Qual a relação do pensamento com a terra?” – Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia?, p. 84

O conceito só pode ser criado em um plano de imanência, o plano de imanência só pode ser traçado por um personagem conceitual, o personagem conceitual habita um plano, se desloca sobre ele extraindo conceitos. Tudo está amarrado, conceitos, planos e personagens não existem um sem os outros. Este é o objetivo de Deleuze e Guattari, criar uma Geofilosofia!

Por que Geo-filo-sofia?

  • GEO – Plano de Imanência – o solo absoluto, onde todas as forças se somam e se cruzam, a terra como grande territorializante e desterritorializante, com seus movimentos sísmicos, onde planos se fazem, se desfazem, se sobrepõem. Não é à toa que os planetas (incluindo o planeta Terra) derivam da palavra planétes, que significa viajante, errantes (nômades?)
  • PHILIA – Personagem Conceitual – aquele que preza pelo conceito bem feito, que junta e desjunta componentes para formá-lo. O amigo, mas ao mesmo tempo o rival, aquele que coopera na criação, mas ao mesmo tempo efetua destruições! Legisla, cria e destrói valores. Conexões e desconexões, carrega consigo um martelo para quebrar ou pregar.
  • SOPHIA – Conceitos – A sabedoria propriamente dita, o resultado do plano de imanência bem traçado e dos personagens conceituais andando pelo plano. Os conceitos são componentes que se condensam, que se coagulam, que insistem. Basta um acontecimento para que eles possam ser utilizados ou precisem ser atualizados. Não se trata de uma Verdade nas alturas ou nas profundezas, conceitos são sabedoria que cria uma superfície, que se torna consistente, são velocidades infinitas tornadas sustentáveis.

Se o objetivo de Deleuze no livro “O que é a Filosofia?” era falar concretamente, então aí está! Não poderia ser mais claro! A filosofia é, para a dupla de autores franceses, uma Geo-Filosofia. Ela nos protege do caos de maneira muito mais efetiva que a opinião, a contemplação, a discussão, a reflexão. A geofilosofia é a afirmação da potência do meio!

Qual o convite que Deleuze e Guattari fazem n’O que é a Filosofia? Simples, é para pensarmos diferente. Os autores nos convidam a olhar para a filosofia com outros olhos e, consequentemente, para a vida com outros olhos. A filosofia clama pelo novo, pelo movimento, por isso procura pelas condições (in)adequadas para fazer o pensamento brotar. Se estas não existem, então precisam ser criadas.

Para isso, Deleuze e Guattari precisam falar de um movimento nômade sobre o espaço. O personagem conceitual cria conceitos em movimento, porque este também está em movimento, e tudo acontece sobre um plano de imanência que também está em movimento. O próprio conceito é um movimento infinito que se atualiza por um tempo determinado, enquanto é útil, efetivo, intensivo.

Retornamos assim ao solo de onde os primeiros filósofos partiram. Os primórdios da filosofia estava preocupada com a Arché, a origem, por isso eles encontravam sempre a natureza ao seu redor, tudo é Água, dizia Tales, tudo é Fogo, dizia Heráclito. Pensar é habitar um solo, relacionar-se com ele, mas este retorno ao começo significa lidar o tempo todo de territorializações, desterritorializações e reterritorializações.

A filosofia foi uma coisa grega, embora trazida por migrantes. para que a filosofia nascesse, foi preciso um encontro entre o meio grego e o plano de imanência do pensamento”  – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 112

As palavras não devem nos assustar. Elas significam simplesmente o movimento que o pensamento faz (juntamente com o corpo) para fora de si, ao encontro (ou de encontro, ou desencontro) com aquilo que não é ele. A filosofia e os filósofos, por tempo demais, estiveram presos ao seu solo, à sua nação, ao seu tempo. Como filosofar com o peso do Estado e das tradições em nossos ombros? A desterritorialização que os estados nacionais operam, por exemplo, retira o filósofo de seu solo e o coloca na universidade, para canalizá-lo, impedir que o pensamento se torne rizomático.

