XIV

Apenas um homem livre do ressentimento, que purgou de si todas as suas impurezas, é alguém capaz de inspirar no outro a saúde. Encontrar o niilismo em nós, e secar a fonte. Transvalorar Valores é transvalorar relações, é cuidado de si, é árvore que só dá frutos se afundar suas raízes nas profundezas da terra e ao mesmo tempo buscar o sol, é Virtude Dadivosa. O niilismo pode atravessar todo seu percurso e purificar a fonte da vida onde a produção de valores acontece.  “O ressentimento do homem nobre, quando nele aparece, se consome e se exaure numa reação imediata, por isso não envenena” (GM, 1a, §X). Onde se encontra uma natureza rica, um para além do homem, o ressentimento torna-se um sentimento supérfluo, e dominá-lo não passa de mais uma prova de sua riqueza fisiológica.

Por isso a relevância atual do assunto, onde encontramos o veneno do ressentimento? Atualmente podemos dizer que ele está por toda parte, dentro também e cada um de nós. Precisamos olhar cuidadosamente a nossa volta e não nos deixar enganar. “Aqueles já de início desgraçados, vencidos, destroçados – são eles, são os mais fracos, os que mais corroem a vida entre os homens, os que mais perigosamente envenenam e questionam nossa confiança na vida, no homem, em nós” (GM, 3a, §XIII).

Analisar o ressentimento, esta planta venenosa que cresce em nosso tempo, entendê-la a fundo para não se deixar contaminar, e mais, limpar as chagas em nós mesmos e prevenir que apodreçam. Ninguém fez isso melhor que Nietzsche, não há melhor companhia que o filósofo do amor fati nesta empreitada.

Texto da Série:

Ressentimento

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Filósofo, Psicólogo Clínico e Supervisor

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