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Aquilo que representamos, ou seja, a nossa existência na opinião dos outros, é, em consequência de uma fraqueza especial de nossa natureza, geralmente bastante apreciado; embora a mais leve reflexão já nos possa ensinar que, em si mesmo, tal coisa não é essencial para a nossa felicidade”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 61

Como um círculo gravitacional, temos aquilo que nos representa como o mais distante de nós e portanto o que menos está em nosso poder. Basta uma pequena reflexão para vermos que é a menos importante das três categorias anteriores. Mas aquilo que representamos para os outros normalmente nos deixa bem preocupados, e geralmente dedicamos muito mais tempo com o que os outros vão pensar do que cultivando aquilo que podemos nos tornar.

Dar muito valor aos outros, diria Schopenhauer, é prestar-lhes demasiadas honras. Ora, que vale o ser humano? Esse primata invejoso e mesquinho! O que passa em sua cabeça não é problema nosso e com certeza absoluta não é esta questão que nos levará à felicidade! Vivemos em nossa própria pele e não na cabeça dos outros. Sentimos quem somos, não aquilo que os outros pensam.

A influência sobremaneira benéfica que um modo de vida retirado tem sobre nossa tranquilidade de ânimo baseia-se, em grande parte, no fato de ele nos eximir de viver constantemente sob os olhos dos outros e, por conseguinte, nos eximir de levar sempre em conta a sua eventual opinião, o que nos faz voltar nossa atenção para nós mesmos”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 69

Mas por que então alguns se tornam obcecados pela fama e pela glória? Se sabemos que a maioria das opiniões costuma ser errônea, exagerada, até mesmo falsa, e portanto indignas de nossa consideração. Por que nos preocupar? Por que buscar construí-las e influenciá-las? Por que gastar tanto tempo e energia com isso? Schopenhauer responde: ambição, vaidade, orgulho. Características humanas, demasiado humanas.

Comecemos pelo último. O orgulho que advém da admiração alheia nos oferece como que uma capa de proteção para nossa pobreza interna. A busca por admiração é o disfarce perfeito para esconder nossa miséria de espírito. Nada melhor para alguém inseguro que embeber-se de orgulho alheio. Quanto menos somos, mais queremos ter e mais ainda queremos aparentar para os outros! Ao pedirmos olhares, queremos nos cobrir de holofotes superficiais, olhando os olhares alheios, não precisamos encarar o pauperismo existencial que nos constitui. Enfim, quanto maior a pobreza de dentro, maior o busca de louvor externo.

O tipo mais barato de orgulho é o nacional”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 72

De todas as formas de orgulho, nenhuma é mais idiota que o orgulho de ser de uma determinada nacionalidade! Quem poderia ser mais ridículo que o nacionalista? Coitado, este realmente não tem nenhuma qualidade interior para se valer. Afinal, apenas alguém completamente ausente de qualidades individuais poderia se orgulhar de ter nascido em determinada região do planeta. Orgulho de ser brasileiro, uruguaio, alemão, americano? Por quê? O nacionalista não tem nada além de sua bandeira, signo aleatório e abstrato que representa linhas artificiais na superfície do globo terrestre. Ele se envolve no lábaro colorido para disfarçar sua cinzenta estupidez. Apenas assim dá conta de viver, escamoteando sua idiotice de orgulhos e conquistas que não são suas.

Todo pobre-diabo, que não tem nada no mundo do que posso se orgulhar, agarra-se ao último recurso, o de orgulhar-se com a nação à qual pertence; isso faz com que se sinta recuperado e, em sua gratidão, pronto para defender com unhas e dentes todos os defeitos e desvarios próprios a tal nação”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 72

Cada nação se acha melhor do que a outra, nenhuma tem razão, cada nação fala mal da outra, todas têm razão. A filosofia é um tapa na cara daqueles que se orgulham de sua nacionalidade, mostrando primeiramente que todos os homens são igualmente estúpidos e miseráveis, mas que, ao menos, todos eles possuem à sua disposição a sabedoria necessária para escapar destas ridículas superstições baratas.

Se a nacionalidade não vale nada, o que dizer de sobrenomes importantes ou cargos invejados? Ambição é a ilusão corrente de achar que um cargo lhe fará mais feliz! É o famoso “você sabe com quem está falando?”. Ora, aqui a filosofia se presta novamente para moderar estas idiotices. Os feitos daqueles que já foram são deles, não nossos. Não importa se nosso nome carrega a lembrança deles ou se nós estamos sentados na cadeira que uma bunda anterior esquentou por nós. Os feitos que são nossos não advém de um cargo que alguém exterior nos dá, mas de nossas próprias capacidades e ações.

Nos preocupamos mais com nomes do que atitudes. A honra não pode ser dada por ninguém! E ninguém nasce com ela. Se nossa ambição se perde nos olhos e consciência dos outros, nós nos perdemos juntamente com ela. Mais vale um pequeno feito de própria autoria que gigantescos feitos de antepassados. Seus atos foram para debaixo da terra junto com eles ou pertencem a todos de maneira igualitária, se querem tão avidamente assemelharem-se a seus antepassados, que pulem em suas sepulturas!

Orgulho, ambição e vaidade. Esta última vale tanto quanto as anteriores. O vaidoso acha que é mais do que aparenta para os outros. Ofende-se, gasta seu tempo tentando provar-se, humilhar aqueles que não o admiram. Querem refletir na cabeça dos outros aquilo que acreditam ser para si mesmos. São apenas representações baratas, vivem de platonices que pouco valem para a sabedoria ou a felicidade, pois estão sempre depositadas fora de nós.

Os títulos serão esquecidos, enquanto os feitos dignos de serem lembrados ficarão pelo tempo necessário e merecido. As fofocas serão logo substituídas por outras. Aqueles que se preocupam com aquilo que representam, se valendo do orgulho e da vaidade, mencionando sobrenomes e títulos, nacionalidades, honras, cargos, etc, não passam de parasitas e apenas dão mostra de sua insignificância e pequenez.

Texto da Série:

Sabedoria de Vida

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Deivid
Deivid
2 anos atrás

(” É o mecanismo de defesa atuando sempre de forma sútil, rsrsrs; sentimentos de razões absolutas reduzem um impotente ao nada, pois quando se tem razão em sua defesa ou acreditam piamente que a têm seguem até as últimas consequência, desde defesa ao partido, à nacionalidade , religião ou qualquer bandeira que seja tudo se torna defesa legitima, em outras palavras A RAZÃO É O CAVALO DO CAPETA” rsrsrs) Parabéns pelo texto, um canal de evolução mental, amplificador de conhecimentos!

João
João
2 anos atrás

Estou ruminando, contextualizando e aprendendo com esse blog. Obrigado por essa valorização e criação de potências.