O sábio não foge do mundo! Esta é a primeira constatação que aquele que cuida de si mesmo pode chegar. Viver é uma prerrogativa, é mais que sobreviver, é fazer de sua própria existência uma obra de arte. Abrimos um novo campo de reflexão: ética estética. E nela encontramos um homem que procurar exercitar-se: a ascese são os caminhos encontrados pelos gregos para tal tarefa. Uma maneira de fortificar-se, preparar-se, conhecer-se de uma maneira prática.

Há no cuidado de si toda uma preocupação com os exercícios, tanto mentais quanto físicos. Eles fazem parte de um conjunto de técnicas que buscam criar, dar forma a uma subjetividade. Não foi Espinosa quem se perguntou “afinal, o que pode o corpo?“. Pois bem, muito antes dele os gregos já se faziam esta pergunta e respondiam colocando-se à prova.

Asceses/exercícios é essencialmente uma questão técnica. Pode-se analisá-la como uma questão de técnica” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 374

Ser livre é não ser escravo de si mesmo. Por isso esta incitação à luta, tanto dentro de si mesmo, quanto fora. Ser livre é a busca por tornar-se senhor daquilo que nos domina, e somente assim podemos cuidar de nós mesmos, tornando-nos mais fortes. Mas o que isso significa necessariamente? Afinal, já deve estar claro que não queremos inverter a mesa e dominar aquele que anteriormente nos dominava. Não, isso é pouco, ainda é jogar o jogo do poder e ignorar a potência dos corpos. Não queremos nos tornar senhores do mundo, mas sim de nós mesmos! Há uma diferença claro entre poder e potência e estamos sempre levando a tensão para este segundo campo.

Também não queremos fugir deste mundo para um outro, porque a ascese não é uma renúncia de si. Nos exercitamos para nos encontrar com a realidade estando mais preparados. Não procuramos outras realidades, nosso objetivo é aqui e agora, este mundo, com estas pessoas, neste momento. Apesar de Platão e de vários outros filósofos depois dele, precisamos dizer: esta realidade não é feita de aparências, ela é real, ela se apresenta e cabe a nós tomarmos parte nisto tudo. Estamos longe do metáfora do idealismo, não queremos sair da caverna, queremos explorá-la! O sábio não foge do mundo, mas pode fazer o mundo fugir!

Vemos que esse grande percurso da natureza servirá, não para nos arrancar do mundo, mas para nos permitir apreender a nós mesmos lá onde estamos” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 249

Os gregos utilizavam constantemente a comparação com o atleta, como aquele que está preparado, que possui um conjunto de técnicas para atuar em qualquer momento. O atleta olímpico é aquele que aprendeu um conjunto de habilidades e preparou seu corpo para as mais variadas situações. Ele sabe o essencial, os movimentos necessários e precisos para os exercícios que deverá realizar.

Da mesma maneiro o lutador precisa aprender e dominar um conjunto de técnicas para poder vencer seu adversário. O atleta e o lutador não vivem de proezas inúteis! Do mesmo modo que os filósofos do cuidado de si não buscam realizar atos heroicos e peripécias incríveis com o objetivo de deslumbrar seus aprendizes.

Do mesmo modo, não temos que fazer sobre nós mesmos façanhas (a ascese filosófica desconfia dos personagens que enaltecem as maravilhas de suas abstinências, de seus jejuns, de sua presciência do porvir). Como um bom lutador, devemos aprender exclusivamente aquilo que nos permitirá resistir aos acontecimentos que podem produzir-se; devemos aprender a não nos deixar perturbar por eles, a não nos deixar levar pelas emoções que poderiam suscitar em nós” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 449

Estes exercícios, de alma e de corpo, têm dois objetivos:

  1. Dar coragem, de modo a permitir que o asceta resista às dificuldades sem se abalar e esquecer de seus objetivos iniciais. A coragem permite ao sábio resistir aos acontecimentos exteriores, lhe dá resistência, permitindo que supere as agruras sem sucumbir. O mundo só pode ser encarado por aqueles que se imbuem de coragem, e a coragem vem de saber-se preparado.
  2. Sophrosune, moderação, temperança, capacidade de medir, dominar, dar uma regulação para a relação entre nós e o mundo. O sábio transforma o conhecimento no mais potente dos afetos, unindo mente e corpo e trazendo uma medida.

