Espinosa é o filósofo que busca, através do pensamento, encontrar um caminho seguro que leve da servidão à liberdade. Este é seu maior objetivo, limpar o terreno de toda a superstição, afastar o medo e conquistar uma alegria realmente ativa. Este também é nosso objetivo, e temos o filósofo holandês como grande aliado nessa empreitada.

O percurso não é fácil, sabemos que a tristeza é um afeto (bio)político muito mais comum que a alegria. Como vivemos na ignorância, passamos por um grande número de variações que apenas diminuem o nosso grau de potência e esse fechamento afetivo/corpóreo muitas vezes nos impede de encontrar saídas criativas mesmo para problemas mais simples.

Vivemos em servidão, triste, né? Mas Espinosa não se deixa abalar por isso… por mais que sejamos pequenos, ínfimos, em relação ao todo, ainda assim somos um grau de potência, e nosso conatus é este constante esforço para sairmos da servidão e  aumentarmos nossa capacidade de afetar e sermos afetados. Não somos Deus, cuja potência é absolutamente infinita, mas ainda assim temos um corpo e uma mente que se rearranjam constantemente nesta busca por se conservarem e se expandir.

A mente humana é capaz de perceber muitas coisas e é tanto mais capaz quanto maior for o número de maneiras pelas quais seu corpo pode ser arranjado” – Espinosa, Ética II, prop 14

Ainda estamos no começo da noção de plura simul, conceito que Espinosa só desenvolverá plenamente na última parte da ética. Sabemos que a mente é capaz de pensar muitas coisas, mas é preciso sempre lembrar que ela só é capaz disso porque faz parte de um corpo que é capaz de sentir muitas coisas. Os dois são atributos de uma mesma e única substância. Sendo assim, um corpo que se abre para o mundo, que experimenta diversas sensações, que se põe na linha de frente nesta busca que é viver é, simultaneamente, uma mente que se põe a pensar. Mente e corpo são um só (veja aqui), este corpo que se abre é também esta mente aberta para uma pluralidade de coisas que ela pode posteriormente concatenar de diversas maneiras. Um não está contra o outro, um não impede ou atrapalha o outro. Espinosa inverte a lógica tradicional para pensar que a grandeza da mente e do corpo são manifestações de um único e mesmo grau de potência.

E quanto mais esta mente é capaz de entender o que é sua própria essência, as maneiras pelas quais ela é mais afetada de alegria, tanto mais será capaz de agir para ir nessa direção. Aí está a beleza da filosofia espinosana: não é uma apologia da tristeza, da angústia! Muito pelo contrário, e isso que tanto admirava Deleuze, Espinosa é o filósofo das alegrias ativas, e a melhor maneira de encontrar isso é em ato, experimentando estas alegrias, mesmo que no começo elas sejam passivas, frágeis, pequenas, casuais e fortuitas.

Ao entendermos nosso próprio corpo, o que há de comum entre ele e o mundo que nos cerca, estamos saindo do conhecimento confuso, imaginativo, para entrar na Razão. Sim! E isso é importante de frisar: não uma razão fria e calculista, mas uma impregnada pelos afetos! Este conhecimento das propriedades comuns, enraizado no mundo, é muito mais seguro que o conhecimento supersticioso, por ouvir dizer, apenas baseado nas imagens confusas que são trazidas à mente. Afinal, queremos sair do que há de confuso e efêmero para entrar na eternidade!

Esta eternidade pode ser alcançada através do que Espinosa, em vários momentos da Ética, chama de plura simul, que do latim significa aptidão para a pluralidade simultânea. Isso vale tanto para a aptidão de sentir quanto para a capacidade de pensar. É a abertura do ser para a multiplicidade, para uma disposição muito mais ampla de estar no mundo. E é esta variação que usaremos para distinguir a diferença entre passividade e atividade. Ou seja:

É útil ao homem aquilo que dispõe o seu corpo a poder ser afetado de muitas maneiras, ou que o torna capaz de afetar de muitas maneiras os corpos exteriores; e é tanto mais útil quanto mais torna o corpo humano capaz de ser afetado e de afetar os outros corpos de muitas maneiras. E, inversamente, é nocivo aquilo que torna o corpo menos capaz disso” – Espinosa, Ética IV, prop 38

O que é bom? Do ponto de vista Ético é aquilo que nos afeta de alegria, aquilo que é útil para aumentar nossa capacidade de pensar, de afetar e de sermos afetados. Tudo está aí, nesta abertura do ser! Um corpo que se multiplica para dentro e para fora, que aprende inúmeras maneiras de existir, de estar no mundo, de atuar nele! Um corpo rico de possibilidades, de afetos, de encontros! Espinosa deixa a moral para trás e encontra um corpo vivente, ativo, ávido para mergulhar na existência, interagir com outros corpos e compôr-se com eles. Não é mais uma questão de regras e leis, mas de encontros! É isso que nos torna cada vez mais potentes, os bons encontros de que somos capazes!

Queremos compreender os afetos para melhor vivê-los, para não sermos escravos de suas variações. O homem virtuoso nasce destes bons encontros que estimulam a razão, esticam a alma e que nos fazem pensar melhor. Mas ainda não chegamos no conhecimento pleno de nossa singularidade e também não alcançamos a beatitude, para isso ainda faltam alguns passos.

Antes é preciso fazer uso dos remédios que Espinosa prescreve para os afetos (veja aqui). Sua eficácia é muito mais comprovada que a da indústria farmacológica. Primeiro precisamos, através desta capacidade de ordenar os afetos, concatená-los corretamente em sua ordem de causas e efeitos, eliminando a superstição. Encontrar as causas através da razão, que compreende a ordem da natureza e sua relação com nosso corpo. Desta maneira, estamos mais aptos para mergulharmos na natureza divina, ela não mais no parece perigosa, ameaçadora.

