Eu sou o inimigo número um do Estado, que se vê sempre diante da alternativa: ele ou eu” – Max Stirner

O Estado trabalha para nosso bem, para o progresso, diz ele; Estado é o estado de coisas vigente, é o status quo, isso nós dizemos; há uma grande diferença. Nós nascemos nele, e por isso o vemos como natural, ele nos ensina a obedecê-lo, diz o que é certo e errado, diz quem são nossos inimigos. Seu princípio é o mesmo da igreja: quem não segue seus mandamentos é pecador, está contra Deus, deve ser perseguido.

A filosofia se pergunta: O Estado é parte do problema ou da solução? Cada filósofo dará sua resposta… Para Max Stirner, há apenas uma: a liberdade do estado não é nossa liberdade, ele é nosso inimigo e deve ser combatido! Nem Deus, nem mestre, nem rei, nem nada! Stirner, como bom anarquista, dirá: Fora com todos os burocratas! O Estado é o primeiro inimigo que o Único precisa enfrentar porque aqui a singularidade encontra a sua máxima oposição.

O Estado tem sempre uma única finalidade: limitar o indivíduo, refreá-lo, subordiná-lo, fazer dele súdito de uma ideia geral” – Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 291

Não nos enganemos, o Estado quer tudo para ele, já o egoísta, tudo para si. O Estado fala em nome dos universais, o Único, em nome de sua singularidade. Não é de surpreender então que a conta não feche… um pede para que todos se sacrifiquem em nome de um bem maior, o outro não se sacrificará jamais pela sociedade, ele queima sua própria chama trilhando seus próprios caminhos.

A guerra deveria ser declarada ao próprio existir deste estado de coisas, ou seja, ao Estado (status), não a um determinado Estado nem ao estado atual do Estado; o que se tem em vista não é um outro Estado (por exemplo, um “estado popular’), mas a associação que ele representa, a união, sempre fluida, de todos os elementos existentes” – Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 287

Como caracterizar o Estado? Qual face ele nos mostra e qual ele esconde? O Estado nos submete a ele. Nesse ponto, República e Monarquia são as mesmíssima coisa. Os dois toleram apenas os inofensivos, e garantem que o egoísta não terá vez. Tudo que pode ser dominado, será, e nos mínimos detalhes. Assim como a igreja diz quem são os pecadores, o Estado diz quem são os criminosos! Qualquer um que não seja como ele define, qualquer um que não se enquadre, que fuja à norma. A singularidade do Único será desconsiderada em nome dos “cidadãos”, em nome do “bem comum”… diga-se de passagem que comum funciona aqui como medíocre, ordinário, vulgar, aquilo que não se destaca.

Aquilo que se chama Estado é um entrelaçado e uma rede de dependências e adesões, mas são caminhos viciados, são trilhas marcadas pela exploração, pelo poder, pela violência descarada ou dissimulada! Não importa se é um modelo monarquista, aristocrata ou democrático! Não importa se é por voto popular ou por escolha divina, todo Estado é injusto e não dá conta da singularidade de cada um, ele precisa homogeneizar, mediar, normalizar, organizar. Seus artifícios são a vigilância e o controle. Podemos ver aqui a mesma lógica de servos e senhores. Para Stirner, com seu viés libertário, existem apenas egoístas, e se lutamos por uma causa que não é a nossa, fomos capturados por ideias e estamos vivendo em servidão.

O Estado deixa os indivíduos jogarem livremente, mas não se meterem a sério nas coisas e o esquecerem. O homem não pode ter relações espontâneas com os outros homens sem ‘vigilância e mediação a partir de cima’. Não posso fazer tudo o que sou capaz de fazer, mas apenas aquilo que o Estado permite; não posso valorizar minhas ideias, nem meu trabalho, nem nada que seja meu” – Stirner, O Único e a Sua Propriedade, p. 291

Enquanto houver um Estado, o egoísta lutará contra ele com todas as suas forças. Mas por quê? Afinal, as crianças não vão à escola e os idosos ao hospital? Não temos parques limpos e aposentadoria? Sim, sim, sabemos, mas são bens menores… no lugar dos direitos o Único trará potência. Onde está este povo protegido pelo Estado? Não vive ele ainda na miséria, na penúria? Não passa fome? Não é lesado diariamente? Onde estão as riquezas? Onde o poder está sendo dividido de forma democrática ou mesmo representativa?

