A propriedade depende daquele que é eu-proprietário” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 318

Quase todos os textos de Max Stirner giram em torno da noção de propriedade e associação. São conceitos-chave para andar pelos jardins do egoísmo stirneriano. A noção de propriedade é mantida pelo Único do começo ao fim, mas é afirmada de modo muito diferente do burguês liberal, ela não é sagrada nem justificada pela palavra de Deus ou do Estado, ela é fruto do poder. O que é minha propriedade? Certamente que não é um roubo… é apenas algo que está em meu poder. Por quanto tempo? Pela quantidade de tempo que eu puder mantê-la.

A coisa pertence àquele que for capaz de a tomar e de a afirmar como sua, até que ela lhe seja de novo tirada, tal como a liberdade pertence àquele que a toma” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 324

Então, ao invés do velho e enrugado “conhece a ti mesmo” socrático, Stirner dirá, “Valoriza o que é teu!”, ou melhor, “Faz valer a ti mesmo através de tua propriedade“. Estamos longe do cuida de ti mesmo foucaultiano? Por mais paradoxal que pareça, achamos que não… o cultivo de si se faz através de suas mais variadas formas, mas não pode perder-se em uma subjetividade idealista.

Para Stirner, personalidade e propriedade são a mesma coisa, o objetivo e o subjetivo são a mesma coisa, não há separação. A propriedade é o núcleo através do qual o Único se objetiva e se subjetiva. A única maneira com a qual nossa singularidade pode se afirmar é como proprietária. Quanto menos propriedade, menos realidade eu tenho e menos eu existo. Faz sentido levando em conta um imanência absoluta. Subvertendo o cogito cartesiano, nós tiramos: “Me aproprio, logo existo“.

Assim como os objetos parciais de Melanie Klein e assim como as conexões maquínicas de Deleuze e Guattari, é apenas pelo acúmulo que nos tornamos proprietários e mais potentes. Todo o ser se reduz a ter: ter um corpo, ter um braço, ter um rim, ter conhecimento, ter terras, ter habilidades, ter uma arma, ter amigos, ter relações amorosas, ter manias, ter isso, ter aquilo, ter… ter… ter….. Podemos lembrar da primeira síntese do inconsciente, síntese conectiva: tenho isso e aquilo e aquilo e aquilo também… e… e… e…

Ao homem pertence aquilo que ele pode deitar a mão” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 322

Através destas conexões e desconexões com o mundo ao nosso redor, ou até dentro de nós mesmos, a propriedade se constrói. Ou seja, ela é aquilo que nos pertence, aquilo que é nosso, que está sob nosso poder, que gravita em torno de nós. Então, quando alguém diz, “é melhor ser em vez de ter“, não discordamos completamente, porque aquilo que está dentro de nós nos pertence mais fortemente. É mais fácil nos tomarem a casa do que nosso conhecimento. É mais fácil tomarem nosso dinheiro (e como é fácil) do que nosso sentimento de dignidade.

Mas tudo que é nosso, nos pertence como nossa propriedade, e temos mais ou menos força de mantê-la como nossa. A propriedade é determinada pela força, pela potência! Apenas isso! Afirmamo-nos como proprietário até que alguma força maior nos retire. Uma ideia é nossa até que uma ideia mais forte nos retire ela. Uma casa é nossa até que uma força maior tire ela de nosso poder. Uma relação é nossa até que outra pessoa retire ela de nós.

Minha propriedade não é uma coisa, uma vez que esta tem uma existência independente da minha; meu é apenas o meu poder sobre ela, ou a minha capacidade de dispor dela” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 356

E de nossa propriedade nos cabe fazer aquilo que nós queremos. Quero dar meu conhecimento? Ótimo! Quero dar meu dinheiro? Ótimo. O Eu-proprietário faz com suas posses aquilo que lhe convém, que julga ser o melhor para si mesmo. Ninguém, dirá Stirner, absolutamente ninguém se insurge contra sua propriedade, ele a administra como pode. Na verdade, o egoísta quer sempre mais, e, se puder, ele tomará a propriedade alienada de seu poder para fazer dela um uso próprio. E para isso ele vai procurar se associar a outros que o ajudem!

