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Numa sociedade em que os elementos principais não são mais a comunidade e a vida pública, mas os indivíduos privados de um lado, e o Estado por outro, as relações só podem ser reguladas numa forma exatamente inversa ao espetáculo”

– Foucault, Vigiar e Punir

Foucault fala da quebra do par ver/ser-visto. Não vemos mais o poder, é ele que nos observa. O homem moderno não se esconde, pelo contrário, se torna constantemente visível e, por consequência, plenamente individualizado. O formato panóptico de exercer o poder prescreve a cada um seu lugar. Um poder onipresente e onisciente subdivide e distribui o indivíduo de acordo com o que lhe pertence, suas capacidades, sua história, sua origem.

As manifestações espetaculares do poder se apagaram um por um no exercício cotidiano da vigilância”

– Foucault, Vigiar e Punir

Trata-se de um poder espacial, ele age sobre as multiplicidades, elas são confusas e não dóceis, é preciso discipliná-las para obter sua produtividade. O objetivo agora é reduzir as velocidades, fixando cada um em uma função social, trata-se de colar um rosto em sua cabeça: advogado, médico, proletário, estudante, louco. Fim do nomadismo, fim dos errantes e dos perdidos, fim das experimentações.

E para se exercer, esse poder deve adquirir o instrumento para uma vigilância permanente, exaustiva, onipresente, capaz de tornar tudo visível, mas com a condição de se tornar ela mesma invisível”

– Foucault, Vigiar e Punir

Sim, somos constantemente vigiados, e tudo pela forma mais inadmissível de poder, aquele que se tornou invisível, imperceptível. Cada vez que mandamos uma mensagem de nosso celular, ligamos a televisão, acessamos o Facebook ou o Google, estamos enviando informações nossas que são armazenadas em um banco de dados. Criticamos o Big Brother, mas não percebemos que estamos imersos em um imenso Reality Show anônimo e difuso.

Nossa sociedade não é de espetáculos, mas de vigilâncias: sob a superfície das imagens, investem-se os corpos em profundidade; atrás da grande abstração de troca, processa-se o treinamento minucioso e concreto das forças úteis; os circuitos da comunicação são os suportes de uma acumulação e centralização do saber; o jogo de sinais define os pontos e apoios do poder; a totalidade do indivíduo não é amputada, reprimida, alterada por nossa ordem social, mas o indivíduo é cuidadosamente fabricado, segundo uma tática das forças e dos corpos”

– Foucault, Vigiar e Punir

Nossa sociedade nos dá a ilusão de um espetáculo porque estamos constantemente sob os holofotes, mas, aos olhos do poder, ela é uma máquina de inquérito e confissão. “Mostrem-se! Você são livres! Contem tudo! Vamos! Estamos interessados em vocês! Sim! Queremos saber mais!” … a visibilidade é uma armadilha:

Somos bem menos gregos que pensamos. Não estamos nem nas arquibancadas nem no palco, mas na máquina panóptica, investidos por seus efeitos de poder que nós mesmos renovamos, pois somos suas engrenagens”

– Foucault, Vigiar e Punir

O Espetáculo é uma ilusão! Não estamos no palco, estamos em máquinas panópticas! Quanto mais nos veem, mais escravos nos tornamos. Como escapar? Como fugir desta máquina que agora age dentro de nós mesmos? Existe algum dispositivo possível? Se o poder está em toda parte, parece difícil escapar. Não saberíamos para onde ir, não saberíamos o que fazer. Nos tornamos parte da máquina, não saberíamos quem somos longe dela.

Texto da Série:

Vigiar e Punir

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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