Só se pensa sobre uma superfície, isso que os gregos queriam, isso que Deleuze e Guattari retomam. Pensar e habitar um solo, pensar aquilo que a terra tirá e dá em seus movimentos infinitos e ininterruptos. A filosofia precisa lutar contra a desaceleração, contra o pesado, o moroso. Seus conceitos são armas contra o pensamento sedentário, preso em suas elucubrações preguiçosas.

  • Contingência: cabe ao filósofo mostrar a inutilidade da necessidade. Na verdade, nada é necessário, apenas a posteriori, tudo acontece quase que por acaso, no sentido de sempre haver uma ponta de mistério em todas as coisas. O filósofo sabe que há muito mais de contingência do que de ordem no mundo em que habita. Isso não o incomoda…
  • Ambiente: saber que o ambiente é maior que a origem, que o presente possui tudo que a origem finge desvelar. Arrancar o pensamento do culto das origens primordiais e jogá-lo num meio, num território, numa habitat. O ambiente é maior que a origem, a superfície diz mais que a essência. 
  • Devir: retirar da história o papel de protagonista, grande coordenadora, diretora, da realidade. A história é sempre um a posteriori, ela não dá conta das forças subterrâneas que se movimentos e deslocam nosso mundo. Contra fatos trazemos devires, o extemporâneo, o inesperado, a surpresa. Encontrar o que há de anômalo, a-histórico, criar o que não se esperava. O pensamento não é o desvelar-se do conceito, não é o desenrolar da história, não é a abertura da interioridade do sujeito.

Quando a desterritorialização se faz de modo horizontal, então o pensamento pode fluir criando conceitos. O conceito é fruto da terra, que sustenta territórios. Não queremos dominar o mundo, tirando fotos de todos os cantos e controlando cada movimento (isso no remete a algum site de busca?). Queremos apenas cartografar nossos mapas, entender nossos movimentos sobre a terra.  Encontrar lógicas e sentidos diferentes dos convencionais. Desprezamos a universalidades que recobre tudo, prezamos pela singularidade que timidamente dá seus passos.

Eis a diferença entre pensar por conceitos e pensar por imagens. Os conceitos são horizontais, eles se movem pela terra operando conexões e desconexões. Não há nada de moral ou imoral nos conceitos, eles simplesmente se ligam por zonas de vizinhança, conveniência, potência. Um conceito não nasce para encontrar a verdade, mas simplesmente por consistência. A terra oferece este plano imanente que permite ao personagem conceitual criar conceitos. E quando o conceito se torna inútil? Ora, jogue fora! Recicle! Reinvente! Quando é hora de atualizar os conceitos? Quando eles perdem seu movimento no infinito. 

Mas é este personagem conceitual que traça novos planos, e, por ser nômade, se desloca para uma nova terra, convocando povos por vi. O pensamento nasce apenas do movimento sobre um plano. A emergência toma o lugar do descobrimento. Tudo emerge, como a montanha emerge do mar. O Personagem Conceitual anda pelo território como Nietzsche por Sils-Maria, como Sócrates no mercado, como Guattari pelos países. E quando um território se torna muito apertado, o filósofo se encarrega de apontar suas linhas de fuga!

Todo território possui suas linhas de fuga! Por isso a filosofia é tantas vezes confundida como utópica. É bem verdade que o filósofo fala desta realidade, mas sempre com outros fins, com a intenção de criar mundos! Ainda assim, ele não pode ser confundido com o utópico que foge deste mundo, não recaímos na transcendência. A utopia filosófica é a mais radical crítica de seu tempo, é a incitação para se viver de outro modo.

A geofilosofia foge da interioridade, foge da reflexão e da contemplação! O pensamento não se presta a isso! O pensamento nunca começa a falar sobre um conceito com “eu acho…”, a filosofia tem horror à opinião! Sair de dentro de si e efetuar encontros, que aumentem ou que diminuam a potência, é isso que leva o pensamento a ser pensado! Uma vida como experimento e cultivo de si.