A propriedade é determinada pela força. Aquilo sobre o que tenho poder é meu” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 324

Começamos a chegar em conclusões importantes. O Eu-proprietário se constitui através das conexões que estabelece com o mundo. Stirner sabe que o homem não está isolado, claro, mas sabe cada um é o Único e constituirá suas próprias relações singulares. Estas conexões se definem por sua força, por seu domínio, seu controle. Uma posse é uma conexão que está momentaneamente em relação com o ser. Tudo aquilo que entra em nossa órbita, entorno, nosso campo de relações, tudo aquilo que dispomos, que podemos utilizar, é nossa propriedade. Logo, se queremos afirmar nossos valores, nossa potência, precisamos nos tornar proprietários, em suas mais variadas formas. Uma opinião é uma propriedade, uma influência é uma propriedade, um favor que nos devem é uma propriedade. Propriedade e posse são a mesma coisa.

O que é então minha propriedade? Apenas aquilo que está sob meu poder! A que propriedade tenho eu direito? A toda aquela de que possa me apoderar. Concedo a mim próprio o direito de propriedade apossando-me da propriedade ou dando a mim próprio o poder do proprietário, o poder pleno e autorizado” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 330

Mais propriedade é mais potência! O Único ama sua propriedade mais do que sua liberdade, porque esta depende daquela. A propriedade se torna um conceito amplo de tudo aquilo que nossa potência permite tomar posse. Defendeis vossa propriedade, seja ela qual for, mesmo que seja apenas seu corpo! Se forem livros, que seja; se forem lembranças, que seja; se for uma piscina de dinheiro, que seja. E o mesmo se passa com nosso trabalho intelectual: nossas ideias são apropriações do mundo… Stirner dirá: defenda suas ideias, elas são suas, mas se não forem mais suas, deixe-as de lado. O Eu-proprietário não coloca nada acima de sua propriedade, nem deus, nem mestre.

Digo a mim mesmo que os limites da minha propriedade são os limites de meu poder, reclamo como propriedade tudo o que minha força me permite alcançar e deixo ir minha propriedade real até o ponto em que eu me dou o direito, ou a força, para me apropriar dela” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 331

Nós somos nossa propriedade! Ela é aquilo que podemos fazer dela.  A escola ocupada é nossa, até jogarem bombas de gás lacrimogêneo em número superior do que podemos suportar. O MTST se apropria de edifícios que não estão sendo usados, eles fazem do edifício sua propriedade, passando por cima do fantasma da propriedade privada burguesa que nem lembrava que aquele prédio existia. Não existe anarquismo maior que este! Toda força se afirma o máximo que pode, para além de qualquer moral, lei, dignidade, permissão! O que é sagrado para o egoísta? Nada. Ele se associa para tomar o que pode fazer seu! Somente ele pode rir de todas a crenças! As terras não eram dos conquistadores portugueses quando eles chegaram aqui, mas eles fizeram valer sua força e a tornaram sua propriedade. Desde então os indígenas sofrem cada vez mais derrotas, onde estão os direitos deles neste momento?

Se não quisermos deixar a terra aos proprietários de terras, mas sim nos apropriarmos dela, associemo-nos para esse fim, formemos uma associação, uma société que se fará proprietária dela; se não tivermos sorte, aqueles deixarão de ser proprietários das terras. E podemos também lhes retirar muitas outras propriedades, e não apenas terras, e fazer delas nossa propriedade, propriedade dos… conquistadores” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 321

Se a propriedade está na mãos de poucos, ora, então precisamos mudar isso! Se eles têm os meios de produção, então precisamos tomá-los; se eles tem os meios de comunicação, ora, precisamos fazer destes meios nossos também! Se eles controlam todos os fluxos, de comida, de dinheiro, de ideias, precisamos criar nossos caminhos também e fazer do mundo nossa propriedade! Porque se for um só proprietário e muitos querendo lhe tomar sua imensa propriedade, então não haverá argumento divino ou estatal que os segurem.

