É difícil crer na existência de algo público nesse governo onde tudo é de um só” – La Boetie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 34

Como podemos crer na existência de uma democracia? Como acreditamos piamente que vivemos em uma república? Talvez por esta ladainha ser dita e redita diariamente. Mas certamente não a constatamos empiricamente. Sabemos, o poder está nas mãos de poucos que podem muito, uma pequena parcela da população desfruta de regalias e de uma absurda concentração de renda enquanto a maioria luta desesperadamente pelo pão de cada dia.

Somos livres? Não. Enquanto a justiça, o acesso à saúde, o direito à educação e mobilidade, o poder monetário, a segurança e o respeito forem dados a apenas algumas pessoas, não seremos livres. Enquanto estas poucas pessoas se utilizarem de nossas forças para viverem em meio à riquezas e conforto, não seremos livres.

A verdade dói, somos escravos modernos: nossas casas são senzalas; nossa demissão, alforrias; nossos salários, meio de subsistência. Desesperador, mas constatar isso talvez seja o primeiro passo. Vivemos para servir, fomos condicionados a isso, adquirimos reflexos de submissão. Dia e noite nos dizem que a ordem é nossa maior bênção, que a obediência nossa maior virtude. Mas onde está esta zona de conforto? Não existe! Nosso momento de descanso está intimamente ligado às energias que devemos recuperar para voltarmos ao trabalho. Nossa distração está ligada à exploração. Vivemos na miséria enquanto 1% detém metade das riquezas produzidas. Quem são estes 1%? É difícil de acreditar, mas fácil de constatar: alguns poucos são sustentados no alto por muitos que são pisados embaixo.

Mas ó, bom Deus! O que é isso? Que nome damos a esse fenômeno? Que infortúnio é esse? Que vício é esse, ou melhor, que infeliz vício é esse? Ver infinitas pessoas servindo em vez de obedecer; sendo tiranizadas em vez de governadas; sendo desprovidas de bens e parentes, mulheres e crianças, até mesmo de uma vida própria! Sofrendo pilhagens, as obscenidades, as crueldades não de uma armada, não de um exército bárbaro do qual devam, antes de tudo, defender seu sangue e sua vida, mas sim de um único indivíduo; não de um Hércules nem de um Sansão, mas de um reles homenzinho” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 36

Um reles homenzinho covarde, que nem merecia estar lá, mas está. Pode ser o presidente, o ditador, o chefe, o dono, o empreendedor, o comandante, qualquer um deles não passa de um reles homenzinho. Este homenzinho sente melhor que os outros, talvez por sua pele ser mais clara, talvez por ter feito intercâmbio no exterior, talvez por sentir-se merecedor. Não interessa, estes homenzinhos sentem que os outros devem prestar-lhe contas e obedecer suas ordens.

Onde há poder, há tirania. A pergunta é: por que alguém se submete? Ou melhor: por que muitos se submetem a tão poucos? Por que lhes engraxamos os sapatos, guardamos suas casas, passeamos com seus cachorros, cuidamos de seus filhos? La Boétie se questiona se seríamos covardes demais para fazer alguma coisa, o que numericamente seria fácil, afinal a diferença é gigantesca. Mas parece que criamos o hábito de nos submeter, é mais fácil, gera menos transtornos, assim, pagamos nossos alugueis, pedimos empréstimos e compramos em suas lojas. Um milhão de homens não deveriam temer atacar apenas um, mas as engrenagens da sociedade rodam, lubrificadas, sem que nada escape… “é assim desde sempre”, dizem.

É o povo que se subjuga, que corta a própria garganta, que, podendo escolher entre servir ou ser livre, abandona a liberdade e toma o jugo, que consente com seu infortúnio e até mesmo o busca” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 39

Somos escravos procurando por senhores, somos servos ávidos por um mestre! Não exigimos nem mais que assinem nossa carteira de trabalho! Parece que gostamos e preferimos assim, chama-se mercado competitivo. Assim, tudo que nos pedem, fazemos; todas as ordens são prontamente seguidas sem qualquer questionamento, sem a menor reflexão. “É o meu trabalho, eu tenho que fazer“, “são ordens superiores, eu tenho que cumprir“, “é o que a lei diz, então precisa ser assim“. Ao obedecer, o 1% se torna mais forte, praticamente invencível, do alto de seus arranha-céus, se tornam quase entidades divinas, mas não sabem nem limpar a própria bunda.

De maneira submissa, entregamos nossos ganhos, abdicamos de tudo produzido arduamente e colocamos de bom grado no colo de nosso senhor. E ainda agradecemos! Nos movemos como que enfeitiçados por alguma coisa maior. Sem nunca desviar de nosso curso. A servidão voluntária nos despoja de nossos bens, construímos casas… para eles, montamos carros… para eles, costuramos roupas… para eles, e assim a vida segue.

Aquele que tanto vos domina não tem senão dois olhos, duas mãos e um corpo, e em nada difere do homem ordinário de nossas grandes e infinitas cidades, exceto pela vantagem que vós lhes concedeis para vos destruir” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 42

Servidão é heteronomia: é o desejo submetido ao outro. É a vida vivida sob o signo da falta. Há sempre uma distância entre aquilo que se quer e sua realização. Servidão é o sentimento de vazio, alienação de nossa própria vida; desejo como falta, que nunca pode ser devidamente preenchida, satisfeita; servidão é impotência, uma vida de contrariedades. A tristeza, a melancolia, a raiva, a frustração, a esperança, o medo são seus afetos (bio)políticos.