A ascece estoico-cínica não gira em torno da continuidade dos pensamentos de Platão porque supera a questão do “conhece a ti mesmo” (veja aqui). Em Platão temos um corpo voltado para a ginástica, um corpo que segue um modelo ao qual ele deve se encaixar. Temos com o filósofo do mundo das ideias uma outra forma de conhecimento, que procura dar forma ao corpo e à mente. Já o cuidado de si procura outros caminhos, uma potência que escape à forma, um simulacro, uma linha de fuga que trace novas conexões. Em primeiro lugar a ascese traz a abstinência:

Abstinência:

É todo um modo de relação com o alimento, as roupas, a habitação que é assim formado através desses exercícios de abstinência para formar um estilo de vida, e não exercícios de abstinência para regrar a própria vida mediante interdições e proibições precisas” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 386

Parece estranho falarmos de exercícios e como primeira prática expormos a abstinência. Estranho, mas não contraditório. É preciso relembrar, nosso objetivo com os exercícios não é um corpo musculoso, moldado para a luta heroica, com pregava Platão, mas sim de um corpo resistente, capaz de suportar as dificuldades sem desviar-se de seu caminho. Suportar a fome, a sede, o frio, os acontecimentos, sejam eles quais forem.

Foucault fala, por exemplo, dos Cínicos, que possuíam um corpo capaz de dormir em leito duro e vestir roupas rudes. Afinal, o Cuidado de si não é apenas para os jovens na flor da idade! Nunca é tarde para se filosofar, dizia Epicuro. Não queremos um corpo que viva eternamente, mas também não queremos morrer jovens. Não vamos para a guerra e não queremos morrer tão cedo porque nossa batalha é outra.

O cuidado de si é para a vida toda, então os gregos se preocupavam principalmente com exercícios leves e refeições moderadas. Estamos aqui dando forma às forças reativas. O corpo não pode atrapalhar a alma nem tomar todo o espaço da alma. Porque esta é a definição de um corpo impotente. Desprender-se da gula, da concupiscência, de forma que as riquezas não mais prendam a nossa atenção e que os momentos de dificuldades não possam nos abalar. O corpo não pode atravancar a alma, ele precisa estar preparado para os momentos de dificuldade e não ser seduzido pelos excessos da riqueza.

Qual a medida da bebida? Aquela que aplaca a sede. Qual a medida da comida? Aplacar a fome. O sábio explora seu corpo para saber seus limites: quanto tempo pode fazer isso e aquilo? Quanto ele realmente precisa disto e daquilo? Isso vale muito bem para hoje, onde vivemos mergulhados na ilusão de que precisamos comprar, ter, desfrutar de milhares de coisas que na verdade são empecilhos para uma vida realmente estética. Não queremos falsos excessos. Quantas vezes nós consumimos sem consumir? (veja aqui). A prudência nos dá muitas medidas do que precisamos e podemos. A abstinência limpa o terreno para abrir um caminho onde podemos cuidar de nós. Abster-se para explorar outros caminhos.

Prova:

Poderíamos também dizer: abster-se para, em um segundo momento, colocar-se à prova. Porque há sempre uma interrogação no ar: até onde podemos ir? Queremos saber do que um corpo é capaz. E para isso não há maneira melhor do que explorar nossos limites (veja também aqui).

Nosso corpo é feito de relações de movimento e repouso. Ele estica, se comprime, se alonga. Há uma vontade de medir até onde se pode ir. Por isso o sábio coloca-se à prova, com o único intuito de demarcar a si mesmo. Saber, na prática, o que se é, tendo o corpo como superfície de inscrição destes limites! Numa prova nos impomos um objetivo que pode ser ou não alcançado, esta distância entre o objetivo e nosso corpo nos traz os limites e as medidas que procuramos. Se primeiro cuidamos das forças reativas, com a abstinência, agora temos o campo aberto para as forças ativas de experimentação e criação!

Há sempre uma vontade de saber mais de si mesmo, de dar mais um passo em direção a si mesmo, de conhecer em si uma coisa nova. “Olha só! Aqui está algo que não sabia de mim!“. O filósofo educa-se através das provas que coloca para si mesmo. Superando-as ou não. A questão aqui é que a prova é um fim em si mesmo, seu objetivo é conquistado necessariamente. Já dizia Espinosa, o prêmio da virtude é a própria virtude.

Mas não podemos deixar de dizer que esta prova é acompanhada de uma reflexão. Claro, a meditação não está separada da ascese. O que fizemos? Como fizemos? Somos capazes de fazer novamente? Uma atitude consciente acompanha a prova, para que sejam esclarecidas as condições em que o corpo e o momento se encontravam. Eis a raiz do auto-conhecimento. Constituir um sujeito como fim último para si mesmo! Através do exercício, treinando, praticando. Após cada prova o sujeito encontra-se mais dono de si mesmo.