O povo não significa nada para os poderoso, a vontade pública é um rebanho grunhindo, e é tão duradoura quanto um dia e uma noite. Vivemos na ilusão de uma democracia, de um estado de direito. Acreditamos piamente nisso. Pedimos “diretas já” e nos sentimos no ápice do dever civil (veja aqui). Somos devotos, abaixamos a cabeça e repetimos a cartilha de bons cumpridores de nosso dever. Trocamos mafiosos no poder por outros mafiosos e sentimos a satisfação da ação política.

Desde quando votar tornou-se motivo de orgulhoso? Nosso eleitos, a quem eles servem? Ao povo ou à sua reeleição? Cafetões, canalhas, cafajestes, eles servem aos interesses públicos ou seus interesses privados? E com que direito eles sobem lá e fazem essas coisas? Ora, com o direito de nossos votos, nossos estúpidos e iludidos votos! Votar para alguém nos dominar? Não, obrigado! Não, os eleitos servem apenas a eles mesmos! Sabemos disso! Mas continuamos a servir voluntariamente! O grito de Stirner é este: paremos de servir, precisamos encontrar outros caminhos, imanente, horizontais, próprios, singulares, micro-políticos.

Stirner se opõem à organização do Estado porque acredita que ela subordina a singularidade ao todo, um coletivo burocrático e centralizado que domina e dá as cartas. Em seu lugar, já vimos, o Único coloca a associação como melhor alternativa. Nem a saída capitalista burguesa nem a saída socialista estatal, mas uma organização voluntária e afastada de toda e qualquer hierarquia!

- Ivo Stoyanov
– Ivo Stoyanov

De que te servem tuas leis se ninguém as segue, de que servem tuas ordens se ninguém lhes obedece? O Estado não pode abdicar da pretensão de determinar a vontade individual, de especular sobre ela e de contar com ela. Para ele é absolutamente necessário que ninguém tenha vontade própria; se alguém a tiver, o Estado tem de eliminá-la (prendendo-o, exilando-o, etc.); se todos a tivessem, poderiam abolir o Estado.

E se nos organizássemos? E se encontrássemos nossas próprias alternativas? Isso é possível? No momento, diríamos que não… fomos infantilizados pelo nosso próprio modo de vida. Só sabemos pegar o transporte público e realizar a mesma tarefa por oito horas seguidas. Não somos Únicos, somos corpos dóceis! De quem é a culpa? Não interessa, vale mais procurar saídas do que entradas. Contra o direito e a Lei, o egoísmo contrapõe a força e a potência, esta é sua alternativa. O egoísta diz ao Estado, tal qual Diógenes: “Saia da frente, você está me tapando o sol“.

O Estado substituiu a Igreja. Não é a toa que dizemos hoje “a voz do povo é a voz de Deus”. Mas nós matamos deus! Queremos então que viva o homem? Não! Matamos a ideia de homem também! Queremos que viva o Único! Por isso não queremos pagar impostos. Que obrigação é esta? Que ameaças são estas? Estamos nós preocupados em salvar o mundo? Em salvar o Estado? Não, estamos ocupados em encontrar outras saídas, outros modos de organização! Não nos deixamos mais enganar: o Estado vive em seu próprio nome, podemos pegar suas migalhas, ou tentar destruí-lo não mais servindo à sua causa! Quem está no poder, nos representando”, defende apenas a sua própria propriedade! E com unhas e dentes, servindo-se do bedel até o exército!

Cada um luta por sua causa. Se Deus e os líderes do país têm sua causa, defendem a sua propriedade, concluímos que devemos fazer o mesmo! A pergunta que fica é: devemos destruir a propriedade ou o Estado? Ora, o Estado, é claro! Porque sempre, sempre estaremos nos relacionando com a propriedade. Se o Estado protege a propriedade de quem tem mais do que pode ter, então é o Estado que nos impede de ter o que queremos! Temos nossa própria causa: nós próprios, nossa propriedade, nossas associações! A liberdade do Estado não é nossa liberdade.

