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Como o primeiro passo é sempre o mais difícil, começaremos da maneira o mais simples possível. Bergson opera com conceitos que invertem completamente a nossa maneira habitual de pensar. O pensamento é sacudido por forças exteriores que nos levam para lugares novos! Mas tudo bem, é essa a intenção, afinal, para que mais serviria a filosofia? É por isso que estudar Bergson vale a pena, mas é por essa mesma razão que precisamos tomar cuidado para não tomar gato por lebre.

Sejamos claros: sentimos que existimos. Sentimos que a nossa vida é composta de inúmeros momentos que se compõem uns com os outros. Ontem era uma coisa, hoje já é outra. Mas não é tão simples assim. Se prestarmos atenção, veremos que estes momentos aparentemente distintos na verdade chegam lentamente, se arrastam vagarosamente, penetram desapercebidos. Estávamos em casa, saímos, andamos, chegamos em outro lugar. Estávamos tristes e pouco a pouco fomos ficando felizes. Quando olhamos de novo: Bam! Lá estão eles, todos os acontecimentos que achávamos ter deixado em outro dia, em outro cômodo. Por que isso acontece?

Separar o tempo em 60 minutos, 24 horas, 12 meses é a mais absoluta artificialidade que o homem criou. Inventamos isso. Mas não inventamos o tempo que dura uma estação, dando flores na seguinte. Qual o tempo do milho que cresce no campo? Qual o tempo para a fruta ficar madura? Quanto ficamos apaixonados? Cada um tem seu tempo, não é? Assim diz a ditado popular.

Pois bem, sentimos que passamos de um estado para outro, sentimos que mudamos sem cessar. Não há ponto de parada, o instante da foto é um engano, estamos mudando antes, durante e depois. Mas esta mudança é muito mais profunda do que poderíamos pensar em um primeiro momento. Pois bem, Bergson faz da mudança um dos pontos centrais de sua filosofia.

A mudança reside na mudança de um estado para o estado seguinte”

– Bergson, Evolução Criadora

Nós mudamos sem cessar, essa que é a verdade, nossa natureza é um processo de fluxo constante que só percebemos quando a mudança se torna grande o suficiente para atrair nossa atenção. Movimentos imperceptíveis se tornam conscientes ao emergirem como mudanças drásticas. Fechamos os olhos para essas variações mais sutis, mas elas estão lá, como um vulcão que junta magma e pressão em seu interior, mas não percebemos. Quando ele explode, nos perguntamos espantados “como isso aconteceu?”.

Precisamente por fecharmos os olhos à incessante variação de cada estado psicológico, somos obrigados, quando a variação se tornou tão considerável que se impõe à nossa atenção, a falar como se um novo estado tivesse se justaposto ao precedente”

– Bergson, Evolução Criadora

Bergson nos quer fazer despertar dessa sonolência para a duração. É como se tivéssemos nos tornados zumbis. Vivemos num presente efêmero e esquecemos da duração. Não percebemos mais que cada dia é diferente do outro, simplesmente porque se soma mais um dia em nós. Somos diferentes ao fim de cada acontecimento, mas não notamos, tudo se tornou igual! Perdemos essas nuances. Como filosofar se tudo é absolutamente normal, igual, repetido? Nos tornamos insensíveis às mudanças graduais. Desta maneira, diz Bergson, é impossível filosofar. Ser um cidadão adaptado, sim, mas filósofo, nunca.

Ali onde há apenas uma suave ladeira, cremos perceber, ao seguirmos a linha quebrada de nossos atos de atenção, os degraus de uma escada”

– Bergson, Evolução Criadora

38,5 graus de febre, um retrato: uma imagem pausada de nosso estado que gradualmente se soma e se torna um desconforto geral. Febre, o tempo graduado ofusca o tempo que dura, o calor, o suor; o número 38,5 camufla as mudanças, as nuances. A doença é mais que um número, a vida é mais que uma medida. Queremos tomar outro caminho, não devemos medir a duração, mas senti-la, retornar para aquilo que perdemos: o tempo puro.

