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Depois de vermos a crítica que Bergson faz à psicofísica, com seu método científico, agora podemos ver quais são as raízes do problema e porque ele se constituiu desta maneira:

A ciência psicológica chegou na estranha noção de “Grandeza Intensiva”, dizendo que seria possível mensurar os dados da consciência com recursos quantitativos. Mas Bergson faz uma crítica deste método, afirmando que ele utiliza uma linguagem objetiva para falar de algo subjetivo. Por isso diremos que este conceito é um “misto mal elaborado”. Uma roupa conceitual que não veste bem o fenômeno que quer analisar. 

A psicofísica utilizará conceitos de quantidade para pensar a qualidade. A proposta de Bergson é fazer um exame rigoroso destes dois aspectos da realidade e mostrar que existem dois tipos de multiplicidade e portanto não podemos mensurar estados psicológicos sem desnaturá-los. 

O objetivo de Bergson é mostrar que a diferença entre subjetivo e objetivo, tempo e espaço, consciência e mundo é de natureza, não de grau.

Número

Comecemos pela ferramenta mais utilizada pela ciências físicas: o número. Para o senso comum, e para os matemáticos, os números podem medir tudo e são a base do nosso conhecimento. Contamos os dias, os minutos, os metros, as toneladas, os glóbulos vermelhos, a idade, os cabelos brancos, as batidas do coração a quantidade de insulina e assim por diante, infinitamente.

Mas o que é realmente um número? E como ele se forma? Ora, dirá Bergson, ele não passa de uma abstração e uma generalização da realidade.

Pensemos em um rebanho de carneiros num pasto. Para contar o número de carneiros, o que fazemos? Olhamos para o espaço onde eles estão e fazemos da multiplicidade uma unidade. Fazemos uma operação simples de soma: 1 +1 +1 +1 +1 +1 + 1 + 1 = 8. Pronto, são oito carneiros no pasto.

Claro que ao fazermos isso não levamos em conta o fato de cada carneiro ser único em si mesmo, alguns, por exemplo, são mais novos e outros mais velhos, uns são machos, outros são fêmeas, alguns foram vacinados, outros não. Ou seja, cada um tem a sua própria vida, diferente do outro carneiro ao lado. Mas nada disso importa, muito pelo contrário, todas as diferenças são ignoradas para se concentrar apenas nas semelhanças: isto é um carneiro, aquilo ali também, e lá também há outro.

Não basta dizer que o número é uma coleção de unidades; há que se acrescentar que estas unidades são idênticas entre si ou, pelo menos, que as supomos idênticas desde que as contemos”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

O que estamos fazendo ao somar? Acumulando de unidades. Neste caso, os carneiros diferem apenas do ponto que ocupam, são considerados iguais, mas em lugares diferentes. Bergson nos faz notar que há três operações realizadas aqui: primeiro, abstraimos as diferenças qualitativas, reduzindo a riqueza da realidade; depois realizamos uma justaposição espacial, colocando cada carneiro lado a lado; e por último, transformamos esta multiplicidade em uma unidade, utilizando um símbolo numeral.

Uma das características mais úteis e marcantes da unidade numérica é ser divisível sem perder a sua natureza. Podemos colocar quatro carneiros em cada lado, então pegar uma metade e cortar sua lã. O número de carneiros muda, mas os carneiros continuam carneiros. Como as unidades contadas são consideradas idênticas entre si, permanecem iguais quando divididas. Sua distinção é apenas de lugar.

Ou seja, o número é o símbolo da unidade de uma multiplicidade que respeita o princípio de identidade A = A. Toda a sua riqueza diferenciadora é ignorada, restando apenas a identidade na extensão.

Mas aqui Bergson nos faz notar algo muito importante para sua teoria, é o espírito que constrói o número. Não há duas maçãs, dois carneiros, ou duas pessoas iguais no mundo. Para somarmos se torna necessária a intervenção do espírito que despreza a riqueza do real, depois forma uma unidade numérica acrescentando novas unidades às já existentes.

