Arte da conduta do homem enquanto chefe de família” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 115

Foucault se pergunta sob que forma a conduta entre o homem e tudo que se relaciona à casa se constitui na sociedade grega antiga. Sim, isso envolve as mulheres como parte da dinâmica do Óikos (casa, propriedade doméstica). E não, os gregos não eram tão “democráticos” quanto pensávamos. Vamos refletir sobre o assunto.

O cuidado de si foi pensado, em um primeiro momento (em Alcibíades de Platão, por exemplo), como uma pedagogia, que torna o rapaz em um cidadão. O homem na sociedade grega estava voltado para a pólis, ele falava na ágora, ele decidia os rumos da cidade. O grego, como aquele capaz de governar a si mesmo, era também aquele que governava os outros. A mulher, por outro lado, estava restrita (ou deveríamos dizer encerrada?) à dinâmica do lar, com seus deveres e afazeres. Claro que as mulheres mereciam respeito, e não apenas por pertencerem a outro homem, mas por se fazerem prevalecer no lar. A mulher merecia o devido respeito, porque, diferente das concubinas e dos escravos, ela era a senhora do lar.

Foucault encontra no pensamento grego uma mulher que deveria submeter-se ao seu marido, e um homem deveria submeter-se a si mesmo. Por isso os gregos podiam falar de uma economia: a arte de gerir uma casa. Aqui precisamos tomar cuidado, esta descrição da maneira com a qual a sociedade grega se organizava deve nos trazer conceitos, não estruturas ou exemplos de como nos comportar.

Aos poucos, esta Ética centrada no homem e em seu papel predominante aos poucos vai mudando na passagem da sociedade grega para a helenística. O cuidado de si que antes era pensado como uma pedagogia para governar vai se tornando uma reflexão sobre um modo de viver. Como cuidar de si e erigir uma ética-estética? Sendo assim, o papel do vínculo conjugal se torna diferente ao longo do tempo. O pensamento começa a se debruçar mais sobre a relação a dois do que em uma forma de gestão. Começamos a falar agora de uma forma de vida comum, a reflexão e criação de uma ética de vida que será compartilhada. Mais como aliados do que como chefe e subordinado.

Esse estilo de existência se marca, antes de mais nada, por uma certa arte de estar junto” – Foucault, Cuidado de Si, p. 151

As relações de simetria aumentam. Ou seja, Foucault começa a descobrir no pensamento grego uma maneira de pensar que não é da autoridade na gestão da casa ou de um código definido de conduta, mas agora toda uma arte de viver juntos começa tomando forma. Trata-se de pensar como os cônjuges podem viver e desfrutar da vida a dois, e em sociedade, agora, e cada vez mais, em pé de igualdade.

Em suma, a arte de se conduzir no casamento se definiria menos por um técnica de governo e mais por uma estilística do vínculo individual” – Foucault, Cuidado de Si, p. 150

O que podemos tirar do conceito de “economia” trazido por Foucault pensada como uma arte de viver? Não podemos ficar reduzidos à dinâmica grega, que hoje nos parece um tanto quanto obtusa, absurda, mas certamente os gregos nos trazem uma reflexão importante quanto à dinâmica que se estabelece entre um polo ativo, que cria, que arrisca e que se abre, e outro polo passivo, de sustentação, suportivo.

O importante aqui é notar que não há um conjunto de leis e códigos morais a condicionar as condutas. Se descaracterizarmos estas funções de suas correspondências sexuais, podemos aprender muito com os gregos. São forças, o tempo todos forças em fluxo que entram em relação; forças ativas e reativas, forças que se superam, se somam, mas também que se diferenciam no processo e entram em conflito. Isso vale para qualquer sociedade, qualquer relação e qualquer dinâmica interna.

Ao trocarmos “homem” e “mulher”, reconhecidas funções sociais, por “forças ativas” e “reativas”, caminhamos para uma indiferenciação no campo do gênero, e entramos num campo muito mais dinâmico, rico e repleto de outras possibilidades. Trata-se, mais uma vez, da arte de governar a si mesmo para governar os outros. Ou talvez até de uma maneira um tanto mais sutil, conhecer a si mesmo, conhecer seus afetos, seu modo de vida, relacionar-se consigo mesmo, para poder conhecer e relacionar-se com os outros, criando novos afetos. Voltamos ao corpo como lugar privilegiado para esta arte.