O que se quer é chamar de seu a mais coisas, não a menos” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 407

O poder cristalizado se chama Direito, Estado, Lei. A quem eles pertencem? Ora, aos que fazem valer estas leis ao seu favor. Desde quando as leis nos beneficiam? Desde nunca! É isso que queremos? O poder se afirma em cima de nossa impotência para lutar contra ele! Ele não pode ser retomado se nos insurgirmos contra? Os egoístas no poder fazem valer todas as suas vontades e nós ficamos à míngua? Não queremos nossa dignidade, nem nossa humildade reconhecida e certamente não estamos esperando o reino dos céus. Cansamos de viver sem nada. Se metade da riqueza mundial pertence a meia dúzia de indivíduos, então somos todos escravos!

A propriedade legal ou legítima de um outro será assim apenas aquilo que tu reconheces como sua propriedade. Se deixares de o reconhecer, perdeu para ti a legitimidade, e te ris do direito absoluto que querem associar a isso” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 359

Repetimos: ausência de propriedade é impotência! Mais propriedade se reflete imediatamente em mais potência! Esta é a definição stirneriana de Eu-proprietário. Por isso a supressão da propriedade torna o indivíduo ainda mais dependente, mais incapaz, mais destituído, mais servil. Se há um proprietário supremo, então somos todos mendigos. Aí está a crítica de Stirner ao comunismo autoritário. Deus ou o Czar, a Igreja ou o Partido, não importa. Se o comunismo diz “a cada um de acordo com suas necessidades”, o egoísta diz, “Isto está bem, mas então estende a mão e apanha o que precisares”.

Apropriemo-nos delas, porque só assim elas serão nossa propriedade; também a propriedade que agora nos é negada foi parar nas mãos de seus proprietários porque eles se apoderaram dela. E ela será muito mais útil se estiver nas mãos de todos nós do que se forem apenas alguns poucos a desfrutar dela. Associemo-nos então para levar a cabo este roubo” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 322

Porque a propriedade não é sagrada! Ela está ali, para ser usufruída por quem pode usufruí-la. Ou seja, a propriedade não pode e não deve ser abolida! Deve ser tomada, arrancada, apropriada, ocupada! A plebe precisa aprender isso! Claro que o Único não pode ter tudo, como se fosse um deus (mesmo que alguns acreditem nisso)! Ele é único, mas em sua singularidade, não em sua quantidade, muito menos em sua potência! Ah…. precisaremos aprender a dividir!

É o fim do mundo? Claro que não! Stirner não é o individualista burguês que constrói muros para falar de liberdade. Associação é liberdade! A liberdade anarquista sempre se afirma aumentando a liberdade dos outros. Dividiremos então, compartilharemos…sem problemas, mas porque somos cristãos desapegados dos bens materiais? Ou talvez porque somos bons samaritanos? Não, óbvio que não, dividiremos apenas porque é bom para cada um de nós, individualmente. Se dividimos algo, criamos alianças, evitamos rusgas, crescemos.

Aquilo de que todos querem participar será retirado ao indivíduo isolado que o queria só para si, será transformado em bem comum. Sendo bem comum, todos poderão ter parte dele, e essa parte é sua propriedade” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 321

Se dividimos nossos conhecimentos com os outros, eles podem nos ajudar quando precisarmos. Se emprestamos nossa propriedade, teremos um retorno caso haja necessidade. Uma mão lava a outra. A propriedade se faz nas conexões, nos fluxos, na circulação. Nos apropriamos do que podemos e do que nos fará bem, dividimos o que podemos, e nos fará bem. Estamos na mesma página ainda… o anarquista não coloca nada acima de si, e se para ele for bom dividir, com bom grado o fará.