O que acontece é que sempre nos perdemos em determinações matemáticas e quantitativas. “Já está na hora de comer?”, “Já está na hora de dormir?”. E quem disse quando é a hora de fazer alguma coisa? Com este raciocínio, estamos sempre perdidos no exterior, em determinações de fora. Ao trocar a duração pelo tempo matemático do relógio, nós deixamos a melhor parte de nós mesmos e nos rendemos às exigências de um mundo cronometrado. Sabe qual o problema para Bergson? Fomos colonizados pelo espaço onde nos deslocamos e esquecemos do tempo em que duramos. Nosso tempo foi recortado como um mapa mundi, onde fronteiras cronométricas não podem ser cruzadas. Desconstruir esta maneira de pensar é nosso primeiro objetivo.

Fabian Oefner – Iridient

A ciência é importantíssima, mas ela possui um limite. Nos enquadrar no ciclo do carbono ou do nitrogênio, dizer que vivemos um dia depois do outro é não alcançar as sutis nuances daquilo que nos liga a todo o universo. Mesmo a superfície é profunda! Claro que somos fenômenos físico-químicos, somos carbono, somos o sangue fluindo por nossas veias. Mas é só? Chegamos aos mistérios do universo pela física e a química? Não, diz Bergson.

Sendo assim, começar a pensar em termos de duração é nadar contra a corrente, é direcionar a atenção plena a algo que flui e cresce dentro de nós, é um retorno ao puro ser. O presente é uma bola de neve, que aumenta enquanto desce a encosta, ele dura, e durando se acumula. O presente é o passado que dura, ao se condensar e se conservar.

Nós existimos porque duramos, e cortar esta duração seria cortar nossa essência! É diferente de uma reta que é cortada pela metade e continua sendo uma reta, sem perder suas propriedades. Nós somos seres que duram, e retirar aquilo que foi é arrancar nossa própria natureza. Da mesma maneira que uma melodia cortada pela metade perde seu sentido. Afinal, é a última nota da canção de ninar que faz a criança dormir? Ou a duração da música, do começo ao fim, somada sono?

É por durar que um filme emociona, porque seu tempo se soma ao nosso, nos modificando. Choramos porque a música se acumula em nós, nota por nota, uma atrás da outra, mas no fim todas juntas, em uma coisa só. Como dissemos, o presente faz uma bola de neve consigo mesmo enquanto avança, essa bola de neve que cresce continuamente é o que chamamos de duração.

Podemos dizer claramente agora, o passado aquilo que dura, e nós somos seres que duram. A filosofia de Bergson é o desafio de pular dentro disso sem se perder. A vida torna-se outra vez densa, mas desta vez sentimos que estamos preparados. O caminho para a duração imanente de todo o universo começa com a consciência de nossa pequena e singela duração. Esse é nosso cartão de embarque para a filosofia de Bergson, sem ela, podemos pular do barco e procurar outra coisa para fazer.

O universo dura. Quanto mais nos aprofundamos na natureza do tempo, mais compreendemos que duração significa invenção, criação de formas, elaboração contínua do absolutamente novo”

– Bergson, Evolução Criadora

Existe algo no fundo deste efêmero aqui-e-agora. É nossa existência inteira que está presente, não apenas os milissegundos passando ininterruptamente! Algo sempre permanece. Nós arrastamos todo o nosso passado conosco. Todas as dores, todas as felicidades, tudo! Vocês conseguem sentir isso? O presente é frágil! O presente é efêmero, é pouco. Existe uma apologia ao carpe diem que não presta para a filosofia da duração.

Bergson nos ensina: não conquistaremos o tempo indo mais rápido. Pelo contrário, já estamos rápidos demais! A medição do tempo está cada vez menor, centésimos de segundo, milissegundos. O tempo tornou-se aquilo que passa, queremos mostrar que o tempo é aquilo que dura. Nosso tempo, múltiplos tempos, como uma aula de dança onde nós nos movemos enquanto todos os outros dançarinos se movem ao nosso lado. O nosso tempo nos joga no mundo, onde cada duração particular se encontra. A psicologia é este trampolim para o ser.

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Rafael Lauro
2 anos atrás

Lindo!

Larissa
Larissa
2 anos atrás

maravilhoso!

Igor
Igor
1 ano atrás

Incrível! Os textos daqui sobre a duração foram onde virei a chave para descortinar minhas leituras no Bergson