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A defesa radical do igualitarismo fornece a pulsação fundamental do pensamento de esquerda”

– Vladimir Safatle, A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, p. 21

Em tempos difíceis, muitas vezes é necessário dizer o óbvio. E para encontrá-lo só precisamos dar um passo para além de nossa bolha social. Aqui a questão se torna clara: o que queremos? Simples: a esquerda luta por igualdade radical! Se nos deslocamos, na sociedade brasileira, por uma realidade de desigualdade brutal, condições desumanas, e sofrimento atroz, é possível ver como esta é, com certeza, a luta mais urgente. Eis o intolerável: a desigualdade. E nisso precisamos ser absolutamente intransigentes! Este fundamento é a base para qualquer outro pensamento de esquerda. Nossa tarefa mais urgente é quebrar com nosso estado de profunda miséria social, econômica e política. Estamos aqui no coração da esquerda!

A luta contra a desigualdade social e econômica é a principal luta política. Ela submete todas as demais”

– Vladimir Safatle, A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, p. 21

Por igualdade nós queremos dizer equidade, paridade, isonomia. Por igualdade nós buscamos justiça para todos, sem distinção. Por igualdade nós buscamos as mesmas condições para que qualquer cidadão, sem exceção, possa se desenvolver e perseguir seus objetivos. Não podemos descansar enquanto, por exemplo, na mesma empresa, o chefe ganhar cem vezes mais que o empregado. Não podemos admitir que o homem tenha muito mais facilidades em relação à mulher. Não podemos nos acomodar com o fato de um herdeiro milionário viver de rendimento bancário enquanto outros não têm o que comer. Não pode ser normal, para nós, que uns se aposentem aos 40 anos e outros tenham condições de trabalho análogas à escravidão. Lutar para o fim da desigualdade é definitivamente uma pauta de esquerda.

Desigualdade Civil, Econômica, Política e Social

Certo, mas se esta é uma de nossas mais importantes bandeiras, cabe explicar detalhadamente o que significa isso. Estas ideias são hoje muito confundidas. Em primeiro lugar, somos contra qualquer forma de desigualdade civil, econômica, política e social:

  • CIVIL: a desigualdade civil acontece quando uns possuem privilégios e outros não possuem nada. A desigualdade civil acontece quando, como disse Orwell, uns se tornam mais iguais que outros. Ou seja, quando os direitos fundamentais e inalienáveis, são pura e simplesmente ignorados. Nosso direito de expressão é ameaçado cotidianamente pela censura, o direito de ir e vir é impedido por autoridades policiais, pedágios e fronteiras. Nosso direito à propriedade é destruído por uma minoria que concentra uma quantidade exorbitante de posses enquanto a maioria da população vive de esmola e ajuda humanitária. Enfim, parece que nossa igualdade perante a lei é uma piada de mal gosto. A esquerda luta para que esta abominação termine, para que todos tenham direitos em vez de alguns possuírem privilégios;
  • ECONÔMICA: Não há nada mais desigual em nossa sociedade que a condição econômica da maioria esmagadora de seus indivíduos. Enquanto 1% da população possuir metade da riqueza do pais, as pautas de esquerda estarão vivas e serão válidas. Uns vivem de rendimentos multimilionários e dinheiro guardados em paraísos fiscais enquanto outros vendem o almoço para comprar a janta. A luta da esquerda precisa focar radicalmente nossa revoltante, mas não inexplicável, desigualdade econômica. Fazer uso de mobilizações populares e mecanismos estatais (reforma tributária, taxação de fortunas) para que esta forma de desigualdade seja sanada. A desigualdade econômica impede a verdadeira liberdade, pois cria ilhas de privilégios intocáveis contra todos os outros que não podem comprar sua alforria.
  • DIREITOS POLÍTICOS: Qual a nossa parcela de participação nas decisões do Estado e do Governo? Praticamente nula, correto? Sim, votamos de dois em dois anos, mas será que isso define a plenitude de nossos direitos políticos? A pergunta se torna ainda mais séria quando representantes democraticamente eleitos são retirados do cargo por motivações políticas baixas e escusas. Democracia significa poder exercido pelo povo, mas não temos o direito, sabemos muito bem, de manifestação pública, pois é constante a deturpação midiática e a violência policial. Há desigualdade nos direitos políticos quando uma casta tecnocrata passa de pai para filho e nós somos colocados à margem. A esquerda luta pela igualdade de participação e decisão política através da ampliação de conselhos consultivos e gestores com poder deliberativo, ou através de referendos e plebiscitos. Até, eventualmente, alcançar o grau máximo de participação democrática onde a representação política se reduz ao grau mínimo.
  • DIREITOS SOCIAIS: nossos direitos sociais também comprovam o precipício da desigualdade em que vivemos. Enquanto uns frequentam as melhores escolas do país, outros não possuem nem uma lousa ou um caderno para aprender; uns frequentam os melhores hospitais, outros morrem por doenças facilmente tratáveis através de, por exemplo, saneamento básico. Os direitos sociais prezam também por dignidade no espaço de trabalho, e no transporte, o que sabemos muito bem que não existe. Essa luta faz parte do pensamento de esquerda na medida em que todos devem ter acesso aos serviços públicos, ampliando assim as demais condições de cada um.

