Após termos definido o que é Filosofia para Deleuze e Guattari, é hora de entrarmos em outros campos tratados pelo livro. De maneira análoga, Deleuze define a Ciência e a Arte, ou seja, respeitando cada campo como autônomo, mas seguindo caminhos parecidos. No texto presente nos concentraremos na definição de Ciência, também abordado no livro “o que é a Filosofia“?

Da mesma maneira que para o fazer filosófico, o Caos também será o pano de fundo para a Ciência. Sendo assim, partimos de velocidades infinitas, um plano virtual onde nada possui consistência. A diferença entre os diferentes campos do pensamento está apenas no modo como cada um encara o caos, mergulha nele. No fim das contas, Filósofos, cientistas e artistas buscam, cada um à sua maneira, dar uma consistência ao Caos.

Diferente da Filosofia, a Ciência não cria conceitos (mas às vezes imagina que cria). Não está em seu campo trabalhar os conceitos. Por isso o cuidado de Deleuze ao separar bem cada campo e dar a cada um o que é seu. A Ciência também cria, mas quando cria são funções e proposições. Esta é a sua arma, sua especialidade, e apenas desta maneira ela pode ser definida com precisão: criação constante de funções.

Certo, então já sabemos o que a Ciência não faz, criar conceitos, e o que ela faz, criar funções e proposições, mas qual a diferença? Ora, Deleuze possui uma ideia clara da diferença entre uma e outra:

A ciência não tem por objeto conceitos, mas funções que se apresentam como proposições nos sistemas discursivos. Os elementos das funções se chamam functivos. Uma noção científica é determinada não por conceitos, mas por funções ou proposições” – Deleuze e Guattari, o que é a Filosofia?, p. 139

As funções criam coordenadas independentes para traçar um campo de diagramação. Já as proposições têm a função de traçar uma referência do estado atual das coisas. Ou seja, a Ciência não precisa da Filosofia para pensar, uma é diferente da outra: enquanto a filosofia procura manter o infinito em sua criação e atualização de conceitos para dar conta dos acontecimentos, a ciência procura por pontos de referência dos estados das coisas para responder às perguntas que ela própria coloca. Como já dissemos, a maneira de abordar o caos é diferente.

A Ciência não é impregnada por sua própria unidade, mas pelo plano de referência constituído por todos os limites ou bordas sob as quais ela enfrenta o caos. São estas bordas que dão ao plano suas referências; quanto aos sistemas de coordenadas, eles povoam ou mobilham o próprio plano de referência” – Deleuze e Guattari, o que é a Filosofia?, p. 142

A Ciência promove uma desaceleração, criando uma imagem do infinito, através de um ponto de referência. Seu objetivo é limitar o Caos para encontrar variáveis e constantes. Apenas desta maneira ela consegue operar decentemente. Caos não é desordem, mas velocidade infinita, e a ciência precisa recortar o infinito, retirando dele uma porção de finito para analisar. A Ciência renuncia ao infinito para ganhar a referência. Não há nada de errado nisso, nenhum demérito… cada forma de pensar utiliza-se de recursos diferentes para fazer coisas diferentes. As contagens e coordenadas da Ciência criam um plano de referência, por onde as funções e proposições se fazem.

Desaceleração é colocar um limite no caos, sob o qual todas as velocidades passam, de modo que formam uma variável determinada como abcissa, ao mesmo tempo que o limite forma uma constante universal que não se pode ultrapassar” – Deleuze e Guattari, o que é a Filosofia?, p. 140

Essa constante é que oferece um plano de referência no qual funções podem aparecer. Um limite na abscissa gera uma atualização do caos nas ordenadas. O estados das coisas passa a estar sujeito ao limite imposto pela função. A constante-limite aparece em relação com o conjunto do universo, onde todas as outras partes agora precisam se submeter. Trata-se de um enquadramento. A função suspende o infinito, dando condições do cientista mover-se em seu plano de referência com segurança.

Parece complicado, mas não é… Uma função é simplesmente um limite, uma variável independente, algo que não pode ser ultrapassado. Nosso melhor exemplo é a velocidade da luz, encontrada pela física moderna como uma constante universal. Ou seja, nada pode ultrapassar a velocidade da luz! Absolutamente nada! Não importa a velocidade ou o ponto de referência, a velocidade da luz será sempre a mesma. A partir daí, deste ponto de referência (a velocidade da luz é 299.792.458m/s), o cientista possui uma constante que permite criar seu plano de referência. Esta função cria limites que o cientista aplica para conhecer o mundo, como o do buraco negro, previsto na teoria da relatividade, de onde nem mesmo a luz pode escapar.

Mas isso também vale para coisas mais simples. Quando Andres Celsius adota uma escala onde o ponto de congelamento da água é igual a zero e o ponto de ebulição é igual a cem (daí o centígrados), ele cria um plano de referência, onde a temperatura será uma constante. Eis o plano de referência, tudo será olhado desde lugar a partir de então e outras funções poderão ser criadas. Estas funções criam limites como o Zero Absoluto, onde é impossível uma temperatura mais baixa. As funções criam limites em um plano de referência.

O Behaviorismo, criado por Skinner, também trabalha com pontos de referência, o comportamento, e com variáveis independentes. A Ciência do Comportamento trabalha com funções: reflexo condicionado, comportamento operante, reforço positivo, punição. São todas funções criadas dentro de um plano de referência, o organismo em relação com o ambiente. Em um plano de referência, o reforço como uma variável na abcissa X aumenta o número de emissões do comportamentos na abcissa Y.

