Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” – Nietzsche, Para Além do Bem e do Mal, §146
Todo devir é uma modificação que ocorre após um encontro. Inclusive, ele se faz apenas através dos encontros, nas relações. Mas a diferença é que este conceito não contém a ideia de finalidade. Ou seja, sem telos, sem ponto final, ele é uma abertura para novos sentidos. Um devir não tem um objetivo, ele mostra a força e a plasticidade do existir. Se plantamos uma macieira, e no futuro ela dá maçãs, isso não surpreende. A árvore floresce e dá frutos como pré-determinado. A questão é que o devir é um desvio do pré-determinado. Sendo assim, podemos dizer que todo devir é uma modificação não programada do real.
Pois bem, se todo devir se faz no encontro, o que acontece quando um filósofo olha através de um telescópio? O que aconteceria se Simone de Beauvoir e Madame Curie sentassem para conversar? Qual desvio ocorre? Dito de maneira mais direta: quais os pensamentos e sensações brotam do encontro da filosofia com o céu estrelado? O resultado é imprevisível, pode ser nada, e a vida continua seu rumo, mas pode ser tudo! Angústia, admiração, medo, repulsa, gratidão, são alguns dos sentimentos. Esta é a questão, algo novo apareceu e o observador se modificou. Sendo assim, é exagero dizer que o contato com estrelas, supernovas e galáxias pode mudar a nossa maneira de viver? Caso a resposta seja sim, então podemos chamar este encontro de Devir-Cósmico.
Inicialmente, pode parecer estranho criar este conceito. Todo devir é um encontro que se faz no toque, na liminaridade de dois mundos; ora, somos tão pequenos em relação ao universo, como se relacionar com uma galáxia a milhões de anos-luz de distância? Talvez por isso este conceito tenha demorado pra nascer. Mas o devir também passa por sutilezas, pode ser ínfimo, pode ser quase imperceptível – um feixe de luz atingindo a retina – mas o corpo guarda segredos não revelados da sua maneira de afetar e ser afetado.
O que aconteceu quando Galileu observou pela primeira vez as luas de Júpiter? Provavelmente um Devir-Cósmico, ele não poderia mais ser o mesmo, não poderia “desver” as luas de Júpiter. Tudo o que transcende o cotidiano, nos desloca e coloca novas perspectivas. Quando dois mundos heterogêneos colidem, a força do acontecimento arrasta também as ideias. Quais as implicações existenciais de saber que o universo está em expansão acelerada? Observar o movimento dos astros é uma maneira de transcender o nosso pequeno eu, de nos ligar a algo maior. Quem olha para o alto não sai ileso, e não pode voltar a ser o mesmo depois deste imenso mergulho para cima.
Qual a relevância de saber que somos parte de uma galáxia no meio de outras bilhões de galáxias? Por que saber que buracos negros dobram o espaço tempo? As descobertas não precisam ter uso pragmático direto, muitas vezes sua modificação é existencial. O devir é um conceito filosófico, fala de uma subjetividade que se rompe, que incorpora uma nova maneira de existir no mundo. Não saímos ilesos destas descrições. Somos afetados pelas coisas que descobrimos. É este o afeto que estamos chamando de devir-cósmico.
Qual o primeiro passo? Olhar para cima, observar. Quem menos pedir, mais receberá. O mais absoluto fora modifica o que se passa dentro. Esta postura nos dá algo incrível, assustador, imenso. Nos sentimos ao mesmo tempo minúsculos e gigantescos, importantes e desprezíveis, maravilhados e aterrorizados. Mas não se preocupe, enquanto o universo se abre, podemos decidir até que ponto mergulharemos. Qual o limite? Até onde o corpo traçar uma linha angustiante demais para atravessar, e o céu azul sempre está aí para dissimular o abismo.
Nós somos o cosmos em forma humana, olhando conscientemente para si mesmo, somos o ponto de encontro onde a matéria composta de estrelas mortas adquire a percepção de si mesma. Nós somos este olhar para a vastidão da existência e a vastidão da existência. Temos o privilégio de sermos conscientes disso. Temos o privilégio de saber que isto está acontecendo, agora, exatamente neste momento. O devir cósmico acontece quando existencialismo e astronomia se encontram. E é este devir que faz alguém se tornar astronauta, mas também filósofo. Um devir cósmico nos faz querer ir para cima, onde ninguém foi antes, mas também nos leva para dentro, onde poucos tiveram coragem de ir. Um devir cósmico faz foguetes e filósofos darem as mãos.
Infelizmente o céu noturno hoje está ofuscado pelas luzes da cidade e não conseguimos mais distinguir a imensidão das estrelas. Afinal, um jeito de cegar é ofuscar, iluminar demais. Nossos olhos vermelhos, irritados com a luz das telas, não têm tempo de olhar para cima numa noite de lua nova. Mas como seria belo! E quais seriam os efeitos? Ou melhor, quais seriam os desvios? Muitos diriam que cairíamos, como Tales antes caiu, em buracos por aí. Desavisados e distraídos, não seríamos mais prestativos e utilizáveis. O telescópio é um instrumento perigoso, capaz de despertar algumas pessoas de seu sono hipnótico.
A perspectiva cósmica nos faz levantar a cabeça e entender que vivemos em um mundo muito, realmente muito maior; e por isso mesmo cheio de possibilidades. Isso é desconfortável e bom, como todo devir. Observar o movimento dos astros é uma das muitas maneiras de transcender o nosso pequeno eu, compreender que não éramos aquilo que pensávamos ser, e que podemos nos tornar aquilo que ainda nem sonhávamos.
Referências:
- Imagens de David pogran – Instagram
- A nova Aliança – Prigogine e Stengers
- O Universo Invisível – Lisa Randall
- Nosso Universo – Jo Dunkley
- O Ser e o Nada – Sartre
- Mil Platôs Vol.4 – Deleuze e Guattari
