É possível ver como a ideia de espaço aqui é importantíssima! Mas, dirá Bergson, também podemos contar em nosso espírito. Por exemplo, o mesmo pode ser feito com as batidas consecutivas do sino de uma igreja. Ao bater seis vezes, nós somos capazes de reter as batidas em nosso espírito, sem necessitar do espaço para contar.

O que diz Bergson deste fato mental? O ato de contar é um ato de pensar a temporalidade na forma de espaço, justapondo-os um a um, retirando sua força qualitativa e deixando apenas sua força quantitativa. Uma batida, duas batidas, três batidas e assim por diante.

Há duas espécies de multiplicidade: a dos objetos materiais, que forma um número imediatamente, e a dos fatos de consciência, que não poderia tomar o aspecto de um número sem a intermediação de alguma representação simbólica, na qual intervém necessariamente o espaço”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

O número é um ato de síntese do espírito. Ele é um recorte, um empobrecimento, um descartar excessos. Jamais poderíamos contar se não recortássemos o real segundo nossos interesses. Porque a realidade em si é múltipla demais para ser recortada e categorizada. Todo o processo de contagem temporal (sejam sinos, marteladas, oscilações do pêndulo) exige pensarmos o tempo como se fosse algo espacial.

Em suma, a Multiplicidade quantitativa é a justaposição de multiplicidades idênticas que forma uma unidade Numérica. Sendo assim, cada coisa difere apenas em grau, ou seja, sua divisão não muda a qualidade da coisa (4 maçãs + 3 maçãs = 7 maçãs). 

A Multiplicidade Quantitativa tem por condição o espaço, é nítida, sólida, busca a precisão e tem por função separar e distinguir uma coisa da outra, dando limites definidos na exterioridade. Funciona pelo princípio de identidade: A = A (“uma ovelha é uma ovelha, aqui está outra ovelha, agora já são duas”). Ou seja, a multiplicidade quantitativa procura colocar cada coisa em seu lugar, ordenando e definindo o mundo, dando nomes e classificações.

Mas a contagem, dirá Bergson, é o ato mais pobre do espírito, seu ato mais superficial. Pois é puramente quantitativo. Existe, segundo Bergson, outra maneira de lidar com a multiplicidade.

QUALIDADE

Se, para contar os fatos da consciência, os temos de representar simbolicamente no espaço, não é verossímil que esta representação simbólica modificará as condições normais da percepção interna?”

– Bergson, Dados Imediatos da Consciência

Quando chegamos à noção qualidade, já estamos viciados pela ideia de número. Isso nos leva a pensar a qualidade como fruto da quantidade. Dizemos, “tantos Herts dão uma nota, e a frequência da onda eletromagnética gera uma cor”. Somos levados a dizer que a diferença da qualidade é fruto da diferença de quantidade. Medimos as coisas usando réguas e dando símbolos. Mas Bergson acredita que seja exatamente o contrário.

Não há algo de errado aí? O fato de analisarmos o tempo como um meio homogêneo, não seria o reflexo de uma intrusão da ideia de espaço no domínio da consciência pura? Sim, dirá Bergson, não podemos usar a noção de grandeza numérica para entender o que é a consciência. Essa ideia de tempo homogêneo não é apenas uma analogia, mas uma falsificação do que é realmente a multiplicidade qualitativa e uma confusão do espaço com o tempo.

No domínio da consciência, não podemos separar seus estados presentes dos anteriores como se fossem elos de uma corrente. Há na consciência uma penetração mútua de cada sensação. Seus estados se misturam, como um caldeirão onde jogamos cada vez mais ingredientes. Ou seja, os estados se sucedem, mas não são decomponíveis em graus.