Mas o Estado quer mediar todas estas relações de propriedade. Ou melhor, como ele não é um ente abstrato, mas sim formado por pessoas que possuem o poder, os poderosos se utilizam da máquina pública para garantir e fazer prevalecer seus interesses. E nós aceitamos calados, comportados, como corpos dóceis, ovelhinhas adestradas. Se alguém vende produtos piratas, o Estado se irrita, e leva embora sua mercadoria. Se vende produtos pela internet, o Estado dá um piti e cobra sua taxa. Se quero me unir a alguém, por livre e espontânea vontade, o Estado exige que eu dê satisfação desta minha atitude.

Por isso vivemos na penúria, na miséria! Não podemos nos apropriar de nada! Basta que trabalhemos em nossas funções de explorados, paguemos impostos e tomemos uma cerveja na sexta feira. O Estado ama nossa miséria, quando mais fragilizados estivermos, melhor. Ele é o vampiro que todo o dia chupa um pouco de nosso sangue e nos deixa entorpecidos, mórbidos, enfraquecidos. Se antes diziam que não podíamos chegar ao céu sem a palavra do pastor e a bíblia como intermediária, agora precisamos do Estado para nos relacionarmos uns com os outros. Mediação, médio, mediatizado, medíocre. Este medo precisa ser vencido. Como? Reaprendendo a nos organizar e nos relacionar sem mediações, sem mediocratizações, sem burocracia, sem autoridade. O Único quer encontrar outro tão singular quanto ele, não tratar com escravos assustados que precisam da proteção do Estado.

O que nos prejudica não é o egoísmo humano, a insensibilidade dos ricos, nem o banco. O que nos prejudica é a falta de propriedade, e nossa incapacidade de torná-la nossa. O que nos prejudica é a facilidade com a qual cotidianamente nos expropriam. Fora com o Estado e viva o Único! Este é o caminho encontrado por Stirner. E isso só é possível readmitindo a ideia de propriedade. Quanto mais tudo passa para nossas mãos, menos o Estado é mais necessário. Não dizemos isso para falar de liberdade, ela se tornou uma ilusão, produto de nossa potência. Basta falarmos de propriedade, ela supera o direito e a Lei. Querem nos valorizar nos tirando coisas? Mas é isso é inadmissível! Queremos tomar aquilo que pode nos pertencer e criar novas relações e apropriações.

Concluindo, a questão da propriedade não é de resolução pacífica, como sonharam os socialistas e até os comunistas. Só será resolvida com a guerra de todos contra todos. Os pobres só serão livres e proprietários se se rebelarem, se revoltarem, se sublevarem. Por mais que lhes oferecerdes, vão sempre querer mais, porque o que eles querem é, nada mais nada menos, que finalmente se acabe com as dádivas” – Max Stirner, O Único e a sua Propriedade, p. 335

Texto da série: Eu-proprietário

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

4 comentários

  1. Diógenes diz à Alexandre, o Grande, quando este lhe pergunta qual pedido escolheria fazer ao poderoso e, neste momento, proprietário do império:

    “Não me tire o que não podes me dar”

    E Alexandre, que estava fazendo sombra em Diógenes, saiu da frente do sol que banhou o homem de luz.

    ~~~

    Além da física da propriedade, e das propriedades físicas, vibra um devir imperceptível, ritornelo do espaço, consciência tange e ressoa ecoando…

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  2. Ler sobre Stirner têm abalado minhas convicções., feito repensar conceitos. Muito grato por isso. Mas precisamos de prudência para explorar estes conceitos. Gostaria de sugerir que escrevessem mais textos diferenciando a propriedade Stirneriana e a propriedade liberal. AInda está muito fácil de escorregar nos conceitos liberais. Muitas citações poderiam ser facilmente distorcidas à revelia em prol de um discurso neoliberal. Muitos coxinhas poderiam ler o texto e achar que ele justifica sua cosmovisão tacanha.

    Curtido por 1 pessoa

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