O Estado tem apenas um interesse, o de ser rico; não importa saber se o Manuel é rico e o João é pobre, e ainda ficaria indiferente se o João fosse rico e o Manuel pobre. Ele assiste, indiferente, a este jogo de sorte que leva uns a ficar pobres e outros ricos” – Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 325

O Estado é mais do que muitos indivíduos reunidos, há aí uma mudança qualitativa, onde nós nos tornamos impotentes servindo a uma causa que não é nossa. E qualquer coisa que destoe cairá no crime! Com quantas pessoas não foi assim? Mandela não foi preso? Snowden não está na enclausurado na embaixada? Rafael Braga e inúmeros outros! Por isso somos seu inimigo número um, não nos empenharemos em nenhuma causa que não a nossa própria causa.

O Único procurará outros egoístas a quem se aliar e não deixará que nada o limite. Queremos destruir o poder para encontrar a potência das relações puras, sem mediação. Queremos viver pela nossa própria virtude, queremos crescer com nossos próprios erros e acertos! Não queremos ser pacatos cidadãos, queremos ser nós mesmos, para além de qualquer denominação.

Uma coisa é certa: os egoístas nunca participarão na vida do estado como vós imaginais […] Agora, a questão já não é o Estado (sua constituição etc.), sou Eu. Com isso, todas as perguntas sobre o poder dos príncipes, a constituição etc. caem em seu verdadeiro abismo, no nada. Eu, que sou esse nada, farei nascer de mim mesmo as minhas criações” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 301-2

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

2 comentários

  1. Muito bom. Filósofos bastante tradicionais escreveram sobre isto. FAVORÁVEL e DESFAVORAVELMENTE ao Estado.
    Abaixo publicarei um pequeno escrito meu sobre um suposto embate de ideias entre HEGEL (favorável) e MARX (não favorável mas também não um anarquista) em relação ao conceito de Estado:

    Hegel:

    “O homem deve quanto é ao Estado. Só neste tem sua essência. Todos os valores do homens, toda sua realidade espiritual dá-se mediante o Estado. O Estado é o fim e o cidadão seu instrumento.”

    Ele, se apoiando em seu conceito de Espírito Absoluto quando referente à História, diz que antes ou fora do estado teremos injustiça, violência, sentimentos desumanos.

    E ainda Hegel:

    “O costume é a existência Imediata do estado, enquanto a autoconsciência é a existência Mediata deste. O estado é a realidade efetiva da liberdade concreta, mas esta consiste em que a sua singularidade pessoal e seus interesses particulares tanto tenham seu desenvolvimento completo e o reconhecimento de seus direitos para si (no sistema familiar e na sociedade civil burguesa), quanto, em parte passem por si mesmos os interesses do universal, em parte reconheçam-no, com sapiência e vontade, como seu espírito substancial e seja ativos, a favor do universal, como seu fim último. E de tal sorte que não valha a pena o universal sem os interesses particulares e nem os indivíduos vivam apenas como privados, sem que tenham atividade ou consciência deste universal.”

    Já Karl Marx, diferentemente, defende o fim completo do Estado, e o surgimento de uma sociedade comunal, com os homens não mais estando (em luta) nas diversas classes sociais; defende, portanto, o fim total do estado. Para ele, nem o capital nem o Estado são constructos naturais do homem.
    Por Selvino José Assmann, Delamar José Volpato Dutra e Luiz Hebeche:

    “Marx considera que Hegel inverte esta relação sujeito/predicado, onde, para Marx, a pretensa universalidade e racionalidade do estado hegeliano, não passa do resultado das expectativas e determinações dos sujeitos egoístas da sociedade civil, oa que Hegel vê, nos movimentos destes sujeitos egoístas, como uma simples determinação de desenvolvimento de ideias.”

    E ainda Marx:

    “Como pode o estamento privado e interessado da sociedade civil ser o veículo do universal e como este pode ser o significado político daquilo que é comum?”.

    Por fim Marx afirma que o Estado antes de ser o reino da razão, de fato é o da força. Não é o reino do bem comum, mas do interesse individual. Não se interessa pelo bem viver coletivo, mas apenas dos que detêm o poder. Não seria a saída do estado da natureza, mas sua continuação sob outra forma. Marx ainda afirma que a constituição, longe de ser a vontade popular, é uma ilusão prática.

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