Abandonar o pensamento focado em sujeito e objeto para concentrar-se na terra, no movimento da terra, em seus ritmos, harmonias retumbantes, a maneira como ela ressoa à nossa presença. O pensamento é a relação do sujeito com o solo que habita. A geografia torna-se aqui mais importante que a história. Uma geofilosofia é uma maneira de pensar os movimentos de superfície, as migrações, as correntes de ar e de água, os fluxos; a compreensão profunda das territorializações e desterritorializações que uma vida efetua.

A filosofia está sempre contra o seu tempo (no nosso caso, contra o capitalismo), explorando novos possibilidades de vida, e para isso, o pensamento sempre correrá o risco de ser entendido como utópico. Nós, contudo, o chamamos de heterotópico. Um outro lugar, um outro modo de viver e de pensar, tangente, horizontal, libertário, imanente, e por isso mesmo, revolucionário. A geofilosofia é resistência ao presente!

Agir contra o passado, e assim sobre o presente, em favor( eu espero) de um porvir –  mas o  porvir não é um futuro da história, mesmo utópico, é o infinito agora […]  o intensivo ou o intempestivo, não  um instante, mas um devir” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 135

Estes experimentos não podem ser documentados pelos livros de história, eles são acontecimentos, que mudam radicalmente a face do mundo, levando-o para lados completamente novos. Perdemos a noção de uma história linear e teleológica. Há sentidos, claro, mas não há metas. Há direções, mas não finalidades.

– Simmon Kenny

O que nos importa agora é analisar o conjunto de forças que constituiu determinado acontecimento, e que possibilidades ele nos abre, quais as brechas em sua constituição por onde um pouco de potência possa fluir. Trocamos a paleontologia pela genealogia. 

Pensar é experimentar, mas a experimentação é sempre o que se está fazendo –  o novo, o Notável, o interessante, que substituem a aparência de verdade e que são mais exigentes que ela. O que está fazendo não é o que acaba, mas menos ainda  o que começa” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 139

Fundar uma geofilosofia é levantar a cabeça dos livros e deparar-se com o mundo inteiro, um mundo que nos cerca por todos os lados, inclusive interiormente. Quando o filósofo sai para caminhar e encontra o mundo inteiro é que o pensamento pode tornar-se interessante. Como dizia Nietzsche, pensar com os pés, com o sobe e desce dos caminhos que se faz. Fazer do pensamento algo atlético, algo de cansativo, perigoso, cardíaco.

Com Deleuze e Guattari, a filosofia sai da torre de marfim, deixando para trás muita dinamite, exatamente para evitar a tentação de voltar. Renunciar às cátedras, rir da seriedade empoeirada, zombar das verdades vetustas. Filosofar é diagnosticar o virtual, seus aspectos interessantes e notáveis, para inventar novos modos de existências imanentes.

Em resumo, a filosofia se reterritorializa 3 vezes, uma vez no passado sobre os gregos, uma vez no presente sobre o estado democrático, uma vez no porvir sobre o novo povo e a Nova Terra” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 133

Texto da série: o que é a Filosofia?

– Simmon Kenny

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

4 comentários

  1. Eu penso que a Terra tece o nosso tempo com seu movimento, e assim, sabemos que é dia que é noite, que se passaram estações do ano, que se passou um ano. Então, para a Terra não há novo nem velho, nem passado nem futuro, mas o “infinito presente” citado no texto. Fora disso não há tempo. Talvez por isso seja tão difícil entendermos quando se fala em centenas de anos-luz, por exemplo. O tempo em relação ao Universo é absoluto, não se mensura.
    Tenho uma nova concepção do novo, a partir desse pensamento sobre a Terra e o tempo. O novo está dentro do velho, contido nele; e o velho está dentro no novo da mesma forma. Aquilo que julgamos velho pode ser o novo, meus cabelos brancos, por exemplo, brotam de mim como uma novidade do meu corpo.
    E neste sentido, novo e velho se relacionam; de maneira que um toma a forma do outro e cada um não tem forma própria, mas em relação ao outro. Como a Terra, em relação ao Sol e à Lua. O que há é movimento, transformação e criação incessantes.
    Neste sentido eu entendo agarrar-me ao chão, ao solo para pensar a existência. Tudo isso me deixa muito feliz!

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