As sociedades disciplinares são aquilo que estamos deixando pra trás, o que já não somos. Estamos entrando nas sociedades de controles, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea” – Deleuze, Conversações, 220

O conceito de Sociedade Disciplinar surgiu de uma análise dos processos históricos do século das luzes. Foucault se debruçou sobre a parte obscura da constituição dos direitos universais e da formação do homem moderno. Ficou claro que foi operando o conceito de Disciplina que estabelecemos todas as instituições de nossas sociedades industriais. A prisão em seu modelo panóptico, surgia como o padrão para o uso do espaço e do tempo.

Vinte anos depois, Deleuze revisitou o conceito de disciplina tentando identificar a sua transformação não apenas de força local em tecnologia política, como pensou Foucault, mas também como generalização social. Mais importante que isso, ele identificou que novas forças entravam em jogo e que, assim, o conceito de disciplina não dava mais conta da realidade. Longe de ser descartado, o conceito fora superado.

É na entrevista dada a Antonio Negri em Conversações (1990) que a ideia de Sociedade de Controle aparece. Deleuze então dedica um pós-escrito de algumas páginas sobre o assunto. É pouco material se restringirmos o novo conceito a estas páginas. Mas não seriam os dois tomos do Capitalismo e Esquizofrenia escritos junto à Guattari um grande conjunto de filosofia política que aponta para a formação de um novo tipo de sociedade? Assim, conceitos como Axioma, Rostidade, Territórios são fundamentais no entendimento dessas novas forças em jogo. Vamos entretanto nos ater a leitura deleuziana do conceito de Disciplina e à criação do conceito de Controle.

A Disciplina é uma maneira de se exercer o Poder, sendo este uma relação de forças que só reprime em última instância. A vigilância permitia que a disciplina operasse com um custo reduzido o que, por sua vez, difundiu os mecanismos disciplinares socialmente. A formação da sociedade disciplinar se dava nesse processo de produção de individualidade onde cada um é vigia de si e dos outros.

Deleuze chama atenção para uma transformação específica. A Sociedade Disciplinar operava pelo encarceramento, isto é, pelo confinamento massivo. O espaço fechado era o lugar da disciplina. A generalização social da Disciplina depende, no entanto, de alguma abertura. É preciso que os fluxos de Disciplina corram pelos espaços. Assim se apresenta a tendência da Disciplina em tornar-se Controle.

Neste sentido, a escola deixa de ser apenas o espaço da educação das crianças. Ela passa a envolver também a família, bem como o hospital. Foucault já tinha apontado para isso com a Biopolítica, enquanto um tipo de gestão da vida como um todo. Por isso mesmo, Deleuze diz que Foucault já sabia que as sociedades marcadamente disciplinares estavam chegando ao fim. A Sociedade de Controle nasce da combinação entre Disciplina e Biopolítica.

O que é a Disciplina para Deleuze? É um poder que interfere no mecanismo fundamental de todos os corpos. “Somos corpos em diferenciação”, ele diz. Temos uma virtualidade, um lugar que contém a nossa potência: “O que pode o corpo?“. E temos uma atualidade, aquilo que passa da potência da para existência: “O que é o corpo”. É nesse meio que age o poder. Ele funciona como um filtro: o que passa para a realidade deve ser filtrado…

O Estado e o Capital – hoje, quase uma só e mesma coisa – se apropriam dessa nossa capacidade de diferenciação. Sua necessidade é de integrar as singularidades em função de um objetivo comum. Por isso, a disciplina se apresenta como uma integração, enquanto uma linha de força que precisa fixar os múltiplos corpos atravessando-os por uma mesma forma.

Encerrar o fora, aprisionar o virtual, significa neutralizar a potência da invenção e codificar a repetição para subtrair dela toda possibilidade de variação, para reduzi-la à simples reprodução” Maurizio Lazzarato, As Revoluções do Capital

A Disciplina é um tipo de captura. Afinal, Foucault não nomeia instituições de sequestro à toa. O que se aprisiona é a diferença. A diferença enquanto diferença ou a diferença que faz diferença. A capacidade de diferir deve ser regulada. Codificação das virtualidades, das variações possíveis, dos agenciamentos moleculares. Dos mil sexos, extrai-se o dualismo. Não há espaço para o Devir! Tradição, gestão e progresso, mas Devir, não!

