Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 237

O Caos Caotiza, ele é ao mesmo tempo nosso aliado e nosso inimigo. Partimos ao encontro do Caos, queremos fazer dele um aliado, mas é nosso intento retornar mais forte, sem nos perdermos. Com a Filosofia, fazemos o percurso do Caos ao cais. Essa é nossa forma de dizer que o pensamento navega de modo frágil e ao mesmo tempo audaz num mar de forças, mas quer, hora ou outra, atracar, encontrar pontos de descanso, um pouco de consistência.

Muito cuidado neste momento! Porque para fugir do Caos nos escondemos embaixo de guarda-chuvas de opiniões prontas! Esse não é o caminho seguido por Deleuze e Guattari. Por isso seu horror por discussões (não procuramos uma verdade que passe pelo filtro da dialética), o medo da reflexão (não procuramos por verdades ocultas em nosso Eu Profundo), por isso sua desconfiança pela contemplação (filosofar exige agir).

Queremos rasgar o caos! Inicialmente para mergulharmos nele, mas para posteriormente estender sobre esse rasgo um plano! Isso mesmo, para inserir no Caos nossos próprio movimentos, nossas medidas, nossos critérios. Tudo o que pedimos é um pouco de calma em meio ao caos. Não queremos o apaziguamento das forças, pois sabemos que é delas que tudo é feito e constituído. Mas precisamos, vez ou outra de um passo pra trás, somente assim podemos dar dois passos à frente. Um pouco de Cais em meio ao Caos.

Se falamos de Filosofia, então queremos dizer: “Nos tragam conceitos! É imprescindível que tenhamos conceitos à nossa disposição!”. É isso que pede cada um dos filósofos, de conceitos para estarem à altura do caos. A filosofia enfrenta as meias-filosofias, de bar, de meia tigela, filosofias que prestam-se apenas à discussão, ou almejam o consenso!

O que o filósofo traz do caos são variações que permanecem infinitas, mas tornadas inseparáveis sobre superfícies ou em volumes absolutos, que traçam um plano de imanência secante: não mais associações de ideias distintas, mas re-encadeamentos, por zona de indistinção, num conceito” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 238

É isso que pedem os cientistas, cada um deles finca o pé em seu plano de referência para dizer: “Este é o estado das coisas, é assim que as vejo da posição que estou”. Os Cientistas criam funções, encontrar variáveis independentes, constantes e limites. Não porque odeiem o Caos, mas sim porque sentem por ele uma profunda atração. É seu prazer olhar para o abismo e ser encarado por ele. A ciência ama o caos e daria toda a sua vontade de unificação em troca de mais um pedacinho de desconhecido para mergulhar e explorar!

Cabe ao cientista, operando uma seleção e uma filtragem, conduzir gradativamente o Caos a centros de equilíbrio. Colocar limites e renunciar às velocidades infinitas. Essa é sua ferramenta, este é seu ofício. Com elas os cientistas combatem as superstições, as falsas proposições, as pseudociências.

O cientista traz do caos variáveis, tornadas independentes por desaceleração, isto é, por eliminação de outras variabilidades quaisquer, suscetíveis de interferir, de modo que as variáveis retidas entram em relações determináveis numa função” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 238

O artista talvez seja o mais ousado de todos, ele quer colocar o infinito no finito de uma moldura, entre as páginas de um livro! Extrair do caos, do mar de forças, do fogo infinito, uma obra de arte! É possível? Sim! Através de sensações, afectos e perceptos, o artista cria uma obra de arte, um monumento que sustenta-se por si próprio, iluminando o presente por um instante, materializando as forças que o atravessam. Através delas o artista enfrenta o clichê, o batido, o banal.  

O artista traz do caos variedades, que não constituem mais uma reprodução do sensível no órgão, mas erigem um ser do sensível, um ser de sensação, sobre um plano de composição, anorgânica, capaz de restituir o infinito” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 238

Nesta empreitada, o corpo é uma jangada. E para navegar usamos constelações de conceitos, criados por nós. Chamamos aquela lá de cruzeiro do sul, e navegamos usando as estrelas. São pontos fixos em meio ao caos, são conceitos traçados que sobrevoam o plano de imanência em velocidade infinita. Componentes horizontais no firmamento que se ligam pela nossa capacidade de juntá-los, agregá-los em variações inseparáveis conectadas para terem consistência e atualizar um acontecimento.

É como se se jogasse uma rede, mas o pescador arrisca-se sempre a ser arrastado e de se encontrar em pleno mar, quando acreditava chegar ao porto” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 239

Queremos criar e recriar conceitos com esse intuito! Juntar e separar ideias, ver o que acontece quando juntamos certos componentes com outros. Tudo numa grande experimentação! Voltando à comparação com as estrelas, queremos desfazer constelações, para criar outras, para navegar à nossa maneira, trilhar nossos caminhos, utilizando nossas bússolas, nossos nortes. Não seria possível traçarmos novos pontos cardeais? (Veja: cinco proposições sobre a astrologia)

Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz ou se constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica e lhe dá consistência (realidade). Um conceito é, pois, um estado caoide por excelência; remete a um caos tornado consistente, tornado Pensamento, caosmos mental. E que seria pensar se não se comparasse sem cessar com o caos?” – Deleuze & Guattari, p. 145

Queremos dobrar o Caos, driblá-lo, ludibriá-lo! Passar a bola dos conceitos por debaixo de suas pernas e gritar “Olé!”. Somos malandros! Não, o Caos não irá nos dobrar os joelhos, não nos submeteremos como pequenos servos dizendo “seja como tu queres”. Através da Filosofia nos tornamos capazes de atualizar o próprio mundo, navegar nas ondas dos acontecimentos, queimar em seu calor! Se o Caos é uma onde gigante, então aprenderemos a surfar! A filosofia tornou-se nosso chão e o ar que nos oferece linhas aéreas de fuga. Através dela adquirimos velocidades infinitas.

