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Atenhamo-nos às aparências; vou formular pura e simplesmente o que sinto e o que vejo: Tudo se passa como se, nesse conjunto de imagens que chamo universo, nada se pudesse produzir de realmente novo a não ser por intermédio de certas imagens particulares, cujo modelo me é fornecido por meu corpo”

– Bergson, Matéria e Memória

Tudo começa no corpo! Encontramos aqui um Bergson bem pragmático. Pegue uma massa de carbono, nitrogênio, hidrogênio, oxigênio, torça eles de modos cada vez mais complicados lhes dando a capacidade de se replicarem; encontre uma maneira de retirar energia do exterior: oxigênio do ar e nutrientes de outros organismos vivos; adicione uma capacidade de perceber e responder ao mundo e voilá: você tem vida! Claro que a coisa não é tão simples assim, mas dá conta do que queremos dizer neste momento.

O corpo recebe imagens do exterior e responde a estas imagens devolvendo movimento ao mundo. Eles está equipado e preparado para fazer exatamente isso. Receber estímulos (chamem como quiser) através dos nervos aferentes (vísceras e órgãos do sentido) e devolver estímulos (movimento, respostas) através dos nervos eferentes que movem músculos e glândulas. Deste ponto de vista o corpo é simples: recebe estímulos, escolhe a melhor alternativa de ação, seleciona o movimento mais apropriado e age. O esquema sensório-motor é o amálgama que o corpo faz entre percepção e ação. Todo seu percurso interno se passa desta maneira.

O pensamento está orientado para a ação; e, quando não desemboca numa ação real, esboça uma ou várias ações virtuais, simplesmente possíveis […] o cérebro é o órgão da atenção para a vida”

– Bergson, Energia Espiritual

Conforme o corpo e o cérebro se complicam, o número de ações possíveis que aumenta. Uma ameba pode menos coisas que um organismo pluricelular. Um movimento reflexo, que da própria medula já retorna como movimento se torna cada vez mais complexo à medida que o estímulo sensorial se divide pelas diversas áreas do cérebro. Tudo está relacionado com a quantidade de conexões que o cérebro pode fazer entre si e as diversas partes do corpo, de modo a tomar a selecionar o melhor atitude. Tudo não passa de seleção de dados no ambiente e a escolha da melhor ação possível.

A percepção recorta o mundo, dobra o mundo em nossa direção, mostrando quais são as nossas possibilidades. Não poderia ser de outro jeito, o que o corpo percebe faz parte daquilo que está de alguma maneira dentro do seu campo de ação. O recorte do mundo já nos mostra nossa capacidade de agir. Sendo assim, há uma implicação entre o que vemos e o que fazemos, nossa capacidade de ser afetado e de afetar andam juntas, um pé depois do outro.

Os objetos que cercam meu corpo refletem a ação possível de meu corpo sobre eles”

– Bergson, Matéria e Memória

O exterior nos transmite movimentos, os órgãos sensitivos captam estes movimentos e os transmitem, através dos nervos sensoriais, ao cérebro. Lá, estas informações se dividem em milhares de vias sinápticas. Este movimento que foi captado por nosso corpo é novamente devolvido ao mundo, através das vias motoras. Vida: receber e devolver movimento ao mundo. O corpo é um centro de ação! E os objetos que o circundam refletem as ações possíveis.

Portanto, a nosso ver, o cérebro não deve ser portanto outra coisa, em nossa opinião, que não uma espécie de central telefônica: seu papel é ‘efetuar a comunicação’, ou fazê-la aguardar. Ele não acrescenta nada àquilo que recebe […] O cérebro é a nosso ver um instrumento de análise no tocante ao movimento registrado e um instrumento de seleção no tocante ao movimento executado”

– Bergson, Matéria e Memória

No fim das contas, somos simples condutores de movimentos. O cérebro não é um centro de comando, ele participa do processo. E quanto maior for nossa capacidade de perceber, maior será a nossa capacidade de devolver a luz da melhor maneira possível. Somos fendas por onde um fluxo constante passa e nos corta, moldando aquilo que somos e podemos. Neste sentido, liberdade é o afunilamento das percepção em busca da melhor ação. Liberdade não é escolher entre possíveis, é exatamente o contrário, eliminar esta ilusão, ao chegar na melhor ação, relacionando as imagens e a memória. A ação, a ação única, certa, precisa, é a liberdade, não o reino dos possíveis. A liberdade real é superior à liberdade possível.

