Skip to main content

Carrinho

Close Cart

A Arte de ser feliz começa com um exame de si próprio: se em um primeiro momento nós nos perguntamos quem somos, agora queremos saber qual a melhor maneira de nos conduzir. É sempre bom dar um passo para trás e permitir-se um momento de reflexão: o ser humano pensa ser um animal consciente de seus atos, mas isso não só não é verdade, como trata-se de uma arrogância enorme com os outros animais.

Achamos que somos superiores, mas existimos e agimos da mesma maneira que toda a vida: de modo inconsciente e inconsequente. Por isso é bom permitir-se um momento de silêncio e reflexão. O ser humano vive sua vida de maneira cotidiana, sem perceber os rumos que sua existência lentamente está tomando. Não surpreende, é realmente difícil entender a própria vida sem olhar para trás ou do alto, procurando enxergá-la de modo amplo, com seus desvios e acertos. Por isso Schopenhauer aconselha a parar e olhar para si mesmo, para os lados, para trás e para frente e perguntar-se: afinal, o que é que eu estou fazendo?

Assim como o andarilho precisa subir num cume para ter uma visão panorâmica do caminho percorrido e reconhecê-lo como um conjunto, nós também só reconhecemos a verdadeira concatenação de nossas ações, realizações e obras, a sua coerência precisa e seu encadeamento, além de seu valor, ao final de um período de nossa vida ou até mesmo da vida inteira”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 153

Auto-exame e auto-reflexão. Como fazer isso? Quem vive muito no passado se torna saudosista e ressentido. Mas quem vive muito no futuro fica ansioso e aflito. É difícil encontrar a boa proporção entre os acontecimentos do passado que nos servem como lembrança útil, o momento presente e as aspirações para o futuro. O pretérito e o porvir não são lugares para nos perdermos, excesso de um ou de outro e a vida não andará em sua velocidade correta.

O sábio habitará os dois tempos sem se deixar levar. Se esforçará para digerir o que passou e não temer o que virá. Sua serenidade advém de uma existência simples e uniforme, mas que não produz tédio (isso é importantíssimo). Um olhar mais amplo para apreender suas limitações permite serenidade porque assim ele não é estimulado por coisas desnecessárias e inalcançáveis. Mas internamente ele se amplia cada vez mais, afastando o tédio e o enfado.

Aquilo que é mais importante para o nosso bem estar e felicidade, dirá Schopenhauer, é a maneira com a qual preenchemos a nossa consciência. O trabalho do espírito, puramente intelectual, proporciona muito mais que a vida com seus abalos e tormentos. Mas não são muitos os que estãos dispostos a isso. Na verdade, a maioria teme a própria presença e prefere as pequenas diversões e as distrações. Provavelmente porque possuem pouco para encontrar dentro de si.

A clareza de consciência só é obtida através deste exame constante. Fazemos isso com as próprias experiências de vida, mais nada. Em nossa história, diz Schopenhauer, reside toda a instrução necessária. Recapitular com constância o que passou, tendo em conta os erros e acertos é o mais importante processo para se alcançar a sabedoria e a serenidade. Nesse sentido, é interessante manter um diário. O próprio filósofo alemão tinha este hábito. Nele podemos refletir enquanto escrevemos e reviver de maneira segura aquilo que nos aconteceu.

A qualidade mais favorável para aqueles que procuram ser mais felizes é bastar-se a si mesmo. O auto-exame prova isso, pois a única pessoa com quem contamos, no fim das contas, somos nós próprios, e uma fraqueza aqui pode colocar tudo a perder. Quem não confia em si mesmo e não se basta nunca encontrará a felicidade, pois ela é impossível nos outros.

