Ora, quem Stirner pensa que é, este egoísta, para falar sobre o amor? Este sentimento tão sublime! O amor não pode ser um sentimento egoísta, pode?

O amor é uma exigência essencialmente religiosa” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 370

Parece existir, para os cristãos, apenas uma lei: a lei do amor. Mesmo que pequem, mesmo que matem, mesmo que roubem, sempre podem voltar para o seio amoroso (?) daquele criou o mundo e também eles: Deus. O amor é também um dever para o humanitarismo. Mas cabe à filosofia fazer as perguntas mais desconfortáveis: afinal, por que devemos amar uns aos outros?

Deus, que é amor, é um deus inoportuno: não é capaz de deixar o mundo em paz, mas quer fazer dele um mundo bem-aventurado […] intervém em tudo e nada acontece sem essa intercessão” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 371

Mas será que ninguém pode seguir seu próprio caminho? Todos devem seguir os desígnios deste tirano intrometido e impertinente? “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (João 15:12), diz ele. E todos procuram seguir seu mandamento, por medo, mesmo sendo impossível, e por mais que não faça nenhum sentido fazer do amor um sentimento universal.

Mas ao menos, se utilizando desta desculpa, eles podem culpar uns aos outros e serem violentos com aqueles que não procuram “amar uns aos outros”. Que ironia, o amor parece uma boa desculpa para maltratar aqueles que não “amam do jeito certo”. É corriqueiro ver quem ama uma ideia, quem ama a humanidade, a Liberdade, o Bem, o Progresso, maltratar o indivíduo, o singular. Para os amantes do amor divino, o Único é uma anomalia, e assusta, e não deve ser tolerado.

Vós amais o homem, e é por isso que martirizais o indivíduo, o egoísta; o vosso amor do homem vos leva a maltratar os homens” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 376

Dirá Nietzsche, com palavras que o próprio Stirner poderia ter escrito: este amor ao próximo é um mau amor a nós mesmos. Mas ao mesmo tempo, não adianta nada parar de dizer “Deus é amor” para começar a dizer “o amor é divino“! De que adianta? Trocamos seis por meia dúzia! Do niilismo negativo para o reativo não saímos da transcendência, e ela que é o perigo. Tirar Deus do céu e enfiá-lo à força nos corações humanos é maquiar uma falsa mudança. “Nem Deus nem mestre!” dirá o anarquista, o amor não pode estar sobre nós!, ditando as ordens, ele precisa tornar-se nossa propriedade.

Ora, mas já sabemos há tempos que Deus está morto! Viva, Deus está morto! Mas e o amor? Também ele deve morrer? A morte de Deus não significa a morte dos valores! E dizemos mais ainda, a virtude era impossível com a existência de Deus, porque com seu poder ditatorial, seria apenas obediência assustada.

O fato de os comunistas e os liberais humanistas esperarem mais do homem que os cristãos não significa que não falem todos a partir do do mesmo ponto de vista” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 373

- Ivo Stoyanov
– Ivo Stoyanov

O homem matou Deus, Stirner matou a ideia de homem. Por isso nos perguntamos: por acaso alguma coisa tem direito ao nosso amor? Podemos nos rebelar contra a lei do amor? Pai, mãe, irmão, pátria, concidadãos, que fizeram eles para merecer nosso amor? Ou querem eles apenas a nossa submissão? “Você não ama a mamãe?” é um convite à docilidade. Temos que amar nossa Igreja, nosso país, nossa família. O amor ainda hoje é visto por muitos como um mandamento, o qual, se nos rebelarmos, estamos perdidos, seremos condenados por isso. Este sentimento é um mandamento ou uma propriedade? Existe alguma coisa que o Único não ame que tenha o dever de ser amada por ele?