O mesmo vale para a Biologia, que define a evolução das espécies através de variação e seleção. Temos um plano de referência com duas funções: variação e seleção. As duas funções são absolutamente necessárias dentro deste plano de referência, são limites. Através destas constantes invariáveis, a Ciência pode trabalhar e responder às perguntas que se propõem sobre a vida e as espécies.

Agora podemos ver como estão ao mesmo tempo próximas e distantes estas duas áreas do pensamento. O filósofo traça um plano de imanência, que recorta o caos, e o povoa com conceitos que cria; já o cientista cria um plano de referência, que faz um crivo no caos, oferecendo certos limites, estas bordas criam o plano de referência que será povoado com funções e proposições.

Mas e os personagens conceituais? Eles existem também na Ciência? Não… o personagem conceitual é uma figura exclusiva da filosofia. No campo da Ciência nós temos o personagem referencial. Ele ocupa um ponto, e deste ponto ele possui uma visão, um olhar. Darwin nas ilhas Galápagos, Einstein cavalgando um raio de luz, Skinner observando um ratinho branco na gaiola. O Personagem Referencial é assim chamado porque ele não é onisciente, onipresente e muito menos onipotente; ele só pode falar do que viu.

O personagem referencial é um observador parcial, do seu ponto ele encara o caos olho no olho e cria funções e proposições que se revelam nos seus experimentos e cálculos. Carl Sagan, cientista respeitabilíssimo, intuiu muito bem o que Deleuze quis dizer com criar planos de referência e funções. O cientista não passa de um Personagem Referencial, os discos da Voyager, que neste momento viaja pelo espaço interplanetário, contém portanto, referências, funções, que, imaginam os cientistas, darão conta de mostrar a qualquer forma de vida extraterrestre onde estamos e quem somos.

Sagan coloca de um lado do disco gravações dos sons da terra: trovões, ondas do mar, cantos de pássaros baleias, sons de trens e carros, saudações de vozes humanas nas mais variadas línguas (mas isso seria assunto para O que é Arte?). Do outro, o cientista coloca funções! Diagramas com funções definindo a localização do Sol através de quasares. Códigos binários, diagramas do spin de átomos de hidrogênio. Enfim, a linguagem da Ciência usada como ponto de referência daquilo que nós sabemos do universo.

A diferença entre Ciência e Filosofia é que a Ciência precisa desacelerar o caos para funcionar. O disco da Voyager, viajando pelo espaço, é o melhor exemplo disso: o infinito desacelerado na forma de diagramas gravadas em um placa de ouro. Que lindo! Suas invariáveis são o que a permitem caminhar pelo plano de referência. Isso vale também para suas proposições, que procuram mostrar o estado de coisas da maneira o mais fidedigna possível.

Aqui é preciso cuidado, porque a Ciência nunca renuncia ao Caos, mas precisa criar imagens imóveis para funcionar dentro dele. Isso não faz da Ciência um pensar que extrai verdades do relativo. Ou seja, ela ordena o caos através de certas variáveis e coordenadas com bases em suas observações e experimentos. O personagem referencial extrai o máximo de funções possíveis, não de uma verdade universal, mas de seu ponto de referência.

A ciência é paradigmática, portanto não possui verdades eternas. Há uma distância enorme entre religião, Ciência e Filosofia. As duas últimas se manterão sempre na imanência; a filosofia criando conceitos e a Ciência criando funções e proposições de caráter referencial. A religião é acusada de manter um fundo ordenado, teleológico, suprassensível. E é preciso muito cuidado para que a Ciência a Arte e a Filosofia não façam isso. Ou seja, mesmo operando um crivo ao caos e criando variáveis independentes, a Ciência está sempre em relação com o Caos!

Neste sentido sempre haverão buracos, cortes, bifurcações e rupturas. Exemplo: O plano de referência muda de Newton para Einstein. Se antes o tempo e o espaço eram fixos, agora eles são flexíveis e a própria luz é fixa. Ou seja, o plano de referência mudou radicalmente, as proposições mudaram, o próprio personagem referencial mudou, mas o intuito é sempre o mesmo, recortar o caos e traçar diagramas com funções. o mesmo vale de Watson para Skinner, de Lamark para Darwin e assim por diante.

O que é problemático é menos a relação da ciência com a filosofia do que a relação ainda mais passional da ciência com a religião. Como se vê em todas as tentativas de uniformização e de universalização científicas, à procura de uma lei única, de uma força única, de uma única interação” – Deleuze e Guattari, O que é a Filosofia?, p. 148

Encontramos aqui o maior risco para a ciência, quando ela se aproxima perigosamente da religião, procurando tomar seu lugar. Nietzsche chamou este movimento de Niilismo Reativo, onde o trono de Deus é ocupado por vários pretendentes depois de sua morte! Não é isso que queremos! A ciência deve sempre operar na imanência, sua maior defesa é estar sempre ciente de sua presença em um plano de referência parcial mergulhado no Caos.

Enfim, Ciência e a Filosofia são campos absolutamente diferentes, cada um opera analogamente, mas lidando com seus próprios problemas. A ciência cria um plano de referência e a partir dele cria funções e proposições, a Filosofia funda um campo de imanência e o povoa de conceitos. A Ciência realiza experimentos, a Filosofia, experimentações. As funções científicas são variáveis independentes (tais como a velocidade da luz, o zero absoluto, a variação genética), os Conceitos possuem variações inseparáveis de componentes. Se a Ciência constitui-se através do observador parcial, a filosofia possui os personagens conceituais. Ou seja, cada um procura lidar com a multiplicidade à sua maneira.

Texto da série: O que é a Filosofia?

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

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