Sede resolutos em não servir mais, e estereis livres” – La Boetie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 42

Já vimos que vivemos em estado de servidão. Qual seria a saída? Não servir! Eis a liberdade suprema! A alternativa de La Boétie é simples: sem guerra civil, sem derramamento de sangue, apenas sejamos resolutos em não mais servir! É neste ponto que o discurso sobre a servidão voluntária pode muito bem ser lido como um panfleto libertário-anarquista.

O conceito chega a ser um oxímoro, aparente contradição de palavras com sentidos opostos: como pode ser voluntária se é servidão? E como pode ser servidão se é voluntária? Ora, são exatamente estas as perguntas que devemos fazer para desvendar seus mistérios. Isso porque apelar para o hábito ou o costume não parece ser razoável.

Que monstro de vício é esse que não merece o título de covardia, que não encontra nome suficientemente vil, que a natureza nega ter criado e que a língua se recusa a nomear?” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 37

Não surpreende nunca termos notado nossa servidão voluntária, nunca nos preocupamos em nomeá-la, encará-la, ela se camufla no meio de nosso modo de vida, sem ser notada. Um tipo de servidão que atravessa o mundo, não respeita religiões, nacionalidades, nada, e ainda assim passa desapercebida. Sobrevêm à consciência apenas como um cansaço, um incômodo. Um tipo de servidão que por onde passa faz as pessoas dobrarem seus joelhos e abaixarem suas cabeças! Este estranho fenômeno só pode ser nomeado de uma única maneira: Servidão Voluntária!

Chego agora a um ponto que é, a meu ver, a força e o segredo da dominação, o suporte e o fundamento da tirania. Em meu juízo, muito se engana quem pensa que as alabardas, as guardas e a disposição das sentinelas protegem os tiranos, que delas se servem, creio eu, mais pela formalidade e pela demonstração de força do que por depositarem confiança nelas. Os arqueiros impedem a entrada no palácio dos maltrapilhos sem nenhum recurso, não dos homens armados que poderia realmente fazer alguma coisa” – La Boetie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 68

Pawel Kuczynski

A servidão é voluntária porque conta como nosso apoio! A servidão é voluntária porque somos diariamente coniventes! Eis o que precisa ficar claro: nós queremos servir! Esta é a dura verdade! Por quê? Simples, a vontade de servir é apenas outro nome para a vontade de dominar. Esta é a triste verdade que se escondia embaixo da estranha condição de servidão. É com vergonha que deslindamos seus mistérios e agora não há como voltar atrás.

Em meio aos martírios, nós podemos exercer nossa pequena parcela de poder sobre os outros. Há sempre a possibilidade de tratar mal o caixa do supermercado, humilhar a atendente do telemarketing e desprezar o garçom do restaurante. Vivemos em uma sociedade onde mesmo as alegrias são tristes! Nos divertimos vendo alguém se dando mal, ou prejudicando o outro. Temos sempre as nossas pequenas vantagens em estar do lado dos poderosos.

Em suma, quando se chega ao ponto de obter, por favores ou subfavores, grandes ou pequenos ganhos com o tirano, se encontrará quase tanta gente para quem a tirania parece vantajosa quanto pessoas para quem a liberdade seria mais aprazível” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 70

Pois bem, já é possível ver como e porque um povo serve voluntariamente. Agora que percebemos nossa servidão, continuaremos servindo? Agora a pergunta ganha uma relevância muito maior. Se sim, isso significa, sem sombra de dúvida, que nossa servidão é voluntária, servimos porque queremos! Por isso dizemos que não é uma questão de ver a verdade, não é uma questão de alienação! Esta constatação é assustadora! Não basta sabermos que somos escravos, isso não nos ajuda em nada! Porque continuaremos a servir, esta já é nossa maneira de viver, a única que conhecemos.

Tão logo um rei faça-se tirano, todos os perversos, toda a escória do reino […] aglomera-se a sua volta e o apoia para garantir seu quinhão no butim e exercer, sob o grande tirano, a própria tirania” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 70

Ou seja, engana-se quem pensa que a servidão é conduzida a tiros e ameaças! Muito pelo contrário, somos conduzidos à servidão imaginando que esta nos dará a liberdade. Somos seduzidos! Nos prometem a felicidade, a realização, o bem-estar, e nós acreditamos. O presente de grego se abre na calada da noite, imaginamos que se nos esforçarmos, se fizermos tudo certo, um dia estaremos no alto também!

