“O vírus da peste dorme, mas nunca morre”, disse certa vez o filósofo argelino Albert Camus. Com esta metáfora, ele se referia à ascensão e queda do nazismo na Europa. E hoje nós dizemos: “A peste está mais acordada do que nunca”. É importante dizer com todas as letras: sim, o fascismo vive e ele está no meio de nós. Todas as sociedades liberais o abrigaram durante este tempo de forma latente, e agora que o capitalismo precisou afirmar com todas as forças a sua violência estrutural, ele acordou. A bem da verdade, ele nunca dormiu, apenas agia longe dos olhos, em outros continentes. Mas a violência colonial agora tornou-se estatal.
“No fundo, o que não se perdoa a Hitler é ter aplicado à Europa processos colonialistas a que até aqui só os árabes da Argélia, os ‘coolies’ da Índia e os negros de África estavam subordinados.” – Aimé Cesaire, em Discurso sobre o colonialismo.
Qual a necessidade do fascismo emergir? Ele mostra a exigência de uma classe dominante em explorar seus trabalhadores até o limite do inimaginável. E desta forma, torna-se impossível “desculpá-lo” com análises psicológicas. Não, nem explosão de irracionalidade, nem regressão libidinal, ou qualquer outra forma de arcaísmo pulsional. O fascismo não é um eclipse que se dissiparia aos primeiros raios de sol da razão. Insistimos, ele é uma questão capitalista, sócio-histórico-econômica, e veio pra ficar.
Entretanto, isso leva a uma questão difícil: como descrever o fascismo sem se utilizar dessas análises moralistas? As explicações fáceis de regressão, loucura, inveja, psicopatia, servem apenas para nos dar a segura sensação de superioridade. Mas o julgamento moral não leva à compreensão. Se a ascensão autoritária não é uma patologia da parte de facínoras e psicopatas, então sua prática é sustentada por pessoas normais, como eu e você.
O fascismo se estrutura a partir de dois elementos:
- Acreditar na hipótese social da “guerra de todos contra todos”. A constatação do neoliberal é uma só: não há sociedade para todo mundo. A crise infinita é o novo normal, e não tem previsão de parar. Para enfrentar a situação, o “empreendedor” precisa de uma estratégia de sobrevivência. Na selva do mercado onde todos se enfrentam, um dia uns serão caça, e no outro – assim imaginam – o caçador. O que se naturalizou aqui é o completo desamparo social da classe desprivilegiada deixada por sua própria conta. Desconfiando uns dos outros, não há mais solidariedade possível. Quando toda e qualquer forma de laço social se desfaz, o sujeito se vê à deriva. O empreendedorismo, que se vende como um forma de liberdade, se mostra como a mais pérfida violência, reduzindo toda relação social à forma da competição e da concorrência.
- Dessensibilização profunda e contínua para a violência que esta condição sócio-econômica implica. A dessensibilização ao sofrimento de si e do outro permite que uma sociedade à beira do colapso não exploda em revoltas. Toda forma de sensibilidade é encarada como loucura, um perigo para o status quo e digna de ser medicada. Os afetos são reprimidos, principalmente aqueles que geram união e solidariedade. Mas ao contrário do que se imagina, a dessensibilização se dá através dos excessos. Excessos de estímulos, excesso de informações, excesso de demanda de atenção. Apenas uma dessensibilização sem precedentes permitira que a nossa geração se tornasse a primeira a acompanhar um genocídio ao vivo, nos jornais, na televisão, nas telas do celular. As imagens de pessoas famintas e desmembradas da faixa de Gaza se misturavam com cenas do vencedor do último reality show e gatinhos fazendo travessuras.
É diante deste desagregamento psico-sócio-econômico que o fascismo oferece sua solução. Uma saída narcísica: a militarização do eu. Em meio à brutal fragilização surge um personagem: o fascista neoliberal. Para ele, a sociedade é uma selva onde cada um deve encontrar as ferramentas para prosperar sozinho contra tudo e todos. Não há espaço para erros, misericórdia, ou descanso. É matar ou morrer. Este personagem conceitual coloca em prática tudo o que aprendeu em tutoriais de youtube e reels do instagram.
Como não há recursos para todos, este homem tornou-se o lobo do homem, é cada um por si, dando o seu melhor para sobreviver. O outro é o inimigo. Mas não tem problema, ele acredita que basta acordar cedo, ser esforçado, investir bem seu dinheiro, atentar-se para os bons costumes que tudo vai terminar bem. Em seus delírios de autopreservação, o neoliberalismo produz monstros militarizados e dessensibilizados para a absurda violência social à qual são submetidos diariamente. Mas esta liberdade total fala na verdade de um abandono total. É aí que aparece o ideal de um corpo invulnerável, heróico, impiedoso, ininfectável (imbroxável, deveríamos dizer?). Quanto maior a fragilização da vida no capitalismo neoliberal, mais a necessidade dos sujeitos hipercompensarem imageticamente sua condição miserável.
No entanto, terminar esse texto em um tom fatalista seria fazer exatamente o que a sociedade fascista espera: aceitar as verdades impostas pelo mercado e destruir mais ainda nosso eu coletivo. Sendo assim, fica a pergunta, quais seriam os personagens sociais capazes de resistir ao fascismo? A resposta não é fácil, o proletário revolucionário está destruído, os profetas messiânicos estão nas igrejas evangélicas defendendo o estado assassino de Israel.
Ousemos então, num ato de delírio, insistir no Nós. Sim, se eles querem dominar a cultura, cabe a nós emprestar livros, dividir o fone de ouvido, declamar poesia na praça pública. Se eles plantam a liberdade como propriedade individual, cabe a nós reflorestar nossos bairros com relações de escuta e práticas de solidariedade. Imaginar novos mundos, é isso que eles não são capazes de fazer.
Não estamos falando de uma revolta puramente espetacular, para ganhar likes no instagram, isso tornaria a própria insatisfação uma mercadoria no campo da aparência. Estamos falando de sentar em torno da fogueira e falar de como podemos ir mais longe juntos. Se eles dizem que a sociedade não é para todos, nos atrevamos a partilhar sempre, e um pouco mais. O fascismo se enfrenta recusando o mundo que nos foi apresentado, e duvidando de tudo que nos rouba a comunidade. Dancemos com o fim. Agora que não existe mais futuro, podemos, em rede, imaginar o inimaginável.
Referências
- A Ameaça Interna – Vladimir Safatle
- A Esquerda que não teme dizer seu nome – Vladimir Safatle
- A Nova Razão do Mundo – Dardot e Laval
- Nas Ruínas do Neoliberalismo – Wendy Brown