Bastar-se a si mesmo; ser tudo em tudo para si, e poder dizer trago todas as minhas posses comigo, é decerto a qualidade mais favorável para a nossa felicidade”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 161

Sendo assim, podemos dizer que apenas na solidão somos verdadeiramente livres, pois não somos limitados por nada nem ninguém. Neste mesmo sentido, cada um amará ou odiará a solidão de acordo com sua estima por si mesmo, de acordo com o quanto se basta e se preenche. A medida de nosso amor à solidão é a mesma de nosso amor próprio e de nossa sabedoria. Na solidão cada um está apenas em sua própria companhia, não pode evitar de sentir a si mesmo como é. A sociedade insiste que cada um abdique de sua personalidade para melhor nos misturarmos aos outros. Mas o sábio quer pertencer apenas a si mesmo, por isso a solidão é sempre um bom negócio. A juventude deveria aprender a suportar a solidão, fonte de felicidade e de tranquilidade, pois aqui se separam os fortes dos fracos.

Quem, portanto, não ama a solidão, também não ama verdadeiramente a liberdade”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida

E que outro destino poderia haver para o sábio? O gênio aprende a amar a solidão como um de seus pertences mais valiosos. Se em alguns momentos ela lhe parece dura, certamente é o menor dos males. Para muitos é mais fácil suportar o outro do que a si próprio. Que triste… o vazio interior gera fastio, tédio, angústia e ele foge o mais rápido possível para a presença dos outros. A maioria dos homens é monótona demais para querer a sua própria companhia. Já o homem inteligente traz uma orquestra dentro de si, um pequeno mundo em convulsão, com o qual se entusiasma. Poderíamos dizer que a sociabilidade vulgar é inversamente proporcional à capacidade intelectual.

A solidão concede ao homem intelectualmente superior uma vantagem dupla: primeiro, a de estar a sós consigo mesmo; segundo, a de não estar com os outros”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 169

Outro empecilho para a felicidade que exige exame acurado é a inveja. Este sentimento é inimigo da felicidade, mas também é natural ao homem e está em quase todos os lugares. É difícil ser feliz quando a grama do vizinho parece mais verde que a nossa. É difícil ser feliz quando a alegria dos outros nos incomoda, como fazer? Primeiro, é fácil perceber que o que agrada a muitos jamais seria capaz de dar a nós o mínimo grau de contentamento. Ou seja, cada um é feliz ao seu modo. Segundo, a maioria das pessoas simplesmente finge uma felicidade que não possui, mais preocupadas em ter ou aparentar do que ser realmente. Devemos procurar nosso contentamento na grandeza de espírito, muito mais estável e certa, do que nas posses e representações que os outros querem nos mostrar.

Escapando da sociabilidade vulgar e da inveja, é essencial que na vida façamos um bom planejamento. Com cautela, atenção e reflexão necessária para que, na hora de agir, não haja qualquer dúvida ou hesitação. Toda ação perde sua força e determinação se ficamos olhando para trás, angustiados, inseguros das decisões que tomamos. Planejar é essencial para agir com segurança, o contrário é igualmente válido. Por isso a importância do auto-exame, saber quem somos é essencial para saber para onde queremos ir. O planejamento é um dos pilares da felicidade, nada pior que ficar ao sabor do vento.

Sela bem e cavalga sem medo”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 181

Mas nem todo planejamento do mundo nos protege dos mau-encontros que a vida nos reserva. Ao enfrentarmos um acaso infeliz do destino, não devemos multiplicar a dor imaginando que poderia ter sido diferente, maldizer nosso planejamento cuidadoso. Analisar onde erramos, onde está nossa parcela de culpa é bem mais importante, para que não mais se repita. O que foi não poderia ter sido diferente, não podemos prever tudo e a lamentação só serve para multiplicar a dor e diminuir nossa auto-estima. A reflexão, ao contrário, nos torna mais sábios e ensina através da experiência, o auto-exame, apesar de doloroso, é valioso. O sábio relembra o passado para agir melhor, o tolo, para maltratar-se e acovardar-se perante uma situação.