O que buscamos é um conhecimento claro de todas as coisas que estão em Deus, pois ele é a própria natureza e nós podemos e queremos compreendê-Lo! Esta potência do pensamento se torna cada vez mais um afeto poderoso que pode guiar nossas atitudes, porque é capaz de moderar, trazer medidas, encontrar caminhos e guiar-nos através das vicissitudes da vida. Este conhecimento nos remete à singularidade de nosso próprio ser, que Espinosa chama de Intuição, compreensão de nossa essência, que pertence à eternidade divina. Ou seja, o que um corpo quer, é aproximar-se cada vez mais de Deus!

– John Mortono

Quem tem um corpo capaz de muitas coisas tem uma mente cuja maior parte é eterna” – Espinosa, Ética V, prop 39

Eis que, desta maneira, alcançamos a beatitude. Nosso corpo está no limite do que pode! Batemos no teto do ser. Através do conhecimento de como somos afetados e afetamos, podemos responder à pergunta “O que pode o corpo?” que Espinosa faz no prefácio da terceira parte da Ética. Quanto mais conhecemos as propriedades comuns entre nós e os outros corpos que nos rodeiam, mais sabemos o que nosso corpo pode em relação aos outros, mais somos capazes de pensar e levar o corpo ao seu limite, ligando-o a várias outras coisas e aumentando seu grau de potência. A beatitude é o máximo grau de realidade que podemos atingir. O conhecimento se torna o mais potente dos afetos porque propõe afetos novos! Filosofia é conhecimento prático de como viver bem!

O que pode este corpo? Ora, primeiramente escapar de todos os afetos tristes que o perseguem. O Sábio se entristece muio menos porque entende a si mesmo e aquilo que o rodeia. Ele se permite outros afetos que não apenas um único que tomaria toda a sua existência. O vício, seja ele qual for, não é decorrência disso? Um conatus incapaz de realizar outros encontros, preso, escravo de um único afeto. É triste ver um corpo que não se permite mais do que pode, não se estica, não quer ir além, procura sempre a mesma repetição inócua.

Quantos afetos (bio)Políticos não são gerados desta incapacidade para a pluralidade simultânea? Ansiedade e Depressão são sintomas desta impossibilidade de interagir de maneira ampla com o universo à sua volta. A depressão num fechamento claro… e a ansiedade num girar em falso. Quantos horizontes não se fecham ao perdermos a aptidão para a pluralidade simultânea?

Enfim, Espinosa quer deixar tudo isso para trás. Compreender o corpo, pensá-lo corretamente em sua correlação com outros corpos em comum, é elevar a potência da mente até o infinito, porque o corpo também está em seu limite. Este ser singular sabe que é eterno e não mais teme a morte, porque todas as suas forças estão voltadas para a vida, para a criação, para a ação. E a sua compreensão o faz ver que a própria eternidade é aqui e agora, não em outro mundo, não em outra existência. Percebemos que temos parte na potência de criação divina, somos parte da eternidade que se cria constantemente.

Esta mente agora pode ser causa adequada de suas ideias, fruindo de uma autêntica liberdade. Eternidade é ser causa de si em Deus, e este corpo, dentro da duração, pode, com estas ideias, regular estes múltiplos afetos de que é capaz e aumentar sua potência até o limite do que pode. Se Deus é causa de si e portanto é livre por sua própria necessidade, nós somos livres pela potência de nosso corpo e mente aptos para serem plenamente preenchidos por uma pluralidade de afetos e ideias que nos levam a experimentar a potência e saúde corporal e a potência e eternidade da mente.

Assim, esforçamo-nos, nesta vida, sobretudo, para que o corpo de nossa infância se transforme, tanto quanto o permite a sua natureza e tanto quanto lhe seja conveniente, em um outro corpo, que seja capaz de mitas coisas…” – Espinosa, Ética V, prop 39, esc

A filosofia de Espinosa quer nos levar sempre um passo adiante, para que possamos nos apropriar de nós mesmos e criarmos existências ativas. Um corpo e uma mente fortes aptos para uma pluralidade de afetos novos, transbordante de vida e de criações. Poderia haver um objetivo melhor para a filosofia? Não, o caminho que Espinosa segue tem um única saída possível, a singularidade do Sábio que se distingue tanto do homem virtuoso quanto do Vulgar.

 Texto da série: Ética

– John Mortono

Escrito por Rafael Trindade

Artesão de mim, habito a superfície da pele.

4 comentários

  1. Muito bom! Apesar de não conhecer tanto Espinosa, tudo que leio sobre ele é muito interessante… Penso que o corpo encerra limites intransponíveis para uma mente em clausura, mas é obra prima em constante criação se, com a mente, ele acompanha a expansão… abç

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  2. Quando vou conversar com um teísta e não quero parecer muito agressivo acabo parafraseando Espinosa.
    Mas como estamos no meio de transvalorizadores e buscadores da filosofia como forma de viver saudável vou ser agressivo e verdadeiro, ok?
    A ideia de Deus sempre me foi muito incomoda desde o deus cristão ate os outros. A concepção espinosiana de deus ainda me aprece um tanto que moralista. Não existe a necessidade de chamar a natureza, o real de deus. Ainda é uma externalização, uma fuga da imediatividade com a realidade. Buscar a existência na sua pura essência ainda me aprece ser a maior luta de Nietzsche. O exercício metafisico de se criar definições de deus me aprece algo desnecessário e que esta ainda a favor de um “articulismo” das forças fracas. O afetar-se do “sábio” me aprece algo muito mais vivo, intenso e completo que o próprio deus.

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