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Cada letra deste texto é efeito de uma penetração dos dedos sobre teclas maliciosamente preparadas para recebê-los. Afoitas como polinizadores a observar as flores ao Sol, as ideias me querem atravessar as mãos: forneço-lhes o contato, permito-lhes as reentrâncias, tentando conter a pressa, desejando estacionar o tempo. Se não me prejudicasse a lógica, repetiria as frases por puro gosto, deixaria o verbo escapar solto, flertaria com o que não tem sentido, nem nunca terá. Quem sabe esta doce orgia de palavras que agora lhe entra pelos ouvidos transmita uma parte deste prazer que é pensar por escrito.

Nem sempre somos capazes de experimentar a sensualidade que é existir. Às vezes a vida não ajuda mesmo, mas não é só isso: a própria imagem que fizemos da relação sexual parece nos impedir o acesso a esta dimensão erótica de ser um corpo no mundo. Talvez não exista em nosso imaginário ideia mais preconcebida do que aquela que fazemos sobre o sexo. Ingênuos, nós acreditamos que a interação sexual se restringe ao encontro das genitais. Mais do que isso, cremos que a especificidade desse encontro define algo de essencial sobre nós mesmos. Poucos hoje ousariam dizer que o sexo é apenas mais uma entre outras interações possíveis entre corpos. No entanto, no que exatamente ele se diferencia delas? A reprodução seria uma boa resposta, se não tivéssemos há já alguns milênios aprendido a fazer outros usos das práticas sexuais.

No primeiro volume de sua História da Sexualidade, Michel Foucault propõe a hipótese de que, na cultura ocidental eurocentrada, a sexualidade se constituiu como um campo discursivo no qual o sexo é tomado como manifestação de uma espécie de verdade sobre o sujeito. Ele aponta duas causas principais que operaram um deslocamento nas práticas de prazer: primeiro, a visão cristã dos pecados da carne junto de seu mecanismo confessional; segundo, a transformação do corpo em objeto das ciências médicas e a invenção de sua normalidade. A cristianização da cultura fez o sexo aderir à alma, enquanto a medicalização do saber fez da sexualidade a porta privilegiada para a doença e a anormalidade.

A cristianização da cultura explica porque, ao experimentar nosso corpo no mundo, carregamos o peso de uma alma sexual, pronta para ser julgada pelos seus terríveis atos carnais, pelos calores singulares que a movimentam, pela frequência de suas humidades, pela intensidade de seus espasmos, pelo desejo de entregar-se aos passantes. Por outro lado, a medicina inventou o homo sexualis – o ser humano definido pelo uso que faz de sua sexualidade – e agora adotamos o hábito de nos definir por seus critérios específicos. Isso se deu em processo contraditório em que conquistamos alguma liberdade nos termos, mas não sem submeter o prazer a uma nova moralidade: foram dadas as condições para burocratizar o sexo e rezar a missa de nossa própria sexualidade.

Em nosso tempo, o sexo vale a morte, qualquer praticamente dissidente da norma sabe bem – e a norma é bem apertada. Nos anos 1980, Gayle Rubin definiu o conjunto de condições para que a sexualidade fosse considerada “boa”, “normal” ou “natural” como: heterossexual, conjugal, monogâmica, reprodutiva, não comercial, intrageracional, doméstica, sem objetos de fetiche, nem troca de papéis de gênero. Sabemos que as últimas décadas flexibilizaram consideravelmente alguma destas categorias. Ainda assim, parece que a maioria de nós continua submetida à sexualidade como um campo de verdades dadas e, assim, segue assombrada pela diversidade de seus próprios desejos.

Entre sexo e sexualidade há um jogo de forças em contradição, um sistema de pesos e contrapesos. É estranho, mas parece que, ao hiper valorizar a sexualidade, complicamos a vivência da pele. Nunca falamos tão abertamente sobre sexo, é verdade, mas a ideia de que o discurso se converte diretamente em liberdade parece uma conclusão apressada, porque o sexo nunca teve um papel tão definidor quanto tem hoje. Ao mesmo tempo que temos mais possibilidades de assumir determinadas identidades, impensáveis no passado, nunca antes isso prescreveu tantos significados para os usos do sexo. Assim, parece mais correto pensar a experiência sexual como um cabo de guerra entre o prazer e a identidade, entre o toque e o nome, a relação e o imaginário.

