Após a relação com o corpo e a saúde, após a relação com a mulher e com a instituição do casamento, após a relação com o rapaz, sua liberdade e sua virilidade, focalizadas como motivos de problematização da atividade sexual, eis agora a relação com a verdade” – Foucault, Cuidado de Si, p. 289

Os gregos se preocupavam com a verdade. Não no sentido que nós a conhecemos hoje, de algo escondido dentro de nós ou atrás coisas. A verdade como Vontade de Potência, a força de afirmação que uma potência tem para se expressar. Então, quando falamos de Enkrateia, estamos falando da capacidade que temos de nos afirmar e de dizer “esta é a minha verdade, este sou eu”.

Vemos aqui como estamos próximos da noção de Parresia, também estudada por Foucault e praticada em seu mais alto grau pelos Cínicos. A verdade está na relação virtuosa que se estabelece entre as partes. Por isso os gregos podiam amar seus inimigos mais ainda que os cristãos, porque seus inimigos os tornavam mais fortes. A questão não é exatamente saber o que é seu e o que não é (porque, afinal, nada é nosso), mas o efeito que isso nos causa, se aumenta ou diminui a potência de uma vida. Este é o terreno estudo por Foucault nos gregos.

Fica claro agora porque a austeridade não era vivenciada como uma penitência ou algum tipo de punição. O sentimento de culpa nos gregos era cuidadosamente mantido à distância. A austeridade era uma prática de si, a ascese, um exercício de constituição. Estas relações buscam constituir um sujeito. Como se o homem estivesse constantemente buscando se superar, tornar-se mais forte. Dominar a si mesmo é a chave para se relacionar de igual para igual com os outros.

A questão não é mais qual o verdadeiro amor, qual a verdade do amor, mas sim quais são as formas honrosas de am@r? Quais geram mais potência? Quais nos afastam dos vícios da fraqueza? Porque sabemos que podemos ser fracos, e por isso buscamos nos prevenir, por isso o cuidado de si é tão importante, porque sabemos que nem sempre seremos capazes de cuidar de nós mesmos, e nestes momentos estaremos nas mãos da fortuna.

Essa arte de si mesmo já não insiste tanto sobre os excessos aos quais é possível entregar-se, e que conviria dominar para exercer sua dominação sobre os outros, ela sublinha cada vez mais a fragilidade do indivíduo em relação aos diversos males que a atividade sexual pode suscitar; ela também sublinha a necessidade de submeter esta última a uma forma universal pela qual se está ligado e que, para todos os humanos, se fundamento ao mesmo tempo em natureza e em razão” – Foucault, Cuidado de Si, p. 234

Surge aí outro tipo de dominação, a do mestre da verdade que é assim qualificado pela soberania que exerce sobre si mesmo, através dos mais variados exercícios de dominação. Porque somente aquele que tem controle, conhecimento de si, merece ser levado a sério. A sabedoria é ser causa adequada de si mesmo, somente aquele que é determinado internamente, que constitui-se como sujeito, senhor de si, pode agir no mundo. Logo, a sabedoria, é sempre bom lembrar, não busca outros mundos, mas busca constituir-se neste.

Da mesma maneira que a sabedoria não evita as relações, mas as busca de maneira mais qualificada. O sábio é aquele que dominou seus prazeres, e não deixou-se ser dominado por eles. Este sim obtém a satisfação máxima porque não é arrastado como um escravo por seus desejos, mas ao mesmo tempo sabe que de nada adianta maldize-los. Ele, e apenas porque cuidou de si, conhece a si mesmo e aos outros, por isso pode dominar a si mesmo e se relacionar com os outros.

Aquele que é o mais sábio será também o mestre da verdade; e seu papel será o de ensinar ao amado de que maneira triunfar sobre os seus desejos e ‘tornar-se mais forte do que a si próprio’” – Foucault, Cuidado de Si, p. 303

Isso foi especialmente aplicável para a relação entre dois homens, mas aos poucos foi se modificando. A reflexão mais importante foi feita para com os rapazes porque estes viriam a ser os homens livres um dia. O respeito estava focado no seu status futuro. Mas logo o eixo começa a se deslocar para todos os campos da vida, como as mulheres, pensando nos vínculos conjugais e com os escravos, no jardim de Epicuro, por exemplo.

