A filosofia é um construtivismo, e o construtivismo tem dois aspectos complementares, que diferem em natureza: criar conceitos e traçar um plano” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p.  45

O que queremos, mais do que tudo, é fundar um plano de imanência radical, sem espaço algum para a transcendência. Um plano completamente novo, passível de ser povoado por novos afetos. Um espaço onde os conceitos habitem em plena potência, um platô pleno, consistente.

Os conceitos e o plano são estritamente correlativos, mas nem por isso devem ser confundidos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 45

Se os conceitos são ferramentas criadas para resolver problemas, significa que eles habitam um plano de imanência, onde estes problemas se colocam. O plano é o espaço diagramático por onde as coordenadas intensivas dos conceitos se movem. Se os conceitos são acontecimentos então o plano é o horizonte dos acontecimentos, precisamos dele, mas mais do que isso, nós o criamos.

É através do plano de imanência que nos orientamos no pensar, ele é o primeiro recorte do caos, ele opera as conexões entre os diversos conceitos que o habitam. Se dissemos que os conceitos são elásticos, então precisamos dizer que o plano deve ser fluído. Um se ajusta ao outro. É apenas traçando um plano que é possível envolver a velocidade infinita dos conceitos. Não podemos esquecer, a filosofia cria conceitos para enfrentar o caos, para isso ela precisa erigir um plano que dê conta de tal tarefa sem perder o infinito.

Cada plano de pensamento selecionará uma parcela do movimento infinito. Sendo assim, cada plano erige para si uma imagem do pensamento, que por direito, selecionou para si. Tudo está sempre relacionado com uma maneira de afetar e de ser afetado, a forma com a qual um corpo recorta as forças do mundo. Desta forma o plano de imanência vai se tecendo, como num gigantesco tear, procurando manter os enlaces de suas ideias.

Vários plano se sucedem na história da filosofia, são como múltiplas realidades, mas na mesma existência. Podemos supor uma multiplicidade de planos, porque o caos abarca a todos eles. Sendo assim, nenhum plano pode se dizer total sem recair no caos completo. E nenhum plano é filosófico em si, porque a filosofia começa apenas com a criação de conceitos. Mas não tem problema algum, o não filosófico habita o coração da filosofia, não é seu inimigo.

Pensar é sempre seguir a linha de fuga do voo da bruxa” – Deleuze & Guattari, p. 53

Cada plano traz consigo um crivo, uma imagem do pensamento, selecionando problemas e movendo o pensamento de maneiras diferentes. Pensamos na superfície do mar ou as dunas de um deserto, que está sempre em movimento, mas oferece um plano de sustentação onde os conceitos podem se mover. Do caos se cria um plano, ele instaura a possibilidade de filosofar, é nele que algumas coisas começam a aparecer de modo mais definido.

Então, resta aos conceitos traçar as ordenadas intensivas destes movimentos infinitos, como movimento eles mesmo finitos que formam, em velocidade infinita. Contornos variáveis inscritos sobre o plano. operando um corte no caos, o plano de imanência faz apelo a uma criação de conceitos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 54

A filosofia torna-se um traçar mapas, um trabalho para cartógrafos, não de paleontólogos! O filósofo habita planos de pensamento, circula por eles, anda, se permite ser atravessado pelos afetos de cada plano, seu corpo ressoa, vibra. Há inúmeros mundos no mundo, cada um com seu universo, seus problemas, suas vidas, e seus conceitos. A filosofia é um espaço que se habita, oferecendo novas maneiras de pensar, precisamos entender mais de estratos e condensações do que de cronologias, sucessão de sistemas e verdades eternas.

Dentro do plano de imanência, erige-se uma imagem do pensamento, que cria modos de vida e traz valores. É isso, a filosofia é este apelo: criar conceitos dentro de um plano de imanência. Por isso é tão difícil quando dois planos de imanência entram em conflito. São como dois estrangeiros tentando conversar, não se fala a mesma língua, mesmo que se use a mesmas palavras. Aí está o horror da filosofia às discussões, ela não é intérprete de ninguém, não se presta a isso. É função da filosofia traçar planos, colocar seus problemas e criar conceitos. Nada além disso, não podemos pedir por mais, ou melhor, não queremos pedir por mais.

– Simon Kenny

Mas uma coisa é muito importante: o plano quer manter-se horizontal, em suas conexões e operações, sempre aberto e liso. A imanência engole sábios, profetas e deuses malcriados. Nela, os conceitos se relacionam diretamente, sem necessidade de operações hierárquicas ou suprassensíveis. Enfim, a imanência existe em si e é por si concebida, tal como nos ensinou Espinosa. Imanência é sempre em si, nunca por outro. O filósofo traça planos, mas não é seu dono, não é seu mestre, não manda nem desmanda nele.

