A filosofia não vive apenas de proposição, o pensamento depende também de uma capacidade diagnóstica. Já dissemos em outro lugar: fazemos um diagnóstico em preto e branco visando uma filosofia em todas as cores. Nietzsche sabia bem que era preciso desconstruir o ser humano para que algo tivesse chance de o superar. Foucault nos mostrou que sua afirmação dependia de uma prática cinza. Deleuze e Guattari escreveram dois tomos do Capitalismo e Esquizofrenia: um diagnóstico (o Anti-Édipo) e um propositivo (Mil Platôs).

A origem de um conceito é sempre a tentativa de dar conta de um problema particular.  A potência de um pensamento depende dessa capacidade de extrair de um problema uma construção consistente, um recorte do caos. Os conceitos vão mais longe quando se associam em pares de crítica/proposição. Não faltam exemplos: Conhece a ti mesmo/Cuidado de Si;  Árvore/RizomaNiilismo/Eterno Retorno; Povo/Multidão; Poder/Potência; e uma infinidade de outros. São menos opostos do que complementares: juntos eles invocam um plano transversal que os atravessa e que convoca outras inúmeras regiões.

Assim criamos o conceito de Monopolítica como par do conceito de Micropolítica.  Há, sim, uma relação de negação mútua, mas apenas enquanto ela permite uma afirmação maior. O que não nos leva a falar de síntese, muito menos a ser dialéticos! Não são dois pólos de uma mesma coisa. São duas das inúmeras maneiras que conseguimos pensar política. Não somos dialéticos, pois não afirmamos a existência de um grande Não e um grande Sim. A Ética trava a dialética – o pensamento da multiplicidade é uma pedra no sapatos dos retóricos, críticos, lógicos…

Monopolítica fala de um maneira monótona de afetar e ser afetado, de um corpo social entupido de Afetos (bio)Políticos tristes. É um conceito que evoca conceitos de sociedades unívocas, onde as vozes dissonantes são silenciadas e onde a consonância é armada. O que sobra da política quando só uma voz dita as regras do jogo? Resta uma  massa de manobra de uma macropolítica cega. Somos balizados por princípios ignorantes de uma república infértil.

A Monopolítica não produz filhos, apenas cópias. Essa esterilidade política nos impede de agir em conjunto, de pensar um coletivo e, assim, a Micropolítica fica à margem. Sabemos muito bem nos relacionar, mas abrimos mão disso. Continuamos sendo pessoas que entram em relações umas com as outras, mas vivemos com uma intermediação incessante do Capital, da hierarquia, do Estado, em suma, do Poder. Nos transformaram todos em irmão do grande irmão, falsos filhos de uma axiomática capitalista.

Por Poder, entendemos várias maneiras pelas quais a tristeza se interpõe na relação. E sabemos bem quais são os seus subprodutos: impotência, moral, superstição e servidão. O que tentamos realizar com os textos desta série é uma análise de quatro formas atuais do exercício do Poder: Disciplina, Controle, Crise e Cansaço. Cada uma delas tomada numa análise social já realizada antes de nós.

Através destas leituras, obtivemos um olhar mais denso da nossa sociedade, o que nos leva diretamente a um aumento na nossa capacidade de atuar politicamente. O Poder é uma força que nos ultrapassa. Sabemos, inclusive, que ele nos usa em seu caminho, mas não nos deixaremos levar sem um pouco de resistência! Nosso pensamento não dá conta, mas oferece uma contracorrente. Nossa filosofia não esgota o assunto, mas permite um mapeamento do terreno. Nossas ideias são linhas de fuga em constante aceleração! Não conseguimos fazer o inimigo fugir, não há mais lado de fora, mas nos tornamos pouco a pouco capazes de reconhecer alguns aliados e isto é muito.

Textos da série:

  1. Foucault – Sociedade Disciplinar
  2. Deleuze – Sociedade de Controle
  3. Comitê Invisível – Sociedade em Crise
  4. Byung-Chul Han – Sociedade do Cansaço

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Emiliano Ponzi