Mas independentemente de onde e com que rigor estes exercícios de si eram aplicados, os gregos nunca caíram no modelo cristão. Temos a tentação de achar que estes princípios se aproximam dos cristãos porque estes pediam a abstinência e a penitência. Mas precisamos reparar que não há código de leis, o que permitia aos gregos inovar.Não havia uma modelo a ser seguido e se enquadrar, os gregos podiam tornarem-se diferente do que eram.

Mas realmente o cuidado de si, principalmente nos estoicos, fundou um pensamento que, posteriormente, os teólogos cristãos só tiveram que retomar. Aos poucos vemos uma mudança, saindo da arte refletida de uma liberdade percebida como jogo de poder (fluxos) para cair em um modelo de renúncia (normalização).

Essas morais definirão outras modalidade da relação consigo: uma caracterização da substância ética a partir da finitude, da queda e do mal; um modo de sujeição na forma da obediência a uma lei geral que é ao mesmo tempo vontade de um deus pessoal; um tipo de trabalho obre si que implica decifração da alma e hermenêutica purificadora dos desejos: um modo de realização ética que tende à renúncia a si” – Foucault, Cuidado de si, p. 235

Os gregos, em sua busca para entender o que seria a aphrodisia, tomando cuidado com seus excessos,  erigiram uma ética da abstinência sexual. Definiram qual seria a moderação necessária. Criando assim toda uma arte de viver, que girava em torno de princípios exigentes, mas não fechados, isolados ou auto-punitivos. Ela funciona muito mais como uma abstinência, para saber exatamente o que pode um corpo.

A austeridade sexual precocemente recomendada pela filosofia grega não se enraíza na intemporalidade de uma lei que tomaria alternadamente as formas historicamente diversas de repressão: ela diz respeito a uma história que é, para compreender as transformações da experiência moral, mais decisiva que a dos códigos: uma história da ‘ética’ entendida como a elaboração de uma forma de relação consigo que permite ao indivíduo constituir-se como sujeito de uma conduta moral” – Foucault, Uso dos Prazeres, p. 315

Da ética como estética do uso dos prazeres, nos antigos, nos vemos caindo pouco a pouco em uma hermenêutica purificadora do desejo, com a emergência do cristianismo. Não é mais uma questão de domínio ou de honra, nesta luta agora está a relação do ser desejante consigo mesmo, buscando entender qual é a qualidade de seu desejo. Saímos da verdade auto imposta para uma verdade imposta de fora:

O combate que ela teve que sustentar contra a violência de seus apetites ela só pôde travá-lo a partir de uma dupla relação com a verdade: a relação com seu próprio desejo, questionando em seu ser, e relação com o objeto de seu desejo reconhecido como ser verdadeiro” – Foucault, Cuidado de Si, p. 307

Aqui está a diferença clara entre ética e moral e das mudanças ocorridas com o cuidado de si. Na ética há sempre um plus de força que se afirma, uma produção, uma criação, um ir além. Diferente da moral, que impõe de fora códigos que deve ser seguidos. Na moral o desejo deve ser olhado com desconfiança, quando não com desdém.

Foucault nos mostra como há sempre um fascismo à espreita em cada lei, em cada codificação do comportamento. Ele, mais do que ninguém, quis mostrar os caminhos para se criar uma ética-estética, que mostrasse, como o próprio filósofo diz: “a arte de não ser tão controlado assim”. O Cuidado de Si foi o caminho que Foucault encontrou, eles foram abertos pelos gregos e nos trazem hoje infinitas possibilidades de trilhas ainda não percorridas. Ao filósofo cabe esta tarefa, como dizia Nietzsche, pegar a flecha do pensamento a atirá-la para mais longe.

A exigência de austeridade implicada pela constituição desse sujeito senhor de si mesmo não se apresenta sob a forma de uma lei universal, à qual cada um e todos deveriam se submeter; mas, antes de tudo como um princípio de estilização da conduta para aqueles que querem dar à sua existência a forma mais bela e mais realizada possível” – Foucault, Cuidado de Si, p. 315

Texto da série: Cuidado de Si

- Taíme Gouvêa
– Taíme Gouvêa

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele, atento para o que entra e sai.

3 comentários

  1. O melhor blog que já encontrei pela minha passagem na vida. Na minha mais deplorável situação achei um refúgio, tomara que eu torne isso uma asa como símbolo da tão famosa e citada L I B E R D A D E. Atualmente está aberto 13 guias do chrome que vai de Nietzsche à Espinosa e chamo-os de remédios para minha alma. Ganhou mais um fiel leitor, que passei a ser mesmo nunca ter tido o hábito da leitura antes. Obrigado.

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