Emiliano Ponzi

Deleuze vê nisso um processo de refinamento da Disciplina que acaba por transformá-la em Controle. À delimitação rigorosa das sociedades disciplinares ao espaço e ao tempo soma-se o controle da criação e do acontecimento. A invenção só deve acontecer em horário comercial. A criatividade tem a Empresa como lugar definido. A diferença vale tanto quanto vende. O conceito é um comercial na televisão.

A questão é que a Disciplina tem seus pontos-cegos. Ela confina forças, mas não fluxos. Encarcera corpos, mas não ideias. Assim, a Sociedade Disciplinar entra em crise porque é impossível conter a multiplicidade. Por pura extravagância, a vida se apresenta como resistência. Os movimentos sociais do pós-guerra confirmam isso. Maio de 68, Primavera de Praga, Brigada Vermelha, Woodstock, Black Panthers… o melhor jeito de escapar do monstro enquanto modalidade de subjetivação é pela afirmação.

À revelia da enorme estupidez dos anos da guerra, representados em canções de luta e amor. Mas, infelizmente, o questionamento dos anos 70 não foi suficiente. Houve, desde então, uma aceleração da reorganização da Disciplina em Controle. O Neoliberalismo e o Mercado Mundial se apresentam então como as novas forças de dominação e favorecem uma nova ordem política.

A passagem da sociedade disciplinar à sociedade de controle se caracteriza, inicialmente, pelo desmoronamento dos muros que definiam as instituições. Haverá, portanto, cada vez menos distinções entre o dentro e o fora” Hardt, A Sociedade Mundial de Controle

O Controle é a nova maneira pela qual se exerce o Poder e ele se afasta da Disciplina no que concerne a disposição do tempo e também do espaço. Se a Disciplina marcava o espaço por Territorializações, o Controle marca por processos de Desterritorialização. Não se trata mais de capturar o virtual, como o “fora” entre corpo e a potência. Não há mais fora! Para que o Controle seja contínuo ele não deve apenas interferir na passagem do Virtual ao Atual, ele precisa represar a passagem. A condução dos fluxos numa Sociedade de Controle é canalizada, sintonizada, por que não.  Não se constitui um território onde a ação passe por um filtro, mas faz-se uma introjeção do filtro. O Virtual deve ser tomado pela Desterritorialização, isto é, a potência de um corpo deve ser controlada a partir de dentro. Dá no mesmo dizer que o que se deve capturar é o Desejo.

Se a Disciplina marcava o tempo pelo relógio, o Controle percebe que o tempo cronológico é, na verdade, pouco produtivo. É mais inteligente pensar qual o melhor momento. Em que momento pode-se extrair mais de cada tipo de corpo? Para cada corpo, uma medida. A captura do tempo se dará no campo da heterogênese. “Você rende mais à noite? Fique à vontade para fazer seu horário“. A produção não se dá mais em turnos, ela acontece o tempo inteiro.

É preciso falar também da mudança na produção de subjetividade. O Normal é produzido em espaço aberto. Não há mais passagem entre a escola, a faculdade e o trabalho. Há uma espécie de Conurbação Afetiva, bem monótona. O Controle atravessa as paredes pelas ondas eletromagnéticas para fazer circular um número ínfimo de afetos. Deleuze fala que o plano da vez é a educação nacional, e isto significa precisamente, a entrega da escola à empresa. Nossas escolas devem produzir bons “Empreendedores de Si”.

A sociedade de controle funciona por redes flexíveis moduláveis, como uma moldagem auto deformante que mudasse continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudassem de um ponto a outro” – Deleuze, Conversações

A ideia de Modulação se faz necessária para entender o conceito de Controle. A captura das multiplicidades se faz através de uma Modulação dos fluxos, tudo é muito mais moldável e flexível. Como uma peneira que tem sua trama modificada de acordo com o indivíduo, com o momento, com a cor da pele, com o gênero, com a orientação sexual… Para cada um, os fluxos devem passar de uma maneira diferente. Tudo diferente para que fique exatamente igual, assim se controla muito melhor. O que aceitar de cada subjetividade é mais interessante do que tentar encaixá-las em modelos. É assim que se produzem figuras como a do Negro dominado pela branquitude, da Mulher a serviço da empresa, do Homossexual com poder de consumo… Somos todos iguais e celebramos nossa diferença, contanto que o diferente aja dentro do que lhe é esperado.