Imaginar a perda de um bem durante o processo, qualquer que seja: amigos, saúde, posses, um grande amor, nos ajuda a ver qual a importância daquilo para nossa vida. E nos prepara para sua perda eventual. Às vezes, apenas este exercício simples já é o bastante para nos ensinar o real valor das coisas e nos planejarmos melhor. Também é importante nos acostumarmos com as pequenas perdas, pois estas nos preparam para outras maiores, que inevitavelmente virão. Aqui está a importância de bastar-se a si próprio.

O exame de si também ensina que é de grande importância tomar as rédeas da fantasia para que esta não nos conduza sem rumo, a esmo. Esta lição nos ensina a não construir castelos no ar. A expectativa é mãe da desilusão. A fantasia não é capaz de julgar corretamente, pois está repleta de ilusões e erros de consideração. Esta regra é especialmente importante de ser observada à noite, antes de dormir, quando a imaginação, as fantasias e os sonhos correm soltos, agitando os pensamentos de modo desnecessário.

Os desejos que nascem da cobiça, da cólera e da concupiscência são as miragens mais perigosas. Destes desejos, devemos sempre ter em mente, que a maioria é simplesmente impossível de se realizar e que a grande outra parte simplesmente jamais deveria tornar-se realidade.

As imagens da fantasia são péssimos guias para a vida e horríveis na condução de si. Muito mais confiáveis são os conceitos cuidadosamente talhados pela reflexão, por isso Schopenhauer sempre aconselha o exame cuidadoso. Mas na maioria das vezes ocorre o contrário, sustentamos fantasmas e carregamos pesos desnecessários. A imagem da mulher amada pertence a este gênero, o cargo dos sonhos também. A alegria de sucesso é vendida par nos escravizar, sua satisfação é vã, suas imagens são vaidades, e sua busca, armadilhas.

As impressões externas são inicialmente mais fortes que a reflexão. Devemos ter essa constatação sempre em mente para não sermos arrastados tão facilmente. Para nos conduzir, não podemos nunca esquecer de nossa irracionalidade inata, ela é forte e está sempre a postos para agir sem pensar. O pensamento requer tempo e tranquilidade, apenas assim ele pode descer suas raízes mais fundo e dar os frutos mais doces.

Levando tudo isso em conta, olhando com cuidado, à distância, evitando a inveja, fantasias e ilusões, se planejando com cuidado e seguindo em frente com segurança, nos tornamos capazes de conduzir nossa própria vida. É recompensador ver como a determinação e o trabalho constante podem nos levar a grandes distâncias e belas criações. Devagar se vai longe, diz o ditado. As imagens são cuidadosamente talhadas pela reflexão e o comedimento.

Os conceitos e a vida intelectual abrem lentamente seu espaço por entre a precariedade da vida indolente. O pensamento é exercitado constantemente, para não correr o risco de atrofiar. Afinal, se os músculos atrofiam, o mesmo vale para o cérebro! O primeiro não deve ser colocado à parte, com o risco de tornar-se frágil e doentio. Mas é igualmente necessário ocupar-se com a alma. Fazer exercícios físicos e mentais. Neste sentido, caminhos novos valem tanto quanto ler livros novos. Ambos criam as condições da vida alegre.

O cérebro pensa como o estômago digere […] Devemos acostumar-nos a considerar nossas forças intelectuais como funções absolutamente fisiológicas, a fim de tratá-las, poupá-las e empregá-las adequadamente”

– Schopenhauer, Aforismos para a Sabedoria de Vida, p. 198

Texto da Série:

Sabedoria de Vida

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

Mais textos de Rafael Trindade
guest
2 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Frederico
Frederico
2 anos atrás

A solidão é para ser apreciada, mas uma troca de ideias para uma construção coletiva do pensamento também é extremamente prazerosa.

Marcos Machado de Almeida
Marcos Machado de Almeida
2 anos atrás

A Psicologia é assustadora,
Mas é muito sedutora também.
Palavra deste analisando.
Será que estou enganado?