O ‘teto’ determina uma região externa e uma região interna, uma das quais concerne ao homem e a outra constitui o lugar privilegiado da mulher; mas ele é também o lugar onde se junta, acumula e conserva o que foi adquirido; abrigar é prever pra distribuir no tempo, de acordo com os momentos oportunos” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 199

Quando Foucault escreve “teto”, nós podemos ler corpo, ou vida, com suas zonas de segurança e insegurança, pontos de apoio e pontos de vanguarda. Os gregos também falam de uma capacidade de afetar e ser afetado, cada força possui uma maneira distinta de ser, de se relacionar, de se posicionar no mundo. E a capacidade de diferenciação não está flutuando no mundo das ideias, ela é presente na terra, nas relações, por isso precisa de um agenciamento e uma capacidade de suportar as dores, agruras e dificuldades.

Cada um dos dois cônjuges tem uma natureza, uma forma de atividade, um lugar que se define em relação às necessidades do oikos” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 200

E mesmo em nossa própria vida estas forças agem em conjunto, ora uma mais atuante que a outra, para que o corpo se afirme no mundo de uma maneira potente e saudável. Os dois polos precisam um do outro para fortalecerem-se. Como poderíamos subir tão alto sem alicerces fixamente enterrados na terra? As forças ativas fazem parte de toda e qualquer relação e precisam ser pensadas com cuidado.

Esta dinâmica é colocada pelos gregos como uma lei da natureza, o homem deve sair e a mulher deve cuidar da casa. Mas, retomando nossa definição, podemos jogar por água abaixo estes “papeis sexuais” preservando o que foi dito sobre a dinâmica das forças. As forças reativas não devem tomar o lugar das forças ativas, em momento algum, nem o contrário. Nietzsche explica isso de maneira clara quando fala do triunfo dos escravos.

Esta reflexão, que deve ser feita tanto no homem quanto na mulher, trata de um domínio que devemos impor a nós mesmos, como um rio que ganha mais volume em uma represa e velocidade e fúria quando se transforma em uma corredeira. Os tempo todo as várias forças se cruzam para formar correntezas mais extensas ou pequenos córregos.

Frisamos mais uma vez, para não nos confundirem, não estamos falando de uma família tradicional, codificada e regulada externamente. Há uma reflexão, uma conduta ativa para saber o que é dominar-se e superar-se (chresis). Uma arte de comandar em si as forças ativas e reativas, aquilo que deve crescer e aquilo que deve sustentar o crescimento. E este pensamento será o mesmo para quando começarmos a nos relacionar com os outros.

Os gregos não queriam ser escravos dos prazeres, por isso esta luta constante (enkrateia) para encontrar uma dinâmica favorável. O pensamento antigo no traz um conceito: econômica, a arte de gerir um espaço onde forças ativas e reativas se cruzam e interpenetram. Esta indiferenciação na questão de gênero é o que permite uma verdadeira diferenciação no campo das forças pré-individuais. Esta casa não é mais o espaço de confinamento da mulher.

Estamos no campo das forças, o quanto prevalecem, se afirmam e se diferenciam no processo. Falamos de uma economia que se justifica pela correta distribuição das forças no espaço, de uma simetria que busca um equilíbrio territorial, proporções intensas, um espaço muito mais liso que estriado. Um equilíbrio interno, auto-imposto, que gera devir. Como correr sem este equilíbrio, como construir sem esta harmonia?

O vínculo conjugal serve para definir todo um modo de existência”  p. 161

Começamos a sair do campo de dominação da mulher pelo homem, mas ainda falamos de um campo onde algumas forças pré-individuais devem sobrepor-se a outras, de maneira a aumentar o campo da vida. Sempre de maneira que as relações gerem um aumento da potência, isso é, podemos dizer, uma econômica: o correto, refletido e disciplinado arranjo de si para poder relacionar-se com os outros com ética e não com moral (veja aqui).

Vemos nos gregos uma preocupação com as forças, que se manifesta de maneira sexista. Mas desta forma estanque podemos retirar uma ética na qual os dois sexos, ou no nosso caso, n sexos, podem se beneficiar. Uma preocupação com o compartilhar a existência, de modo a torná-la mais repleta de devires, mais capaz de afetar e ser afetada, mais dinâmica e plástica sem perder a consistência. Os gregos problematizaram suas relações para delas retirar uma maneira de agir e de se conduzir onde houvesse a possibilidade de crescimento mútuo. Eis a economia que um cuidado de si exige.

Texto da série: Cuidado de Si

- Taíme Govêa
– Taíme Govêa

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

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