Emiliano Ponzi

À serviço do Capital, o Controle nutre-se da alteridade. É possível ser mais claro? A submissão de qualquer diferença a um rosto interessa a partir do momento em que qualquer pessoa é um potencial consumidor! Não interessa mais excluir, mas o interesse pela inclusão se dá apenas pelo Consumo. O Controle, melhor que a Disciplina, tem a capacidade de orquestrar a diferença prendendo-a em um circuito de lucro.

Imensas novas forças estão implicadas na Sociedade de Controle: as bolsas de valores, os bancos, as empresas, a mídia, a publicidade. O processo de captura do Desejo não é simples. O Controle move enormes quantidades de força reacionária: uma Axiomática. Primeiro, é preciso que as pessoas acreditem que as demandas sociais são verdades inquestionáveis, que o país só cresce quando os bancos lucram, que o produto melhor é o mais novo, que o   metrô é o melhor uso do dinheiro público. Segundo, é preciso capturar as palavras perigosas. Experiência, conceito, ação, invenção. Só através da captura das máquinas de expressão é que se captura da multiplicidade em espaço aberto. É por esse motivo que as instituições da grande Mídia tem tanto poder. Ao disputar a narrativa, elas disputam a produção de pensamento.

A fábrica era um corpo que levava suas forças internas a um ponto de equilíbrio, o mais alto possível para a produção, o mais baixo possível para os salários; mas numa sociedade de controle a empresa substituiu a fábrica, a empresa é uma alma, é um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios, mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos” – Deleuze, Conversações

Capital, eis o axioma fundamental. Por isso dois livros inteiros com o subtítulo “Capitalismo e Esquizofrenia”. Em nossas sociedades tudo se dobra em frente aos grandes valores: Números com muitos zeros à direita, pessoas com muitos zeros à esquerda! Tudo se justifica com o argumento da grana. Manobras em tempos de crise? A crise é full-time. Tudo se aceita em nome de um bom emprego. Emprego de quê? De nossas forças, é claro.

Não podemos nos habituar com a vida triste de nossas Sociedades de Controle. Obedecer já não é mais questão de disciplina, mas de hábito. É preciso combater isso! Conseguiram camuflar os problemas introduzindo uma Axiomática em nossas cabeças. Precisamos recuperar o plano que dá sentido aos problemas, mas precisamos antes voltar a enxergar os problemas. Vivemos numa guerra, precisamos de novas estratégias! Voto de Pobreza? Talvez, mas é apenas uma. O que é inquestionável é a necessidade de questionar! Posicionar-se é a primeira manobra de resistência!

Acreditar no mundo é o que mais nos falta; nós perdemos completamente o mundo, nos desapossaram dele. Acreditar no mundo significa principalmente suscitar acontecimentos, mesmo pequenos, que escapem ao controle, ou engendrar novos espaços-tempos, mesmo de superfícies ou volume reduzidos” – Deleuze em entrevista a Antonio Negri

> Texto da Série: Sociedade em Crise <

Escrito por Rafael Lauro

Sou formado pelos livros que li, pelas músicas que toquei, pelos filmes que vi, pelas obras que observei, pelos acontecimentos que presenciei e pelos relacionamentos que tive. Sou uma obra aberta.

10 comentários

  1. Olá, Rafael,
    gostei demais desse texto, ainda o estou digerindo. Penso no quanto somos presas dessa sociedade de controle, penso também nas pessoas que não se deixam controlar sob nenhum aspecto, e como consequência, são marginalizadas e pagam um preço alto por isso.
    Foi bom fazer esta reflexão, ainda não tinha pensada que a sociedade da disciplina poderia se sofisticar e evoluir para a sociedade de controle. Dá medo, mas é um medo bom, pois instiga a resistir.
    Obrigada por compartilhar tão boa leitura.

    Vera.

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