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Mesmo o mais corajoso de nós raras vezes tem a coragem para o que realmente sabe…” – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos, Máximas e Flechas §2

Falamos em um primeiro momento de um Eterno Retorno Cosmológico, inspirado pela física; logo em seguida, de um Eterno Retorno Ético, como possibilidade de Valoração de nossas ações; vimos com Zaratustra as dificuldades deste conceito tão poderoso. E agora podemos trabalhar finalmente a real possibilidade de incorporação do mais pesado dos pesos.

O pensamento do Eterno Retorno pode nos esmagar, pode nos quebrar, e é claro que foi assim também com o filósofo alemão. Ao longo dos anos, Nietzsche se debateu com seu pensamento… e não sucumbiu a ele apenas porque mentiu para si mesmo. Para se preservar, inventou subterfúgios. Zaratustra, em 1883, foi apenas o primeiro: “O sem deus”, “o  porta voz da vida, do sofrimento, do círculo? Sim, “o mestre do eterno retorno”, o anunciador do “além do homem”! Mas por quê? Simples, porque apenas o super homem é capaz de afirmar o eterno retorno em sua completude. Em suma, Zaratustra ainda espera. 

Em 1886, Nietzsche continua filosofando no porvir, em “Além do Bem e do Mal” ele invoca os “Filósofos do futuro”. Os filósofos do futuro estão surgindo… diz o filósofo alemão, apenas eles podem mudar a situação atual. Para onde temos nós de apontar nossas esperanças? – Para novos filósofos, não resta escolha” (ABM §203). Sim, seremos capazes de incorporar o eterno retorno, mas amanhã, ou melhor, depois de amanhã. Cabe a nós agora apenas preparar o terreno. 

E como nos preparar para o depois de amanhã? Ora, fazendo uma genealogia da moral! Como foi que a moral em que acreditamos veio a ser do jeito que é? Ela é fruto de nossa saúde ou foi a doença que prevaleceu aqui? Nietzsche faz uma genealogia do Bem e do Mal, para encontrar a causa da doença, da fraqueza. Mas o resultado é sempre o mesmo: o que fazer? Transvalorar Valores. Como? Já sabemos: Eterno Retorno. Quem fará isso? O homem do futuro nos redimirá! Sim, o porvir… Nietzsche sempre com a faca e o queijo na mão… mas adiando…

Ele sabe que pensou algo profundamente transformador (transvalorador, diria ele), mas seu corpo ainda não está preparado. Ou seja, ele consegue pensar, mas não consegue viver. Seu intelecto está pronto, mas seu corpo ainda não! E é apenas fisiologicamente que uma filosofia pode ser vivida verdadeiramente! Eis aí a grande questão deste conceito! Queremos incorporar o eterno retorno! Sim, claro, mas como? Ora, é toda uma vida que precisa se voltar para este processo de incorporação! E para que a incorporação deste pensamento seja possível precisamos de um novo conceito: Vontade de Potência. Ela é condição de Incorporação!

A Vida é uma Vontade feita de Potência de dominação, de apropriação, de incorporação. Àqueles que se ofendem com estas palavras, podemos simplesmente dizer: a vida é Vontade de lidar propriamente com a realidade, manejar efetivamente a existência, administrá-la no seu máximo de capacidade. Não é chegar ao cume e dominar os outros (apenas o escravo pensa assim)! É incorporar, ser capaz de dançar com, de deixar passar propriamente as forças que habitam o mundo e nosso corpo! Um surfista não se apropria da onda, aprende a usar suas forças! Um escalador nunca se apropriará da montanha! Um músico não se apropria da música que toca, ela flui através dele e de seu instrumento!

A Vontade de Potência é um tomar, incorporar, ou um separar-se, deixar passar, olhar em outra direção. Ou seja, não é apenas um “agora eu entendi” filosófico, é um processo vital… é um “agora eu posso viver isso”. E este processo aparentemente tão simples exige toda uma reorganização das forças! Para viver, para criar, para aumentar sua presença. Manter e ampliar seu domínio sobre a vida! O peso não é meramente intelectual! É um peso de halterofilista o que precisamos levantar. Como? Com tempo, com prática, treinando, nos tornando mais fortes!

Quando pensou o Eterno Retorno, Nietzsche ainda não podia afirmá-lo, não estava preparado para isso, porque ainda não havia aprendido a lidar com as forças que o habitavam e o rodeavam. Por isso, seus escritos sobre o amor-fati ainda aparecem no futuro.