Esta resposta depende de quem a responde. Para o impotente, o servil, o escravo, aquele que não legisla em causa própria, o amor é algo superior a ele. Mas para o Eu-proprietário, o amor é só mais uma de suas propriedades. Para o Único, o amor é apenas uma propriedade como todas as outras. Sim, como qualquer outra coisa… “Amor egoísta? Mas… mas…. e o amor romântico, místico, altruísta?“. Não, no amor egoísta não se faz nada por obrigação. Quem sente que deve alguma coisa ao seu amor, ainda ama de maneira religiosa, ainda é prisioneiro do amor, é, portanto, seu escravo. O Eu-proprietário engole o mundo, faz dele uma posse, um uso, uma serventia, uma utilidade. O egoísta pode amar mais um vinho que sua pátria. Há mais prazer no amor posse que no amor obrigação, dirá Stirner.

O amor dá conta de uma necessidade. Não apenas suprime faltas, mas também cria novas possibilidades. Ele funda uma associação, durável ou não, que abre novos horizontes. No amor nos satisfazemos, ele nos serve. Tanto pela companhia, quanto pela proteção, pela troca de experiências, pelo apoio, pelo prazer sexual.

Propriamente meu, o meu amor só o é se consistir em um interesse totalmente pessoal e egoísta, e então o objeto do meu amor será verdadeiramente o meu objeto ou a minha propriedade. Não devo nada à minha propriedade, não tenho deveres para com ela tal como também não tenho deveres para com o meu olho; se, apesar disso, o protejo com todo o cuidado, isso acontece apenas por amor a mim” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 379

Aproprio-me, logo existo”. Tudo que o egoísta tem, é dele, o constitui, não importa se é sua beleza, sua inteligência, seu carro, seus livros, seus contatos, sua casa ou até mesmo, suas lembranças, seus medos, suas amizades. E as coisas que o Único possui como sua propriedade, são suas para serem usufruídas. O mesmo princípio funciona nas relações amorosas. Para o Único, o amor não é algo sagrado, nem mágico, nem mais importante que as outras, mas funciona também como uma propriedade. E como sua propriedade, ele cuida para mantê-la. O Único ama apenas aquilo que o satisfaz, que lhe é útil.

O amor do egoísta brota de seu interesse pessoal, corre para o leito do interesse pessoal e desagua de novo no interesse pessoal” – Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 380

Há uma inversão de papeis, o egoísta não serve ao amor, pelo contrário, é servido por ele. Todos querem seu amor, mas ele o dá a quem merecê-lo e apenas se se beneficiar disso. O amor não é um mandamento, ninguém diz ao Único a quem amar, ou quando deve amar: o Estado diz que deve amar a pátria; a Família, os pais; a Igreja, a Deus; a Humanidade, o ser humano. Mas o Único serve somente à sua causa e nada mais. Muitos exigem o amor do indivíduo, mas ele o dá a quem quiser. Por que haveria de ser diferente? Não há razões para dar nada nosso de graça, não devemos prestar contas a ninguém, a não ser a nós mesmos. O Eu-proprietário ama apenas enquanto se serve daquilo como sua propriedade; o Único, apenas porque aquilo expressa sua unicidade; o egoísta vê o amor brotar de seu interesse pessoal e para seu interesse pessoal. Ora, isso ainda é amor? Se não quiserem, podemos usar outra palavra, que não tenha ranço cristão. Nós usaremos esta, porque nos convém.

Agora sim podemos amar uns aos outros, mas quando quisermos e porque queremos, porque nos satisfaz. O Único amará seu companheiro(a), seus filho(a)s, seu trabalho, mas porque isso o agrada, porque suas qualidades lhe dão prazer, porque ele fica feliz com estas relações. Não há nada de errado nisso… ele não está preso, está enredado em uma relação de forças que o agrada e por isso procura mantê-las tanto quanto puder.

