Jamais dos traços intensivos [conceito] são a consequência dos traços diagramáticos [plano de imanência], nem as ordenadas e intensivas se deduzem dos movimentos ou direções. A correspondência entre os dois excede mesmo as simples ressonâncias e faz intervir instâncias adjuntas à criação dos conceitos, a saber, os personagens conceituais” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 51

Até o momento, vimos que o ato de filosofar envolver criar conceitos e traçar planos. Mas quem faz isso? Ora, poderíamos dizer simplesmente: o filósofo. Mas a resposta não estaria completa em todo o seu sentido e força. Existe algo entre o Conceito criado, ferramenta, e o Plano Pré-filosófico traçado. Quem opera esta conexão? O filósofo sai de si para filosofar, ele enfrenta as forças do caos, mergulha fundo e volta transformado, possuído, tomado por forças que não são suas.

O filósofo não pode filosofar sem transformar a si mesmo no processo. Como diagramar a vida e forçar o pensamento sem sucumbir ao caos das velocidades infinita? Para isso ele precisa de ajuda e proteção, ele precisa ser outro além dele mesmo. Todo filósofo se traveste, é um fingidor! Quem filosofa no filósofo são seus heterônimos: Personagens Conceituais.

Eles nem sempre aparecem explicitamente nos livros de filosofia, mas estão sempre lá, só observar com cuidado. Por vezes são caricaturas de si mesmo, tal como Diógenes em seu barril; outras são recriações de figuras existentes, tal como o Sócrates de Platão andando por Atenas; existem algumas criações fantásticas como Zaratustra descendo a montanha, o Demônio aparecendo na calada da noite ou o Homem Louco caminhando com uma lanterna em plena luz do dia, todos paridos por Nietzsche; temos também algumas figuras mais anônimas, como o apostador de Pascal; e, por fim, algumas podem se aproximar de figuras históricas, tal como o Homem Revoltado de Camus. Retirar da história e dos mitos personagens conceituais permite ao pensamento ser movido por estes intercessores, mas todo personagem conceitual é puro.

Os personagens conceituais pertencem à filosofia é somente à ela, da mesma forma que a criação de conceitos e os planos de imanência! Isso porque os campos de conhecimento estão rigorosamente separados. Temos a Filosofia como a única que cria conceitos (estes sempre filosóficos), traça planos e convoca personagens conceituais para preenchê-los. Ainda assim, dirão Deleuze e Guattari, existem gênios híbridos. Os personagens conceituais podem misturar-se com os figuras estéticas: Dr. Rieux, de Camus, no livro A Peste; Zaratustra, que é tão artista quanto filósofo. Estes são chamados de Acrobatas Esquartejados, pois pulam de um lado para o outro, sem que possamos perceber.  

O personagem conceitual não é o representante do filósofo, é mesmo o contrário: o filósofo é somente o invólucro de seu principal personagem conceitual e de todos os outros, que são intercessores, os verdadeiros sujeito de sua filosofia. Os personagens conceituais são os ‘heterônimos’ do filósofo,  e o nome do filósofo, o simples pseudônimo de seus personagens” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 78

O Personagem Conceitual carrega o conceito em potência, ele é um bloco de afetos dentro do plano de imanência. O que o motiva é o gosto pelo pensamento, o interesse pelos problemas que permeiam o campo de imanência, sua avidez por aquilo que é notável. Ele anda pelo plano, vagueia absorto, observando tudo e, ao mesmo tempo, ele gosta de andar pelo plano e observar tudo, sentir as forças que o atravessam, sentir-se afetado por tudo aquilo. Sua vontade mais sincera é de realizar novos encontros, levar o pensamento o mais longe possível.

O Personagem Conceitual é um estrangeiro em sua própria terra, ele quer criar, trazer algo de novo para dentro do lugar onde agora habita. Sua existência flui entre o plano e o conceito. Poderíamos chamá-lo de “leva-e-traz”. Se o plano é imanente, se ele permite que o Fora coexista, que as forças se encontrem e operem conexões, então o Personagem Conceitual criará conceitos imanentes, para dar conta deste mundo, desta existência. Caso o plano seja fechado em si, engessado, rígido, claustrofóbico, então os conceitos aparecerão sob a sombra da transcendência (quem cria conceitos desta forma é o Sacerdote Ascético, mais um dos grandes personagens conceituais inventados por Nietzsche).

O fechamento para o Caos cria conceitos estéreis e inúteis para nós, precisamos sempre deixar uma fresta aberta para contemplar este monstro que nos espreita. O personagem conceitual encara de frente as forças que o superam, mas cria ferramentas para não ser engolido por elas. O Alpinista é um valioso personagem conceitual para nós! Ele encara a montanha, o cume é um monstro que o desafia: “Tu não me alcançarás, sou demasiadamente elevado para ti”. O plano de imanência é rochoso, absolutamente telúrica. Mas o alpinista é o personagem conceitual que enfrento o caos indistinguível das reentrâncias da pedra. Ele sobe, degrau por degrau, escavando, prendendo, agarrando, forçando, perfurando. Seus conceitos são cordas e mosquetões, botas e capacete, _______

Um personagem conceitual não foge, muito pelo contrário, ele faz fugir; ele não domina o caos, mas também não se deixa dobrar os joelhos. Seu único critério é a intensificação da vida! Por isso o filósofo está sempre grávido de personagens conceituais e estes estão sempre grávidos de conceitos!

