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Com o que não posso concordar é com a ideia de que a sucessão se apresenta à nossa consciência primeiro como distinção entre um ‘antes’ e um ‘depois’ justapostos”

– Bergson, Matéria e Memória

Primeiro, precisamos dizer o que o tempo não é. O tempo não é passado no passado, como algo que já foi; presente no presente, como algo passando o tempo todo; e futuro como algo que virá, chegará um dia. Tempo não é antes e depois! Pensar assim é simples demais! Uma explicação que de tão simplória se perde no erro, mistura tudo e se confunde.

Pensar o tempo em termos de duração pura, somos capazes disso? Bergson começa a falar de duração a partir da experiência psicológica. Mas a psicologia é apenas um recurso para se atingir algo de mais profundo, mais fundamental. O filósofo francês quer chegar na ontologia, quer voltar a fazer metafísica. Nós existimos, nós duramos, certo, mas nossa existência parece estar mergulhada em algo maior.

Exemplo: quero chegar em casa, espero o elevador, o tempo do elevador se mistura com o meu, afinal, preciso esperar o elevador; meu vizinho, bem mais calmo, não sente a espera como eu. Segundo exemplo: estou apertado, quero ir no banheiro, mas preciso esperar a reunião terminar, a duração da reunião se mistura com a minha bexiga cheia. Terceiro exemplo: quero chorar, estou emocionado, o tempo do filme se mistura ao meu.

Não há nada de misterioso na duração, não estamos nos encaminhando para nenhum misticismo religioso e com certeza não há nada de transcendente nela. Trata-se de um conceito, puro e simples, o observamos em nós e agora a veremos em seu desdobramento. A duração é o tempo, o movimento, em sua condição de indivisível. O tempo puro.

É justamente essa continuidade indivisível de mudança que constitui a verdadeira duração”

– Bergson, O Pensamento e o Movente

A duração é movimento que se acumula. O tempo não é efêmero, o tempo não é um rio que passa, o tempo não é líquido. O tempo é aquilo que dura, insiste, se prolonga! É exatamente aqui que Bergson quer chegar, nadando contra a corrente das definições tradicionais! O passado não é aquilo que já foi, já era, não tem mais volta, o passado perdura, ele está aqui, no presente. Vimos isso no texto anterior, mas outro exemplo pode esclarecer: colocamos nossa música favorita para tocar: a bateria da introdução preenche nossa consciência, o cantor emite uma melodia, o teclado o acompanha com acordes. A música tem sentido, elas nos emociona.

Não são notas esparsas, soltas, perdidas, há uma continuidade, um trajeto, de uma nota para a outra, uma relação. Se pegamos a música do meio, não temos a mesma sensação, se paramos em uma nota, não temos o mesmo efeito. Um sol maior é apenas um sol maior qualquer. Mas uma música que ouvimos é outra coisa, é nossa música, a canção é algo que só funciona dentro de sua duração. Se destacarmos apenas o refrão ela já não será a mesma, já não teremos o mesmo efeito.

Por isso a crítica de Bergson para a espacialização do tempo. São coisas diferentes, se tratamos o tempo como espaço, a duração acaba. Se quadriculamos o tempo, cronometrando seus instantes, perdemos a duração. Precisamos do todo, do começo ao fim, por isso seguimos por outro caminho: a duração pura.

É a própria continuidade da melodia e a impossibilidade de decompô-la que causam em nós essa impressão”

– Bergson, O Pensamento e o Movente

Eis o problema: tratamos o tempo como se fosse matéria, e por isso nos confundimos. Colocamos o tempo como se fosse um instante antes e um instante depois da mesma maneira que dizemos este objeto está a frente ou atrás daquele. Isso pode ser útil em certos momentos, mas desta maneira perdemos a essência do tempo, sua condição íntima: ele é duração pura do passado no presente, prolongamento e conservação de um momento no outro.