A filosofia se faz no real, encarando-o, não virando o rosto para esta existência. Por isso a imanência é sempre e apenas em si mesma, não a algo superior ou exterior. Não há um além nem um detrás! A eternidade é aqui e agora, uma gigantesca roda que gira por si mesma. Somente desta forma temos um plano! Sendo assim, eis o perigo, basta frear as velocidades infinitas para corremos o risco de colocar a transcendência no seio do imanente. (Filosofia, Ciência e Arte sofrem desta tentação). Quando o movimento para, a transcendência retorna com força total, ergue-se com violência e assume seus poderes anteriormente depostos.

Há religião cada vez que há transcendência,  ser vertical, Estado Imperial no céu ou sobre a terra, e há  filosofia cada vez que houver imanência” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 54

Para podemos filosofar, é preciso expulsar toda a transcendência do plano de imanência, ou seja, todas as desacelerações, todos os refreamentos, todos os fechamentos, permitir que os fluxos operem conexões e que o pensamento aconteça em sua velocidade infinita. A filosofia ama o Caos, ela precisa deste combustível que a faz mover-se! O filósofo habita este mundo onde o movimento tomou conta de tudo. Não há espaço para imagens perenes, eternas. Como dissemos, não há altar para as ideias! O próprio horizonte se movimenta, o próprio planeta se movimenta, o próprio universo é movimento contínuo e infinito. O plano de imanência não oferece verdades fixas, apenas diagramas de intensidades.

Vagamos por entre a transcendência e o caos, entre a medida e a desmedida. É necessário prudência! No caos tudo perde a consistência e coerência, nada é possível, às vezes nem mesmo retornar dele. Mas na transcendência tudo se torna rígido e fechado, os conceitos perdem sua fluidez e morrem. Muitas coisas ameaçam um plano de imanência de afundar no caos ou ascender aos céus, criando uma tenebrosa sombra: a burrice, a amnésia, a afasia, o delírio, a loucura…

Mas a maior ameaça ao plano de imanência é orientar-se pelo erro como ameaça e pelo Verdadeiro como norte. O medo de errar, cair na imperfeição sempre foi um dos medos da filosofia. Ora, mas por que? O plano é traçado e os conceitos são criados (ou atualizados). O que mais poderíamos pedir além de poder dar vazão à nossa vontade de criar conceitos? Se eles não servirem para nada então que sejam jogados fora! Não existe erro na filosofia, existem apenas problemas mal formulados e mal respondidos.

O mesmo vale para a Verdade, sempre impositiva com sua letra maiúscula. Nesse sentido dizemos com confiança: somos pecadores! Nos chamem de equívocos, porque não há mais uma linha reta até a verdade! O conhecimento é aprender a povoar um plano atravessado de afetos. O conhecimento quer tornar-se o mais poderoso dos afetos (veja aqui). Fomos expulsos do paraíso e não queremos mais para lá retornar. O pensamento não deve ser guiado pela ânsia da calmaria e do descanso. O plano de imanência é a arena onde existe amizades e desavenças e o ato de traçar planos e criar conceitos é eterno.

O tempo filosófico é assim um grandioso tempo de coexistência, que não exclui o antes e o depois, mas os superpõem numa ordem estratigráfica. é um devir infinito da filosofia, que atravessa a sua história mas não se confunde com ela. […] A filosofia é um devir, não história; ela é coexistência de planos, não sucessão de sistemas“ – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 72

Por isso os planos flutuam como folhas ao vento, como verdadeiros multiversos, com suas leis, fluxos, conceitos. E quantas vezes eles não se encontram e geram explosões, flutuações, desequilíbrios? Quando a filosofia traçada por Nietzsche encontra Espinosa podemos ver oscilações por toda parte, harmonias e desarmonias. Big-Bangs! O que dizer de Freud e Marx? Ou quando Deleuze e Guattari escrevem à quatro mãos? É toda uma instabilidade, um tremor, que abala as estruturas de cada um. Todo filósofo cria mundos! O plano de imanência é a gigantesca nuvem de gás que gera novas estrelas na galáxia dos conceitos! O plano de imanência é o campo fértil onde a vida quer crescer, um berçário de conceitos

É por isso que os planos podem ora se separar, ora se reunir  – Na verdade, tanto para o melhor, quanto para o pior“ – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 72

O plano de imanência é um gigantesco tear, que faz e desfaz o pensamento. O plano de imanência é o mar, no qual queremos navegar, o deserto que queremos atravessar, o concreto que o praticante de Le Parkour encara, a corrente de ar que sustenta o voo do pássaro. Nós não o vemos, mas ele está lá, esperando para ser traçado, vivenciado, percorrido. Ele oferece um mapa, mas não um caminho, oferece um platô, mas não uma direção!

A ida-e-volta incessante do plano, o movimento infinito. Talvez seja o gesto supremo da filosofia:  não tanto pensar o plano de imanência, mas mostrar que está lá, não pensado em cada plano […]  o que não pode ser pensado, e todavia deve ser pensado – Deleuze & Guattari, O que é Filosofia?, p. 73

Texto da série: o que é a Filosofia?

– Simon Kenny

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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