É fácil percebermos que vivemos uma sociedade de privilégios, fraturada pela desigualdade de cima a baixo! Queremos lutar contra isso!

Igualdade não é Homogeneidade

Igualdade safatle esquerda

Sr.Garcia

Pois bem, mas o pensamento de esquerda precisa ser cuidadoso aqui: Igualdade não significa, de forma alguma, homogeneidade, identidade, uniformidade. Não queremos que todos sejam iguais. O que isso quer dizer? Significa que é falsa a oposição entre igualdade e diferença. Porque o oposto de igualdade é a desigualdade! Ou seja, lutamos pela igualdade (que permite que as desigualdades não sejam um impeditivo para a maioria da população) tanto quanto pela diferença (que brota de condições de igualdade)

O problema é que a direita adora falar de diferença, mas é indiferente às desigualdades! Ela se orgulha de ser diferente! E como normalmente está por cima, confunde diferença com hierarquia, dominação, autoritarismo, tutelagem. Mas quando diferenças geram hierarquias, desigualdades, dor, sofrimento e humilhação, o pensamento de esquerda deve agir! Aceitar que a diferença gere discriminação e privilégios é uma abominação do pensamento político de direita!

Arautos do pensamento conservador procuram desqualificar a centralidade da luta contra a desigualdade, afirmando que a diversidade de talentos e de capacidades de engajamentos deve ser respeitada. De fato, nenhuma pessoa sensata poderia ser contrária à meritocracia e à recompensa pelo empreendedorismo. No entanto, tais valores apenas encobrem o pior cinismo quando não vêm associados à luta contra a desigualdade de oportunidades e condições. A diversidade de talentos é, muitas vezes, a capa que se usa para acobertar que a diversidade de riquezas é um problema que quebra a possibilidade de desenvolvimento individual por mérito”

– Vladimir Safatle, A Esquerda Que Não Teme Dizer Seu Nome, p. 24

É isso que queremos: oportunidades e condições iguais para todos e todas! Uma esquerda que não teme dizer seu nome precisa dizer: queremos igualdade radical! Todos merecem as mesmas condições civis, ter os mesmos direitos, serem tratados como iguais perante a lei; todos merecem direitos econômicos, uma propriedade para morar, dinheiro para comer e se vestir adequadamente; todos merecem condições políticas iguais, participarem das decisões de seu bairro, seu estado, seu país; e todos merecem igualdade social, saúde e educação, transporte e trabalho. Este é o primeiro passo, o mais básico e mais difícil para alguns de entender.

Texto da Série:

O que a Esquerda quer?

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Deivid
Deivid
2 anos atrás

” É admirável a perspectiva da esquerda, plausível se for posta em ação, porém o que se vê na grande maioria é só na teoria, pois na pratica é nebulosa ou são hostilizado pela censura dos poderosos, no entanto certa parcela da “esquerda” prega o assistencialismo que não é de todo errado, principalmente aos que estão em estado de calamidade, porém junto dessa parcela tem muitos mal intencionados que se aproveitam da situação para um beneficio singular, tendo como assistência os benefícios, considerando isso como bom encontro, no entanto muitos ficam em um estado de acomodação exponencial acredito que além… Ler mais >

Bruno
Bruno
2 anos atrás

Concordo com muita coisa dita no texto, embora meu pensamento não seja o de esquerda. A pergunta que deixo é a que sempre fica evidente quando ouço discursos como esse (embora esse em específico um pouco diferente): não seriam os problemas endereçados no seu discurso causados pela pobreza, e não pela desigualdade? Por fim, sempre importante lembrar que cada direito implica um dever. Em discurso, isso é esquecido. Na prática, são muitos direitos para poucos deveres. Sendo completamente contrário à miséria e humilhação, acredito em gente ajudando gente. A ajuda institucionalizada é, por vezes demais, criminosa. Precisamos olhar melhor para… Ler mais >

Luiz Augusto de Lima Silva
Luiz Augusto de Lima Silva
1 ano atrás

Exelente conteúdo e forma… Parabéns a todos(as)! Ubuntu!

Luiz Augusto de Lima Silva
Luiz Augusto de Lima Silva
1 ano atrás

Excelente conteúdo e forma. Parabéns a todos(as). Ubuntu!