Os personagens conceituais tem este papel, manifestar os territórios, desterritorializações e reterritorializações absolutas do pensamento. Os personagens conceituais são pensadores, unicamente pensadores, e seus traços personalísticos se juntam estreitamente aos traços diagramático do pensamento e intensivos do conceito” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 84

Por isso vemos como há a necessidade do personagem conceitual. Não podemos acreditar no espontaneísmo da filosofia, ela não é para qualquer um e não é feita por geração espontânea! Existe um ato muito sério, comedido e grave em toda filosofia, mesmo que o personagem conceitual pareça dançar com leveza. Tirar leveza do mais pesado é o objetivo do filósofo ao criar personagens conceituais.  

– Simmon Kenny

Traçar uma linha do plano ao conceito, cuidar para criar rizomas, entre vários conceitos. Seu olhar sobre o plano é importantíssimo e o filósofo não poderia fazer isso sozinho, ele precisa de companhia, mesmo que seja sua própria companhia multiplicada e travestida. Cada personagem conceitual que o filósofo cria são tribos que preenchem seu deserto, por isso eles possuem características muito particulares:

  • Traços relacionais: Os personagens conceituais possuem uma maneira própria de afetarem e de serem afetados. Eles andam por aí e se encontram com os outros, Sócrates na ágora, Sócrates no mercado, Zaratustra descendo as montanhas, Zaratustra chegando na cidade. O Plano de Imanência sempre afeta o personagem conceitual de diversas maneiras, e é assim que ele se torna capaz de criar conceitos;
  • Traços dinâmicos: O personagem conceitual se faz nos verbos. Dionísio dança, Diógenes late, o Nômade anda, eles são atletas do pensamento! Para fazer o pensamento deslizar é necessário colocá-lo à prova, verificar quais são seus limites, jogá-los no mundo e entender do que são capazes. Neste sentido, a filosofia é uma prática exaustiva, mais atlética do que acadêmica;
  • Traços jurídicos: Existe uma justiça para além do bem e do mal, para além do ressentimento e da má consciência, é lá que o personagem conceitual habita. Para ele não é possível pensar em um plano transcendente, mas é possível pensar em uma justiça imanente, à maneira de Espinosa. A perfeição está aí, ela é aqui e agora. Como entender que tudo é justo? Ou melhor, como tornar tudo justo por si mesmo? Mais jurisprudente que juiz,  personagem conceitual cria leis, é um legislador;  
  • Traços existenciais: A filosofia, ao medir valores, cria olhares sobre a vida, possibilidades de vida, modos de vida. A seriedade da filosofia está aqui, ela é sempre existencial, sempre. De nada valeria a filosofia se não entrasse neste campo. (daí o horror das discussão infrutíferas e da contemplação). Filosofar é viver, uma maneira de viver, que para o Personagem Conceitual é enfrentamento do caos.

As possibilidades de vida com os modos de existência não podem inventar-se, senão sobre um plano de imanência que desenvolve a potência de personagens conceituais. O rosto e o corpo dos filósofos abrigam estes personagens que lhes dão frequentemente um ar estranho, sobretudo no olhar, como se algum outro visse através de seus olhos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 89

Acontece algo de improvável com os Personagens Conceituais, eles surgem num ato de afirmação, aliás, o conceitos e os planos também. Ou seja, o personagem conceitual é alguém que busca critérios de avaliação para a vida, esta vida. Quais são os problemas que precisam ser resolvidos? A grande tarefa dada a eles seja talvez voltar a acreditar neste mundo, criar conceitos que revigorem nossa crença neste mundo!

Não seria esta a tarefa mais difícil dos personagens conceituais? Uma aposta no devir, uma crença na vida, um esforço a mais para se intensificar a existência. Por isso o personagem conceitual cria conceitos e os joga na mesa dizendo “eis as minhas criações, de que maneiras elas te servem?”. Caso não sirvam para nada, joguemos fora tudo e comecemos do zero, não temos nenhuma pretensão à eternidade.

É por isso que podemos dizer que os personagens conceituais insistem! Sua principal característica é insistir na criação de conceitos e no traçar planos. É uma posição privilegiada. Ao insistir na imanência, eles são capazes de dar consistência aos conceitos! Eis sua função. Como o surfista que insiste na imanência do mar e cria manobras com sua prancha! Como o músico que insiste no plano sonoro e traça melodias consistentes! O gosto é a regra maior, nada além disso.

O personagem conceitual tem gosto pelo conceito bem feito, consistente, bem talhado, afiado! Sua pena é sua espada (veja aqui)! É um prazer manejá-lo para resolver os problemas que o plano coloca. Por isso Nietzsche fica exultante ao pensar o Eterno Retorno! Por isso a satisfação de Epicuro com o Tetrapharmakon! Por isso a excitação de Espinosa ao escrever a Ética.

As três atividades são estritamente simultâneas e não tem relações senão incomensuráveis. A criação de conceitos não tem outro limite senão o plano que eles vêm povoar, mas o próprio plano é ilimitado, e seu traçado só se confunde com os conceitos por criar, que deve juntar, ou com personagens por inventar, que deve entreter” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 94

Sendo assim, os diversos planos traçados se dobram e se desdobram, são fluidos. Os diversos personagens conceituais conversam entre si, realizam encontros, trocam afetos. E desta maneira os conceitos nascem, ressoando, se conectando com diversos componentes. A filosofia é dinâmica!

Nenhuma regra e sobretudo nenhuma discussão dirão a princípio se é o bom plano, o bom personagem, o bom  conceito, pois é cada um deles que decide se os dois outros deram certo ou não; mas cada um deles deve ser construído por sua conta: um criado, o outro inventado, o outro traçado” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 99

O personagem conceitual opera esta conexão explosiva entre o plano e os conceitos. No campo de guerra do pensamento, conceitos são como armas. No plano onde procuramos erigir e dar consistência, os personagens conceituais são operários não alienados do processo de produção.  

Texto da Série: o que é a Filosofia?

– Simmon Kenny

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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