Nesse sentido, a filosofia, ciência e arte não passam de um campo de obras! Um gigantesco espaço onde construímos ferramentas (conceitos, funções, sensações) para erigir modos de vida! Eis nossa grandiosa tarefa! Não procuramos verdades no mundo das ideias, não procuramos conselhos de auto-ajuda, não procurar “quem somos realmente“. Queremos, mais do que tudo, experimentar e estabelecer novos modos de vida!

Por isso não se filosofa sem ousar, para encarar de frente o acontecimento, encontrando nele suas linhas de fuga criativas; permitir-se, para compreender que podemos seguir estes caminhos desconhecidos; inovar, porque cada trilha precisa ser construída e aberta; arriscar, porque nunca sabemos o desfecho de cada vereda; construir, porque necessitamos juntar tanto quanto desjuntar; fugir, não há pensamento sem se descolar e deslocar-se das amarras que nos prendem; movimento, eis todo o interesse da filosofia, seu gosto pelo movimento infinito do pensamento sobre um plano de imanência notável.

É tudo muito bonito! Mas percebam como estas palavras foram, todas elas, roubadas pelo capitalismo, pelo medíocre, pela fraqueza, pelo homem pequeno, empreendedor de si mesmo! Queremos reconquistar estes valores para o campo do pensamento, da vida ativa! Cuidado, não queremos jogar o jogo do lucro e da exploração! Contra o Capitalismo e a Esquizofrenia nós trazemos a filosofia, a ciência e a arte.

Os três planos são tão irredutíveis quanto seus elementos: plano de imanência da filosofia, plano de composição da arte, plano de referência ou de coordenação da ciência; forma do conceito, força da sensação, função do conhecimento; conceitos e personagens conceituais, sensações e figuras estéticas, funções e observadores parciais” – Deleuze & Guattari, O que é a Filosofia?, p. 255

Diferentes barcos, diferentes velas, diferentes lemes, diferentes firmamentos, diferentes direções. Mas coexistência de tudo em meio a tudo. Um pouco de medida na desmedida e um pouco de desmedida na medida. Cansamos de olhar o rio, queremos ser o rio! Seguimos assim incontáveis vezes do caos ao cais e do cais ao caos. Nessa jornada, nos abastecemos constantemente de conceitos, sensações e funções. Operamos trocas, medimos, valoramos, transvaloramos, são inumeráveis possibilidades, são vastos os caminhos.

Temos gosto pela luta. O esforço é sempre recompensado. Na Filosofia aprendemos a manufaturar aquilo que somos, ela é nossa companheira de viagem pelos infinitos caminhos que a existência nos oferece. Somos gratos pelos filósofos anteriores, que nos legaram tais ferramentas. Agora é nossa hora! Sempre e mais uma vez, insistentemente, do caos ao cais, como um navio desbravador, procurando atravessar o oceano desconhecido apenas com aquilo que tem, mas para chegar aonde?

O filósofo defronta-se continuamente com aquilo que não é. Ele clama por um povo para seu deserto. Seu desafio é simples, encontrar consistência, não se deixar levar, não abaixar as armas, não se render nunca. Contra a desmesura da existência ele possuem apenas uma coisa: criação constante e ativa de novos modos de vida. Eis a Filosofia, façam um bom uso.

Texto da série: O que é a Filosofia?

– Simon Kenny

Trecho do poema “Minha Prece

[…]
Vem! Vamos! Imediatamente! É agora a hora!
Anda, venham logo! É chegado o momento!
O céu não está firme (quem disse que estaria?)
Mas sinto nas veias, sem mais delongas, vamos!
Sem demora, o tempo encontrou seu instante!
Há no ar toda estática de um acontecimento!
Temos que aproveitar!

Eu pego um giz e faço um ponto,
Rabisco uma linha, traço um plano,
Dobro e, eis a meninice, faço um barco,
Desatraco do cais: Zarpo!
Mandaremos notícias…

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

4 comentários

  1. Trânsitos entre realidades, vigências do espaço, constatações ao tempo… O ser interpretando o redor e os redores que a ele alcançam, inquietam e por vezes, interpretam também. Em meio à ordem, à ordem do caos, é simples a forma como ideias podem alimentar e movimentar a essência… Me parece inclusive complexa a tentativa de verbalizar a resposta dos sentidos. Portanto, obrigado, Rafael Trindade. Prossiga compartilhando seus pensares e, por conseguinte, estimulando outros.

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