Significa isto que eu não devo ter um interesse vivo pela pessoa do outro? Que não devo me alegrar com a sua alegria e o seu bem-estar e pôr os prazeres que lhe posso dar acima dos meus próprios? Pelo contrário, posso sacrificar-me para lhe dar inúmeros prazeres, posso renunciar a muitas coisas para aumentar os seus, e arriscar por ele o que, sem ele, me seria mais caro – a minha vida, o meu bem-estar, a minha liberdade. O meu prazer e a minha felicidade fazem-se com o gosto que tenho no seu prazeres na sua felicidade. Mas eu, o meu próprio eu, esse não o sacrifico por ele: continuo  a ser egoísta e… entrego-me a fruição dele” – Max Stirner, O Único e Sua Propriedade, p. 375

- Ivo Stoyanov
– Ivo Stoyanov

Não queremos libertar o mundo por amor a ele, mas simplesmente por nós! Nós: eu, você, vários, queremos viver num mundo melhor. Esse mundo será nossa propriedade, estará sob nosso poder e deixará de nos oprimir. Há sempre muito hipocrisia naqueles que criticam Stirner, porque compreendem o egoísmo como algo exclusivamente ruim, mas neste caso há apenas uma inversão da prioridade: é possível amar um número enorme de pessoas, mas o Eu vem sempre em primeiro lugar, amamos porque é bom para nós amar. Isso não implica em ignorar os outros ou prejudicá-los. É melhor encontrar a melhor maneira da conviver, fazer acordos, contratos, associações, mas unicamente porque isso é bom para o egoísta. O Único abre mão de parte da sua liberdade mas somente porque isso lhe trará benefícios maiores que o isolamento.

Propriamente meu, o meu amor só o é se consistir em um interesse totalmente pessoal e egoísta, e então o objeto do meu amor será verdadeiramente o meu objeto ou a minha propriedade” – Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 379

Certamente, adeptos do amor cristão não interpretam bem essa ideia. E por isso já sacam de seu livro sagrado suas ameaças sagradas, “serão apanhados, lançados ao fogo e queimados” (João 15,6); e também não se esquecem da promessa que Jesus faz em seguida dizendo que se seguirem suas palavras, “pedirão o que quiserem e lhes será concedido” (João 15,8). Seria o amor cristão também egoísta? Ora, Deus serve sua própria causa, talvez devêssemos fazer o mesmo…

Enfim, nosso amor nos serve, ou servimos a ele? A felicidade que tiramos de nosso amor superam as infelicidades? Uma importante conclusão que podemos tirar de Stirner é perceber que o amor deve servir a quem ama, fazer bem a ele, agradá-lo. Um amor anarquista não olha para cima procurando ídolos a quem glorificar, não deve fazer o mesmo neste mundo.  Muito do nosso amor é roubado e exigido de nós sem que o queiramos, devemos quebrar com esta servidão. E muito de nosso amor, bondade, educação, altruísmo etc., se escondem puramente atrás de egoísmo. Esta é a lição egoísta de Max Stirner

Se nós podemos dizer “eu te amo”, não é porque um ser superior nos intimou a amarmos uns aos outros, também não é porque reconhecemos o fantasma de nossa mãe ou quem quer que seja no próximo. O egoísta ama porque isso faz bem para ele, talvez seu amor seja dos mais sinceros, porque não possui mediações, está no campo das singularidades e das associações.

Se quisermos libertar o mundo de tanta falta de liberdade, não o fazemos por amor a ele, mas por amor a nós: pois, uma vez que não somos salvadores do mundo por profissão ou por ‘amor’, tudo o que queremos é roubá-lo a outros. Queremos que ele se torne coisa própria, nossa; ele não deve continuar a ser servo de Deus (da Igreja) nem da lei (do Estado), mas um bem nosso” – Max Stirner, O Único e Sua Propriedade, p. 395

Texto da série: Eu-proprietário

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

1 comentário

  1. Continuem postando!
    Cada vez me sinto mais em casa neste blog. Li a obra de Stirner e gostei muito, apesar de conhecê-lo meio sem querer. Textos falando sobre sua obra são escassos. Parabéns!

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