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Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é em sua essência revolucionário – o desejo, não a festa! – e nenhuma sociedade pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de exploração e de sujeição e de hierarquia sejam comprometidos […] É desagradável ter que dizer coisas tão rudimentares: o desejo não ameaça uma sociedade porque é desejo de deitar com a mãe, mas porque é revolucionário”

– Deleuze&Guattari, Anti-Édipo

O Desejo é uma vontade de se jogar na vida, de cortar a realidade com sua ação. O desejo é criação constante, que entra em devir e nasce novamente de uma maneira diferente. O desejo é perigoso porque cria, rompe, maquina, agencia. Fogo que arde e se pode ver, basta abrir os olhos. Não queremos descobrir a verdade do desejo! Não desceremos em cavernas profundas (só há outras cavernas atrás). Não jogaremos o desejo em um triângulo edípico, ele é apertado demais. Queremos proliferá-lo, encontrando novos modos de vida! Conclusão relâmpago: Interpretar é ruim, experimentar é bom.

Sendo assim, descemos novamente o desejo para o campo das relações. Claro, afinal ele foi retirado de lá! Foi surrupiado enquanto ainda não tínhamos a força para nos apropriarmos dele. Jogar o desejo para o campo das relações é procurar entender quais afetos ele investe e quais são os seus caminhos! Há toda uma política para o desejo que nós desconhecemos! Há toda uma maneira dele se organizar. Ora, desta maneira, não precisamos mais olhar para cima para encontrar de onde ele emana, porque ele simplesmente se esparrama na trama social.

Desta maneira, e aqui é preciso cuidado, é importante perceber como o desejo fascista ainda é um modo de vida válido. Válido por quê? Porque não estamos sendo enganados! Não podemos nunca esquecer que as mais variadas formas de fascismo se exerceram com o apoio civil! Enquanto alguns dizem “que o fascismo esteja convosco”, outros prontamente respondem: “ele está no meio de nós”. Isso não é óbvio? O Fascismo é um modo de vida onde os fluxos de desejo se perdem na subdivisão e hierarquização piramidal.

Se o desejo produz o fascismo é porque algo está errado, bem errado, algo está engasgado, entupido, torto! Estamos contaminados pelo poder! Mergulhados em afetos impotente: o medo, a tristeza, o ódio. Como fazer para proliferar o desejo, o pensamento e a ação dentro destas condições? É preciso limpar o terreno! É preciso desobstruir os poros! Nomadizar o pensamento, cuidar de si! Transbordar para outros terrenos! Quebrar com o sujeito normalizado, unidimensional, moralizado e calculável. Precisamos procurar por aquilo que é anômalo, precisamos procurar por uma Razão Inadequada.

A única alternativa que nos resta é desmontar a pirâmide onde isso for possível! Derreter o rosto que colocaram sobre nós, retirar todas as etiquetas, confundir todas as categorizações. Como nos dessubjetivizar? Como fazer para não entrar em relações de poder, não deixar-se seduzir pelo poder? Onde querem reduzir o desejo a uma única figura, nós o queremos grande, crescente, proliferando, rizoma se multiplicando para todos os lados. Não queremos nos confessar a um padre, nem deitar no divã de um analista, queremos ser artistas do desejo, pintar suas mais variadas matizes e tocar seus mais variados tons.

Tanto Foucault quanto Deleuze aceitaram o desafio nietzschiano de que o pensamento não é refletir ou teorizar, mas sobretudo criar valores, encontrar novas formas de vida. Desmontar máquinas paranoicas, desejos pequenos, modos de vida ressentidos. Proliferar pensamento e ação é ligar-se àquilo que é nosso, nossa capacidade de criar e viver. A alteridade é fruto do desejo criativo, resta saber quem comerá este fruto: nós ou o capitalismo? Cuidado, as liberdades que nos pregam são apenas novas prisões! Isso porque mesmo o neoliberalismo é uma forma totalitária de vida! O mercado submete a diferença ao valor monetário!

Fazer o desejo proliferar, sim! Mas como fazer isso? Experimentação? Se o desejo não é algo no interior do inconsciente, então ele é eminentemente social, ele se faz em comunidade com outros corpos. Trata-se então de uma intensificação e promoção mútuas! A ação prolifera o desejo, o desejo prolifera o pensamento, o pensamento faz crescer a ação! Uma vida não fascista precisa atentar para a micropolítica do desejo, aquilo que flui, que é ativo. Pequena lição: a ação só é possível através de efeitos conjuntos! Lembremos de maio de 68, quanto mais fazemos amor mais queremos fazer a revolução.

Nos falta imaginação! Nossas cabeças estão ocas, nossas mãos, vazias. Desmontar máquinas fascistas é encontrar novos fluxos por onde o desejo possa fluir. Como a água: em alguns momentos de maneira calma, desviando dos grandes obstáculos, mas em outros, de modo violento, rachando a pedra no meio. A diferença entre poder e potência se faz aqui. Nós seguimos pelo caminho da multiplicação, da diferenciação, eles, pela divisão e normalização. Todos os caminhos estão abertos àqueles que querer ir para além de si.

Texto da Série:

Vida Não-Fascista

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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