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Se o poder fosse simplesmente uma distribuição efêmera, no espaço e no tempo, seria mais fácil localizá-lo e enfrentá-lo. O problema é que o poder não é instantâneo, ele não se aplica repentinamente até ser internalizado e depois aparentemente sumir. Sendo assim, dirá Foucault, o poder se acumula, ele se condensa na medida em que se aplica, ele gera efeitos duradouros. Isso significa que, para além do espaço e do tempo, encontraremos o poder tendo efeitos genéticos, conservativos, que funcionam a longo prazo.

Como capitalizar o tempo dos indivíduos, acumulá-lo em cada um deles, em seus corpos, em suas forças ou capacidades, e de uma maneira que seja susceptível de utilização e de controle? Como organizar durações rentáveis? As disciplinas, que analisam o espaço, que decompõem e recompõem as atividades, devem ser também compreendidas como aparelhos para adicionar e capitalizar o tempo”

– Foucault, Vigiar e Punir

Parece que o poder nunca se cansa. Agora ele agirá na duração, na continuidade. Todo treinamento converge para um ponto máximo onde a composição de forças deve gerar o máximo de eficiência. Agora é necessário compor esses recortes no espaço e no tempo com a acumulação de saberes em suas várias etapas.

O aprendizado, a instrução se fará agora por segmentos: o tempo será decomposto em sequências, que serão sobrepostas, separadas e ajustadas de acordo com o progresso. A passagem de uma sequência à outra terá uma progressão o mais simples possível. Tudo começa do básico. Deve-se passar de uma à outra gradualmente. São evoluções elementares, didáticas, quase óbvias, em ordem crescente. Cada um evoluirá em um determinado ritmo que deverá ser medido, anotado e comparado com o dos outros. Após esta medição, deve-se colocar em séries cada um dos sujeitos, onde serão distribuídos segundo a ordem de aprendizado e evolução.

É o tempo da prática pedagógica, do treinamento, que começa numa simplicidade evidente e soma-se até conquistar efeitos práticos e úteis. O tempo de interiorização, de conquista do hábito, de ação pelo reflexo condicionado, a crescente qualificação, a composição de movimentos, a complexidade paulatina, a união das séries, a graduação das dificuldades formam o indivíduo lenta e definitivamente. Tudo acontece por segmentos, séries até atingir sínteses e totalizações. Seu processo é dividido em classes, medido por provas, melhorado através exercícios, vestibulares, cursos de reciclagem.

Os procedimentos disciplinares revelam um tempo linear cujos momentos se integram uns nos outros, e que se orienta para um ponto terminal e estável. Em suma, um tempo ‘evolutivo’

– Foucault, Vigiar e Punir

A repetição garante o reflexo rápido e irrefletido. O exercício ensina a obedecer sem criatividade, até atingir o objetivo imposto. Trata-se da progressão de um saber útil ao mesmo tempo que se aprende a obedecer e comportar-se bem sob comando. Duplo aprendizado: obediência espontânea e proficiência mecânica.

O aluno responde assim que lhe é dirigida a palavra, começa a anotar assim que o professor coloca o giz na lousa. O soldado realiza o movimento aprendido no manejo de armas e obedece sem titubear às ordens do seu superior. O operário realiza movimentos ágeis na esteira de produção, apertando ou soltando os fios e parafusos necessários, automaticamente, sem pensar.

Uma série de estágios devem ser ultrapassados, mas a formação nunca está concluída; desde os conteúdos mais simples até os mais complexos há sempre algo a se aprender. O poder disciplinar concentra-se nos detalhes, acumula-se na repetição. Assim o homem “progride”, adquire “formação de qualidade”, torna-se útil e eficiente. A técnica que o funcionário domina é o atestado de sua submissão.

Logo após a divisão, no espaço e no tempo, e o treinamento individual, é necessário a composição de todas estas forças investidas pela disciplina. O soldado se torna parte de um batalhão, o aluno se torna parte de uma classe de aula, o operário parte de uma classe de trabalhadores. Múltiplas peças são colocadas juntas para formar um conjunto maior.

Repartir, sim, distribuir, claro, mas para depois recompor de maneira subservientemente qualificada. Estas peças singulares são arranjadas de modo a obter um efeito específico: ganhar uma guerra, produzir um carro, adquirir um diploma. O efeito deve ser superior que as forças separadas.

O corpo se torna um fragmento, uma porção de algo maior. Devidamente treinado, ele pode substituir uma peça que está defeituosa e retomar o ritmo de produção anterior. A peça-corpo está reduzida à sua função utilitária, funcional.

O corpo se constitui como peça de uma máquina multisegmentar”

– Foucault, Vigiar e Punir

Esta peça-corpo deve seguir o ritmo imposto pela máquina, torna-se suplemento de produção, deve combinar-se para obter um resultado ótimo. Parar quando tudo para, acelerar quando tudo acelera, ajuste cronológico, metódico, assemelhando-se às engrenagens.

A máquina, composta pelas peças-corpo, só será realmente efetiva se reagir de pronto, o mais rapidamente possível, através de sinais breves e claros. Um apito, um sinal, um aceno. Uma ordem não existe para ser explicada, mas obedecida. O que importa não é compreender, discutir, debater, mas reagir, responder mecanicamente. Táticas de comando e obediência, funcionando a pleno vapor, que acontecem da maneira mais eficiente possível, nos mais variados campos.

A tática, arte de construir, com os corpos localizados, atividades codificadas e as aptidões formadas, aparelhos em que o produto das diferentes forças se encontra majorado por sua combinação calculada é sem dúvida a forma mais elevada da prática disciplinar”

– Foucault, Vigiar e Punir

Uma massa amorfa de indivíduos se torna agora um único corpo maquinal para guerrear, produzir, trabalhar, reprimir, exibir conhecimento, qualquer coisa que o poder necessitar. A soma torna-se, graças à aplicação da disciplina, maior que as partes individuais. Mas esta força é colocada à disposição, não possui vontade própria, já está submetida. A máquina articulada não permite refletir, o corpo treinado se acopla e reproduz!

Em resumo, pode-se dizer que a disciplina produz, a partir dos corpos que controla, quatro tipos de individualidade, ou antes uma individualidade dotada de quatro características: é celular (pelo jogo da repartição espacial), é orgânica (pela codificação das atividades), é genética (pela acumulação do tempo), é combinatória (pela composição das forças). E, para tanto, utiliza quatro grandes técnicas: constrói quadros; prescreve manobras; impõe exercícios; enfim, para realizar a combinação das forças, organiza ‘táticas’”

– Foucault, Vigiar e Punir

Texto da Série:

Vigiar e Punir

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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