Quero cada vez mais aprender a ver como belo aquilo que é necessário nas coisas: – assim me tornarei um daqueles que fazem belas as coisas. Amor fati [amor ao destino]: seja este, doravante, o meu amor! Não quero fazer guerra ao que é feio. Não quero acusar, não quero nem mesmo acusar os acusadores. Que a minha única negação seja desviar o olhar! E, tudo somado e em suma: quero ser, algum dia, apenas alguém que diz Sim!” – Nietzsche, Gaia Ciência, §276.

Esta é a dureza da filosofia nietzschiana, não é simplesmente pensar as coisas, é aprender a incorporá-las. Como? Na vida. E o Eterno Retorno exige o amor fati, que é a capacidade de “aprender a ver como belo o necessário nas coisas”. Mas em 1882 o filósofo alemão ainda não consegue fazer isso. Ele demora anos digerindo seus próprios pensamentos. Ou melhor, ele demora anos para ser capaz de incorporar, tornar vivo, seus próprios pensamentos. Por isso o título do aforismo anterior é “Para o Ano Novo”: são votos, desejos, promessas para o futuro. Está claro que esse momento ainda não chegou… 

Mas 15 de outubro de 1888, com 44 anos, no auge de sua vida, Nietzsche começa a escrever sua obra magna, depois de longos anos de preparação, a “Transvaloração de todos os valores”, ou a “Vontade de Potência”. Isso enquanto juntava os excessos em livros menores, como passatempo (!): O caso Wagner, Crepúsculo dos Ídolos, O Anticristo, Ecce Homo, Ditirambos de Dionísio. Qual a razão dessa empolgação? Ora, só pode ser uma coisa: ele aprendeu a afirmar a vida em sua plenitude, e isso possibilita a incorporação do mais pesado dos pesos!

Como podemos ver, a filosofia de Nietzsche é uma prática de dar corpo ao pensamento. Não há nada de erudição vazia aqui. Por isso esse processo não é fácil, é algo violento, penoso, trabalhoso. No entanto, a alegria que vem desse tipo de conhecimento é a mais autêntica possível: fazer vida e pensamento estarem no mesmo compasso É esse contentamento que vemos nesse últimos livros de Nietzsche. Não basta saber algo, é preciso muita coragem para viver essa sabedoria

Assim, chegamos ao Ecce Homo. E aqui sim, encontramos um Nietzsche que pode afirmar o Amor-Fati: somos efeito de causas infinitamente distantes e fora do nosso controle? Sim, estamos aqui, vivos, e não há outra opção que aprender a amar isso. Isso não significa uma resignação, nem um afastamento, muito pelo contrário, demanda a criação de uma forma de viver. Por mais difícil que seja, para Nietzsche, a nossa existência se resume em criar uma vida na qual queiramos e afirmemos tudo plenamente e para a qual queiramos retornar eternamente.

Então, nestas condições,  Nietzsche recoloca o conceito de amor-fati:

Minha fórmula para a grandeza no homem é amor fati: nada querer diferente, seja para trás, seja para a frente, seja em toda a eternidade. Não apenas suportar o necessário, menos ainda ocultá-lo — todo idealismo é mendacidade ante o necessário — mas amá-lo…” – Nietzsche, Ecce Homo, por que sou tão inteligente? §10

Nada querer diferente, eis o Eterno Retorno incorporado. Sim, tudo pode voltar, tudo pode retornar exatamente igual. Estar disposto a amar aquilo que é da maneira como é, eis as consequências da incorporação deste poderoso pensamento! Nietzsche condiciona a grandeza à capacidade de afirmação, a nobreza, a distinção, à capacidade plena de afirmação de um mundo como Vontade de Potência e nada além disso. Em suma, não basta que o Eterno Retorno seja apenas pensado e conceitualizado, é preciso que uma vida inteira seja capaz de afirmar a realidade e a si mesma como um todo para que possamos desejar o retorno de tudo. Nietzsche deixa de falar e passa a viver, mas não foi fácil, foi um longo processo com o qual o próprio filósofo alemão se debateu durante 6 anos até finalmente conseguir dizer:

A vida tornou-se-me leve, a mais leve, quando exigiu de mim o mais pesado” – Nietzsche, Ecce homo

Texto da Série:

Eterno Retorno

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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2 Comentários
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Ralph Poubel
Ralph Poubel
1 mês atrás

Rafael, estou apaixonado pela sua escrita. Chega a ser quase poética.

Natasha
Natasha
16 dias atrás

Que texto maravilhoso!