Quanto mais força tem o discurso sobre o sexo, mais os sistemas sexuais precisam ser compreendidos como processos políticos, e isso é ao mesmo tempo uma conquista e uma responsabilidade. É evidente que conquistamos novos direitos, mas isso significa também que convivemos com novos deveres, e talvez ainda não estejamos cientes disso. Possuímos ainda a capacidade de experimentar nosso próprio corpo à despeito de qualquer especificidade identitária? Com frequência temos visto sintomas que nos mostram o quão minado o campo da sexualidade: a desvalorização da masturbação como substitutiva do sexo; a virgindade tardia sentida como falha; o orgasmo como única meta; a interação predominantemente genital e falocêntrica; o juízo sobre a quantidade de sexo feita; o assombro com a possibilidade de deixar de ser hetero, entre muitos, muitos outros.

Daí a necessidade de nos perguntar o quanto ainda somos capazes de fazer do sexo uma interação lúdica com o mundo e com os outros. A relação que estabelecemos com as nossas verdades tem passado pela estranha consideração das partes que colocamos em contato com os outros: se saímos, beijamos várias bochechas e apertamos muitas mãos, nos vemos e também somos vistos de uma determinada maneira, mas a depender de quais partes beijamos ou apertamos, isso pode mudar radicalmente a situação – colocado assim nestes termos fica tudo bastante arbitrário e sem sentido, e é mesmo. Nossa relação com o mundo foi seccionada pela maneira como vivemos o sexo, sendo que o próprio sexo foi reduzido a uma situação extremamente específica.

Para uma vida sexual mais interessante, talvez ajude perceber como as coisas todas estão interpenetradas, como a interação excitada dos corpos é muito mais rica do que sua redução genital e, assim, acontece com muito mais frequência do que estamos acostumados a perceber. A sensualidade é uma espécie de sintonia que acessamos ao dar lugar aos variados estímulos que habitam a interface dos corpos. Perceber as coisas existindo em contato pode nos ajudar a inventar uma ludossexualidade, a partir da qual possamos recuperar o sexo como uma recreação dos corpos em encontro e uma nova liturgia para os prazeres. Levando em consideração as ideias nas quais enfiamos o sexo, não parece uma tarefa assim tão fácil – apenas as inocências são dignas de brincadeira.

 

Rafael Lauro

Autor Rafael Lauro

Um dos criadores do site Razão Inadequada e do podcast Imposturas Filosóficas, onde se produz conteúdo gratuito e independente sobre filosofia desde 2012. É natural de São Paulo e mora na capital. Estudou música na Faculdade Santa Marcelina e filosofia na Universidade de São Paulo. Atualmente, dedica-se à escrita de textos e aulas didáticas sobre filósofos diversos - como Espinosa, Nietzsche, Foucault, Epicuro, Hume, Montaigne, entre outros - e também à escrita de seu primeiro livro autoral sobre a Anarquia Relacional, uma perspectiva filosófica sobre os amores múltiplos e coexistentes.

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Airton Silva de Souza
Airton Silva de Souza
7 meses atrás

Um texto bastante interessante sobre a sensualidade, o poder do sexo sobre nós, os humanos, mas me parece que ao falar em cristianização da sensualidade e do sexo, parece para mim, que já é tempo de parar de falar em cristianização sem que se tenha como guia o catolicismo e demais vertentes, com interpretações puramente humanas e tendenciosas ao domínio do outro,onde foi e é utilizada a fé em um Deus bem distante do que é anunciado. O espiritismo aceita a sensualidade e o sexo como algo divino, prazeroso e bastante útil para nossa evolução. Claro que dentro de um… Ler mais >

Marcos Freitas
Marcos Freitas
Reply to  Airton Silva de Souza
7 meses atrás

Adorei o seu questionamento Airton! Mas o espiritismo kardecista, bem como a umbanda são considerados – teoricamente falando, óbvio – no rol dos “novos movimentos religiosos” tendo início por volta do final do século XIX e início do XX. E por mais que o kardecismo tenha o cristianismo como alicerce, esses movimentos se distanciam das formas doutrinárias estabelecidas pelas muitas variações do cristianismo “clássico”. Quando estive em Portugal como estudante de Ciências Sociais, pude fazer uma pequena pesquisa junto ao Centro Espírita Caminheiros da Luz, na cidade do Porto; e por uma infelicidade do meu estado de amadurecimento na época,… Ler mais >

Miguel Mascena
Miguel Mascena
7 meses atrás

Que texto malicioso em skskkskssk, adorei