É por isso que é difícil responder quantitativamente perguntas sobre sentimentos e emoções:

  • Quando a pessoa que amamos começa a ser amada? É o seu jeito de mexer o cabelo, é sua maneira de falar, é a roupa que ela veste? Qual é o momento preciso em que o amor aparece? Não poderíamos dizer. 
  • Quando a música que ouvimos nos faz chorar? É quando chega no refrão? É quando chega ao fim? Qual é a nota específica que faz a gente se emocionar?
  • Quando passamos a odiar nosso emprego? É na primeira hora extra que fazemos? É na terceira vez que nosso chefe grita com a gente?
  • Quando o balanço do berço faz o nenê dormir? Na décima vez? Na vigésima vez?

É difícil falar da multiplicidade qualitativa porque nossa própria linguagem não é apropriada para isso! A linguagem é feita de recortes do real, é difícil usá-la para falar daquilo que não pode ser recortado, não pode ser reduzido.

Todas as dificuldades do problema, e o próprio problema, derivam de se querer atribuir à duração [consciência] os mesmos atributos que à extensão”

– Bergson, Ensaio sobre os dados Imediatos da Consciência

Bergson cria um conceito para vestir perfeitamente estes estados da consciência psicológica, respeitando a sua natureza. Para falar de consciência precisamos pensar de uma maneira completamente diferente, usando o conceito de Multiplicidade Qualitativa. Nela não pode ser feita uma divisão clara de um ponto a outro. 

A psicofísica procura colocar os estados da consciência um do lado do outro, como bolas de bilhar, mas as coisas não funcionam exatamente assim na consciência. Tudo que acontece conosco se mistura em uma duração contínua. Nossa consciência é o tempo todo uma só mistura composta de tudo que nos afeta e afetou.

Não dizemos que nossa felicidade está em dois e depois sobe pra sete depois cai para cinco. Sabemos apenas que estamos passando por uma variedade de sensações que não sentíamos antes.

Sendo assim, a multiplicidade qualitativa concilia duas características aparentemente divergentes: a mais absoluta heterogeneidade – pois cada coisa é singular – e a perfeita continuidade – porque um momento não pode ser separado outro. Ou seja, a consciência o tempo todo difere dos outros e de si mesma, sem deixar de ser o que é, e todos os seus momentos se fundem em um só.

Em suma, a Multiplicidade qualitativa é a sucessão de momentos no tempo, eles se fundem numa unidade heterogênea. É absolutamente interna e sucessiva: está o tempo todo fluindo e este fluir se funde numa sucessão de momentos emaranhados uns nos outros. É como melodia onde cada nota altera radicalmente a qualidade da melodia. 

É difícil definir este tipo de multiplicidade pois ela não possui uma identidade clara, recortada, distinta, seus limites simplesmente se misturam, de fundem, com todo o resto. Seu movimento é contínuo e impede a nitidez. Ou seja, há a quebra do princípio de identidade, pois A se torna B, depois C, lembrando Heráclito, “Nada é permanente, exceto a mudança”.

Esta multiplicidade é o completo oposto da quantitativa. Ainda bem, porque uma é usada para compreender a matéria e a outra para compreender a consciência. Sendo assim, podemos tirar uma conclusão extremamente importante: para Bergson, esta multiplicidade não é divisível, pois ao se dividir, cada parte se transforma em uma coisas diferentes.

De um lado temos uma multiplicidade para medir quantidades, exterior, espacial, simultânea e homogênea; do outro lado temos uma multiplicidade para entender a consciência: interior, temporal, sucessiva e heterogênea. E no meio temos os mistos mal elaborados, o filho bastardo.

Texto da Série:

Duração

Rafael Trindade

Autor Rafael Trindade

Quero fazer da vida o ofício de esculpir a mim mesmo, traçando um mapa de afetos possíveis.

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Rosélia
Rosélia
10 meses atrás

Perfeito texto!

Celeste Maria Barros de Azevedo
Celeste Maria Barros de Azevedo
10 meses atrás

Texto muito bem elaborado e explicitado para que leigos como nós possamos compreender um pouco da complexidade do ser humano. Iremos ler outros textos do autor a fim de mais nos enriquecermos, culturalmente..