Podemos ver agora que existem duas multiplicidades. A primeira é extensiva, domínio da inteligência, onde um objeto vai de um lugar para o outro no espaço, onde uma coisa substitui a outra. Esta multiplicidade é quantificável. Ela pode ser medida em metros, calorias, graus, segundos. Este é o movimento em sua extensão, colocá-la num gráfico cartesiano. A segunda multiplicidade, que vimos insistindo juntamente com Bergson, é a do tempo. Ela dura, é intensiva, não pode ser dividida sem transformar-se em outra coisa. Ela é intensiva e portanto precisa ser tratada de outra maneira. Seu movimento é acumulação e diferenciação. Conclusão? Espaço e tempo são coisas completamente diferentes!

Em suma, a pura duração bem poderia não ser senão uma sucessão de mudanças qualitativas, que se fundem, que se penetram, sem contornos precisos, sem nenhuma tendência a se exteriorizarem umas com relação às outras, sem nenhum parentesco com o número: seria a heterogeneidade pura”

– Bergson, Dados Imediatos

A psicanálise sabe que o tempo dura no inconsciente de maneira diferente. O behaviorismo sabe que o tempo dura na modelagem dos comportamentos, o darwinismo sabe que o tempo dura e acumula variações nas espécies. E para voltarmos a filosofar precisaremos pensar o tempo como duração, não como espaço quantificável. Um tempo que se acumula, que insiste, que permanece, não um tempo efêmero, líquido, que passa.

A duração é uma maneira nova e diferente de olhar o tempo, que possibilita várias outras maneiras de pensar o mundo. Se antes pensávamos que o tempo fluía como um rio, a maneira de Heráclito, agora vemos, através de nossa própria experiência, que ele persevera, como uma bola de neve que desce a montanha e cresce enquanto rola. Tudo carrega o seu passado consigo. Não é lindo? O Sol incha porque acumula seu passado de fusão de hidrogênio. A Lua acumula crateras com o passar do tempo. Nós nos tornamos outros conforme o passado se acumula em nós. Toda mudança é acúmulo de passado.

Cada um desses fluxos se encontram, se entrelaçam, cada um com seu passado, com sua história, com sua duração. Somos o passado condensado insistindo no presente. Há todo um universo por detrás de cada “Olá!” dado no primeiro encontro. O ser não é imobilidade, é uma dança com os mais variados ritmos, é uma multiplicidade em movimento.

Diante do espetáculo dessa mobilidade universal, alguns de nós serão tomados de vertigem. Estão acostumados à terra firme; não conseguem se acostumar com o caturro e a arfagem. Precisam de pontos ‘fixos’ aos quais amarrar as ideias e a existência”

– Bergson, O pensamento e o Movente

Não nos admira que estas ideias sejam difíceis de entender em um primeiro momento. Mas não se assustem! Isso acontece porque é um universo novo que se abre para nós. Vamos adiante! Não podemos ter medo de perder nossos “pontos fixos”. A filosofia nos faz seguir adiante nessa aventura. A velha medida do tempo e do espaço com a qual nos acostumamos não passa de uma ilusão. Se ficarmos presos às ideias de fixidez, perderemos aquilo que a vida tem de mais rico para nos oferecer e nos dá continuamente: a mudança.

A mudança, se consentirem em olhar para ela diretamente, sem véu interposto, logo lhes aparecerá como o que pode haver de mais substancial e duradouro no mundo. Sua solidez é infinitamente superior à de uma fixidez que não passa de um arranjo efêmero entre mobilidades”

– Bergson, O Pensamento e o Movente

Por todo lado o que encontramos são durações que se relacionam, arranjo efêmero de mobilidades. Mas não queremos nos afastar da realidade ou cair em um misticismo. Todo cuidado é pouco. É necessário então um método que nos dê acesso aos diferentes ritmos de mudança e duração. A inteligência não daria conta, não seria capaz. Bergson encontra outro caminho: a intuição.

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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