Nos exercícios de prova busca-se medir em que ponto se está em relação àquilo que se era, em relação ao progresso já feito, e em relação ao ponto a que se deve chegar” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 387

Por isso o Cuidado de Si não pode ser apenas realizado em um momento da vida. A prova deve tornar-se uma atitude frente o real! a vida inteira deve tornar-se uma prova!

A prova não deve ser apenas, diferentemente da abstinência, uma espécie de formador cujos limites fixamos em um certo momento da existência, mas pode e deve tornar-se uma atitude geral na existência. Isso significa que vemos aparecer, creio, a ideia fundamental de que a vida deve ser reconhecida, pensada, vivida, praticada como uma perpétua prova” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 393

Este era então o grande objetivo dos gregos: constituir uma relação plena, acabada, completa e autossuficiente! Apenas o sábio treinou devidamente, então apenas ele está realmente preparado para o que quer que aconteça. Ele realizou repetidamente os movimentos essenciais da existência e nada pode abalá-lo! Os antigos conquistavam a ataraxia não porque se afastaram do mundo! Muito pelo contrário! Vemos agora como eles mergulharam mais que qualquer outro para encontrar as ferramentas da existência, suas medidas, seus limites.

Os antigos queriam adquirir algo, criar! Fazer nascer um sujeito mais forte! Suas palavras, ‘a ascese antiga não reduz: ela equipa, ela dota'” – Foucault, Hermenêutica do Sujeito, p. 285

A ascese tem como objetivo nos preparar para a fortuna, para os acasos da vida, para o futuro incerto. Um futuro recheado de acontecimentos para os quais temos que estar devidamente preparados, física e emocionalmente, mesmo que ainda não o conheçamos. Por isso os gregos sempre retomam a comparação do sábio com o atleta, os dois treinaram muito para tornarem-se quem são. O atleta para a competição, o lutador para a luta e o sábio para a vida. E isso porque o bom atleta e o sábio tiveram o mesmo caminho, exercícios e constância.

Podemos dizer então que o sábio é o atleta do acontecimento! Ele praticou, se preparou, estudou, traçou as possibilidades, conheceu seus limites com precisão, e quanto o acontecimento lhe bater à porta ele atenderá com felicidade, porque estará à altura do que lhe acontecer (ver Escoicos, o que é psicologia?). A bagagem que o sábio vai juntando ao seu redor lhe traz  ferramentas filosóficas que ele pode usar sempre que for necessário. Este conhecimento, esta provação pela qual o sábio se coloca traz igualmente um corpo saudável para qualquer eventualidade. Ele é dotado de arma e de escudo. Os antigos chamavam de paraskeué:  armadura, proteção. É isso que o atleta visa, estar protegido e bem equipado para a fortuna.

Muito diferente da prática cristã de renúncia do mundo, os gregos abstinham-se e provavam-se para ir mais longe, tornarem-se mais fortes. Os músculos são menos necessários que a boa relação entre mente e corpo, entre pensamento e vida.

A finalidade dessas provações não é, sobretudo, de praticar a renúncia por si mesma, ela consiste em tornar capaz de abster-se do supérfluo, constituindo sobre si uma soberania que não depende de modo algum de sua presença ou de sua ausência As provações a que se é submetido não são estados sucessivos na privação, elas são uma forma de medir e de confirmar a independência de que se é capaz a respeito de tudo aquilo que não é indispensável e essencial” – Foucault, Cuidado de si, p. 64

O cuidado de si que se dá na forma de um exercício, uma atividade, mas que é igualmente acompanhada de uma reflexão e de um retorno constante ao mundo e à vida. Áskesis, ascese enquanto conversão a si, exercício de si sobre si. Um saber prático que só pode se adquirir treinando de maneira contínua e obstinada tendo como fim a sua própria existência.

A experiência de si que se forma nessa posse não é simplesmente a de uma força dominada ou de uma soberania exercida sobre uma força prestes a se revoltar, é a de um prazer que se tem consigo mesmo. Alguém que conseguiu, finalmente, ter acesso a si próprio é, para si, um objeto de prazer. Não somente contenta-se com o que se é e aceita-se limitar-se a isso, como também ‘apraz-se’ consigo mesmo” – Foucault, Cuidado de Si, p. 70

Texto da Série: Cuidado de Si

-Ilustração de Mariana Ardito
-Ilustração de Mariana Ardito

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

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