Pawel Kuczynski

Mas de que adianta? O rei diz: eu sou a lei! E todos abaixam a cabeça. O primeiro ministro diz: eu estou no comando! E todos aquiescem. O presidente diz: fui eleito! E ninguém grita “foi golpe!“. O império do poder se faz sempre presente, e esconde-se atrás da pretensa legalidade para seu arbítrio e opressão. Todo discurso de poder é metafísico e teológico, já dizia Espinosa! Sustenta-se em supostas atribuições divinas e elevadas mas não passa da imposição de um modo de vida servil e impotente.

Como tal pessoa teria tanto poder, senão com nosso próprio consentimento? Não há armas e ameaças o bastante que um único homem possa segurar ou dizer que obrigasse a todas a se submeterem! Um único homem! Como ele faz? Ele jamais poderia intimidar a tantos sem o consentimento de outros que estão logo abaixo dele e já o servem! Como uma pirâmide montada onde cinco ou seis servem a este um, onde cinquenta ou sessenta servem a estes cinco ou seis, e assim por diante, tomando conta da cidade inteira, até chegar na nação inteira, milhões de indivíduos sorrateiramente conectados ao fio da servidão. Um cozinha, o outro lhe penteia o cabelo, o terceiro o leva de carro até o trabalho, um quarto lhe prepara um café, e assim por diante. Todos devidamente marcados, vacinados, hipnotizados, garantindo que tudo ocorra da maneira como o 1% gosta.

Não são as tropas de cavaleiros, não são os corpos de infantaria, não são as armas que protegem o tirano. À primeira vista, parece difícil crer, mas é a verdade: são sempre quatro ou cinco que mantêm o tirano, quatro ou cinco que mantêm todo o país em servidão” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 69

A servidão tem a forma de uma pirâmide! Simples assim! Quem está mais embaixo sustenta o que está imediatamente acima. Até chegar no topo da pirâmide, onde está toda a riqueza, ostentada, gasta na superfluidade, perdida em meio às aparências. Como um imã, tudo é atraído para o alto da pirâmide, todos os olhares, todas a atenção, toda a inveja, enquanto nos rastejamos aqui embaixo.

Mas como pode ser assim, se nada nos obriga a servir? Nada determina que seja assim! Mas é assim! Só olhar para o lado e ver. O vendedor apenas esperando sua hora de ir embora, o garçom que cuspiria na bebida de seu cliente se não precisasse sustentar seus filhos; as pessoas em situação de rua recolhendo latinhas e papelão para ganharem uma miséria na reciclagem e comprarem um prato de comida.

Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, os gladiadores, os animais exóticos, as medalhas, os quadros e outras drogas afins eram para os povos antigos, as iscas da servidão, o preço de sua liberdade […] as pessoas, apatetadas, achando belos esses passatempos, entretidas por um vão prazer que lhes passava diante dos olhos, acostumavam-se a servir” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 61

Há três meios pelo qual um tirano chega ao poder: pode passar de pai para filho, através do sangue (supostamente azul, mas sabemos que não); por força das armas, que o tomam de maneira violenta; ou, pior, por eleição do próprio povo, que escolhe o senhor a quem vai servir de quatro em quatro anos. Esta última deveria ser a mais insuportável, pois envolve nossa conivência. E é difícil aquele que subiu ao poder por “vontade popular” queira largá-lo facilmente.

Ainda vivemos como escravos, todos nós que nos submetemos aos mais vergonhosos empregos, às mais humilhantes relações hierárquicas. Nascemos e vivemos dentro destas condições, assim como todos os nossos ancestrais, desde os mais antigos, nem por um minuto imaginando que poderia ser diferente. Enfim, é o povo que gera o seu próprio infortúnio, pois foi ensinado a servir, e assim segue, do começo ao fim de sua vida. Saberiam fazer de outra maneira? Difícil responder, pois outra pergunta se torna agora ainda mais importante: gostariam eles de fazer de outra maneira ou servem voluntariamente?

Texto da série: Servidão Voluntária

Pawel Kuczynski

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

3 comentários

  1. Olá Rafael ,primeiramente gostaria de parabenizá-lo pelo belo e ao mesmo tempo revoltante texto . Sou leitor fiel de todos os artigos e cada um deles me toca de uma maneira diferente e me faz refletir cada vez mais acerca da realidade que me rodeia.
    Tenho muita vontade de cursar psicologia,e gostaria que ,se houvesse possibilidade,você falar um pouco de como foi sua faculdade e de como é ser psicólogo.
    Grande abraço e ,novamente, parabéns pelos textos.

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  2. Como visto em South Park toda eleição é sempre entre um “Babaca Inútil” e um “Sanduíche de Merda”, e como visto na Sereníssima República de Machado de Assis, o problema não é o sistema de governo e nem os governantes que estão aí, é a humanidade que está se desumanizando.

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