Ou seja, é tudo a mesma coisa! O que entra e o que sai é tudo uma coisa só, fluxos, movimentos, luzes. A percepção recorta, dentro do campo de possíveis, onde podemos agir. O corpo é um centro de ação. Eles recortam dentre as imagens exteriores, aquilo que nos interessa. O presente clama por nós. Vivemos prestando atenção no mundo, olhando para ele, o sentindo, e escolhendo dentro destes estímulos as melhores respostas possíveis.

O corpo é uma linha reta, do estímulo ao movimento, somos uma máquina de responder. Os comerciais de televisão fazem isso, exigem que vivamos o momento! “Compre, viva, gaste, consuma”! “Agora, agora, agora”! A percepção está voltada para o presente, e nos perdemos nela.

Assim, o papel do cérebro é ora de conduzir o movimento recolhido a um órgão de reação escolhido, ora de abrir a esse movimento a totalidade das vias motoras para que aí se desenhe todas as reações que ele pode gerar e para que analise a si mesmo ao se dispersar”

– Bergson, Matéria e Memória

Mas alguma coisa acontece aí. O cérebro pode devolver o movimento rapidamente, constituindo um hábito de resposta ou não. O que acontece quando os estímulos e sensações se perdem no cérebro, se abrem em milhões de vias neurais? Quando a vida se complica, se dobra sobre si, o que acontece? A resposta habitual se abre para novas respostas possíveis. O que pode um corpo? Pode hesitar! Pode não responder imediatamente, maquinalmente. Algo se adiciona aí.

A vida é a inserção de um intervalo, um delay, entre as imagens que entram e saem! Somos pura força centrípeta e centrífuga, um conjunto complicadíssimo e bem articulado de nervos aferentes e eferentes, os caminhos percorridos entre eles são inúmeros! Não estar vivo é não mais refletir movimentos para o mundo, enquanto estar vivo é hesitar, multiplicar as vias.

Bergson chama este movimento de atualização de uma lembrança. Quando o que retorna é mais do que o que entrou. Quando a ação está enriquecida por algo mais do que o simples estímulo. Não há vida sem memória, sem que algo não seja jogado novamente no mundo. Sempre haverá um intervalo, porque o corpo, a vida, sempre joga alguma coisa na percepção pura.

Que a ação se avolume ao avançar, que cria à medida que progride é o que cada um de nós constata quando se vê a agir”

– Bergson, A Evolução Criadora

Quanto menor o intervalo entre o estímulo e a resposta, mais estamos no campo externo, mais estamos no hábito. O alarme toca de manhã, damos um tapa no despertador. Não há memória aí, apenas uma resposta reflexa. O aparelho chega pela esteira da fábrica, nós apertamos o parafuso direito e soldamos o fio da esquerda, a peça vai embora e chega outra quase instantaneamente, fazemos o mesmo movimento, sem pensar, sem raciocinar. Somos máquinas, não temos memória, não temos tempo para pensar, apenas realizamos movimentos mecânicos.

Somos estimulados e reagimos, recebemos excitações e transmitimos ações. O cérebro introduz um intervalo entre a recepção dos estímulos e a devolução do movimento. É neste intervalo, diz Bergson, que algo se adiciona. O hábito é bom, mas não é o bastante, queremos mais, e é possível mais. O corpo é tanto hábito quanto memória. As duas partes são importantíssimas. A variação de uma pra outra depende do grau de contração de cada momento. Mas para sair da percepção pura e da ação regulada pelo hábito é preciso retomar a ideia de duração e finalmente entendermos o que é o passado e como ele se atualiza no presente.

Texto da Série:

Memória

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Vera Castro
Vera Castro
3 anos atrás

Ahh! Estou adorando essa série de Bergson. Obrigada pelos textos, todos muito interessantes. Por enquanto, não consigo nem responder a eles, precisam durar na minha memória pra eu reagir.
Beijos,
Vera.