Nada faz os homens se sujeitarem à crueldade do tirano como os bens” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 73

Mas trata-se de um ledo engano! Enquanto os poderosos servem-se dos restos de um tirano sempre maior, a maioria simplesmente vive à míngua, vive de sonhos, de esperança, de um dia quem sabe subir ao poder e oprimir também! Não somos tiranos, claro, porque estes são poucos, mas somos tiranetes! Possuímos a vontade de estar lá também! Se pudéssemos, faríamos exatamente igual! Reclamamos dos abusos que não podemos cometer, da corrupção que não vai para nosso bolso! Eis os servos voluntários:

Contentam-se em tolerar o mal para poder exercê-lo – não sobre aquele que as fere, e sim sobre aqueles que, como elas, o toleram, mas são impotentes. Contudo, quando vejo essa gente servir ao tirano para tirar alguma vantagem de sua tirania e da servidão do povo, amiúde me espanta sua perversidade, e por vezes causa-me dó sua tolice: pois, a bem da verdade, o que significa aproximar-se do tirano senão afastar-se de sua liberdade e, por assim dizer, agarrar com as duas mãos e abraçar a escravidão?” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 71

Somos seduzidos pelo poder, ele brilha como um diamante, reflete todas as nossas fantasias. É impressionante como deixamos a nossa liberdade escapar por nossos dedos com tanta facilidade. Vivemos esperando a nossa hora, aquele momento específico onde seremos olhado pelo poder e este nos concederá um momento de luxo e vício dentro de seu jogo. Os holofotes do poder nos hipnotizam.

Como o prefeito de uma cidade de nada, que sente-se o rei do mundo, só porque, naquela pequena porção de terra do planeta, exerce sua pequena tirania sobre aqueles que nada possuem. E sempre possui súditos fiéis, inúmeros tiranetes à disposição, felizes em comer dos restos que caem de seu prato, felizes em servir.

Eles querem servir a fim de possuir bens: como se pudessem ganhar algo próprio, pois não podem nem dizer que pertencem a si mesmo; e, como se alguém pudesse de fato possuir algo sob o regime de um tirano, querem que as riquezas sejam suas, sem lembrar que eles mesmos dão força ao rei para tirar tudo de todos e não deixar nada que alguém possa chamar de propriedade” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 72

A servidão não permite a felicidade! Por motivos simples, ela é frágil, a parte mais fraca da corda que sempre arrebenta. Na primeira crise, demissões em massa, no primeiro deslize, reprimendas e humilhações. No campo do poder, os amigos se mostram incertos, todos são suspeitos, todos querem puxar o nosso tapete! No reino do poder, os inimigos não nos mostram as caras, vivem sorrateiros, esperando o momentos certo para nos derrubar!

Isso é ser feliz? Chama-se isso viver? Há algo no mundo mais insuportável? E não digo apenas para um homem honrado, não digo só para um homem bem nascido, mas para qualquer um com bom senso ou, ao menos, com aparência de homem. Que condição é mais miserável do que viver assim, sem ter nada que lhe pertença, recebendo de outrem seu conforto, sua liberdade, seu corpo e sua vida?” – La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária, p. 72

A pior prisão é aquela da qual não queremos sair. Mas será que podemos? Há alguma alternativa?

Texto da série: Servidão Voluntária

Escrito por Rafael Trindade

"Artesão de mim, habito a superfície da pele" Atendimento Psicológico São Paulo - SP Contato: (11) 99113-3664

6 comentários

  1. Todos cremos em algum tipo de liberdade. E, parece que este conceito não estar diretamente ligado a não dever nada a ninguém ou, não dar satisfações a quem quer que seja, ou ainda, fazer o que se quer, ou, etc e etc… Talvez liberdade seja justamente servir – desde que isto seja motivo de prazer e/ou de paz para quem assim, o faz!

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  2. Covardia, eis a condição do homem bem sucedido moderno, agarrado às suas migalhas, de acordo com a ideologia do “menos pior”, sempre ressentido e com medo. Olhando sempre pra trás pois esta é a condição do covarde, que tem medo do mais fraco. Estamos cada vez mais longe do Super Homem, que nesta sociedade de servidão provavelmente seria um mendigo ou andarilho, mas livre.

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